ANO IV

09/06/2026

HojePR

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Um dó à meia-luz

09/06/2026
meia-luz

Quando os tons ainda se confundem no céu, antes da noite preta, a luz do abajur deles se acende.

Há quase vinte anos moro em frente a uma bela residência, de jardim impecável, cuidado por Dona Regina. Sou atraída pela meia-luz, atrás das cortinas brancas que, de repente, tornam-se douradas. De longe, o cenário já me aquece. O aconchego atravessa a rua.

Na iluminação que se insinua há um encanto discreto, um mistério. Nem tudo precisa ser visto com nitidez. Uns se escondem no escurinho, outros se libertam.

Poucas vezes uso luz indireta em casa, fora do quarto. Esses dias, ao chegar, observei os vizinhos e tive vontade de estar naquele ambiente: claridade amena, família, carinho, conversa, cobertor. Lembrei do abajur de sala do primeiro apartamento, em tecido cru, da TokStok. Nunca foi aceso. Mas houve fogo na lareira. No escuro, a dança das labaredas me magnetizava. Eu inventava estórias até que elas se apagassem e o frio me trouxesse de volta à realidade.

O ritual da casa em frente continua mexendo comigo. Entro em minha sala, com seus doze pontos acesos. Fico com um só, suspenso do teto até quase tocar o sofá. Saio lá fora e vejo, atrás das vidraças, nuances levemente amareladas, em tom baixo, fazendo um espetáculo inédito.

Sento-me. Aproximo-me da lâmpada. É suficiente para enxergar o caderno – nunca pedi muito. Estou no clima.

Dedilho um dó no piano. O som flui pelo espaço e foge lentamente. As memórias vêm até mim. Não as quero agora. Elas doem.

No fim da tarde a gente sempre está sozinho. É no silêncio que novas histórias começam a nascer. Afinal, acabei de acender a minha própria luz.

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1 comentário em “Um dó à meia-luz”

  1. Lindo, como sempre. Forte. Maria do Rocio sempre me emociona. Traduz em palavras sentimentos, cores, sensações… Demais!

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