ANO IV

09/06/2026

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Entre a censura e a manipulação

09/06/2026
ministro nunes marques

Poucas coisas são tão incompatíveis com a democracia quanto a censura. E poucas coisas são tão incompatíveis com a boa informação quanto a manipulação. O episódio envolvendo a suspensão da divulgação de uma pesquisa eleitoral da AtlasIntel conseguiu colocar os dois problemas na mesma discussão.

Do ponto de vista jornalístico, a censura é sempre uma aberração. Não existe censura boa, censura necessária ou censura pedagógica. Existe apenas censura. Quando uma autoridade pública decide impedir que determinada informação circule, ainda que sob justificativas aparentemente nobres, cria-se um precedente perigoso. Afinal, quem decide o que pode ou não ser conhecido pela sociedade? Quem define quais dados merecem chegar ao eleitor e quais devem permanecer escondidos?

A liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e a liberdade de informação não foram concebidas para proteger apenas aquilo que agrada aos governos, aos tribunais ou aos grupos políticos. Foram concebidas justamente para proteger aquilo que incomoda. Democracias maduras enfrentam informações contestáveis com mais informação, não com proibições.

Por isso causa estranheza a decisão do atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, de suspender uma pesquisa que apresentava resultados desfavoráveis ao bolsonarismo. Bem, vale lembrar que Nunes Marques é um produto do bolsonarismo. Enfim, independentemente das preferências políticas de cada cidadão, o fato é que impedir a divulgação de um levantamento eleitoral constitui medida extrema, especialmente quando o debate público deveria estar concentrado na análise crítica dos dados e não na sua supressão.

Mas seria igualmente ingênuo encerrar a discussão aí.

O mercado de pesquisas eleitorais brasileiro acumulou, ao longo dos anos, uma série de episódios que justificam atenção permanente. Não são poucos os casos em que institutos produziram levantamentos metodologicamente questionáveis, formularam perguntas capazes de influenciar respostas ou construíram cenários que pareciam desenhados para conduzir o entrevistado a determinada conclusão.

Nem sempre a manipulação ocorre nos números finais. Às vezes ela aparece antes, na forma como a pergunta é feita. Uma palavra colocada estrategicamente, uma associação negativa introduzida antes da resposta ou um contexto apresentado de maneira seletiva. Pequenos detalhes metodológicos podem alterar significativamente o comportamento dos entrevistados.

E isso não acontece apenas em benefício de um campo político. A tentação de produzir resultados convenientes é um risco que ronda qualquer instituto, qualquer contratante e qualquer pesquisa. A busca pela credibilidade exige rigor técnico, transparência metodológica e compromisso ético permanente.

O problema é que combater pesquisas ruins por meio da censura costuma ser uma solução pior do que o próprio problema. Se um levantamento é falho, que se exponham suas falhas. Se uma metodologia é tendenciosa, que especialistas a desmontem publicamente. Se um instituto erra, que sua reputação arque com as consequências.

A resposta para uma pesquisa suspeita deve ser mais escrutínio, mais debate e mais transparência. Nunca menos informação.

No fim das contas, talvez a principal lição deste episódio seja lembrar que democracia exige vigilância em duas frentes ao mesmo tempo. É preciso desconfiar dos que desejam controlar o que a população pode saber. Mas também é preciso desconfiar dos que tentam influenciar a população disfarçando persuasão de pesquisa científica.

Entre a censura e a manipulação, a democracia não deveria ser obrigada a escolher. Deve rejeitar ambas.

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