Durante grande parte da história da fotografia, a impressão foi um processo inseparável da captura. No século XIX, os daguerreótipos e papeis albuminosos eram os únicos meios de fixar uma imagem. No século XX, os álbuns familiares tornaram-se repositórios de memória, e a revelação química fazia parte do ritual fotográfico. No entanto, com a ascensão da fotografia digital, essa necessidade técnica se transformou em uma escolha estética.
A impressão, hoje, não é mais um requisito para a existência da fotografia, mas um refinamento da imagem. Ansel Adams, mestre da fotografia em preto e branco, defendia que a impressão era a última etapa do processo criativo, permitindo ajustes precisos de contraste, luminosidade e textura. Esse pensamento persiste no digital, onde a impressão fine art – com papeis de algodão e tintas pigmentadas – se tornou um método sofisticado para garantir longevidade e qualidade artística às imagens.
Além dos aspectos técnicos, a materialidade da impressão altera a relação do espectador com a fotografia. Susan Sontag (2004), em ‘Sobre a Fotografia’, discute como a fotografia impressa cria um vínculo mais profundo entre a imagem e quem a observa, pois permite uma experiência tátil e um senso de permanência. Diferente das imagens digitais, que deslizam incessantemente pelas telas, as fotografias impressas têm peso, presença e durabilidade.
John Szarkowski (1980), em ‘The Photographer ‘s Eye’, reforça essa ideia ao afirmar que a fotografia impressa é uma ancoragem do olhar no tempo e no espaço. Enquanto no digital a imagem pode ser editada, deletada ou esquecida em meio a milhares de outras, a impressão exige uma escolha deliberada.
Se antes imprimir era uma necessidade técnica, hoje é um gesto consciente de preservação e valorização da imagem. Em um mundo onde a maioria das fotografias desaparecem sem nunca ganhar um corpo físico, imprimir é um ato de resistência à efemeridade.
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