Quem não lembra do repertório de músicas geniais de Cassiano ou será que ele já foi completamente esquecido? A trajetória errática de sua carreira sempre me intrigou e resolvi saber mais sobre Genival Cassiano dos Santos, nascido em Campina Grande, em 1943, e falecido recentemente no Rio de Janeiro, em 2021. É unanimemente reconhecido, ao lado de Tim Maia e Hyldon, como um dos três grandes precursores do estabelecimento de uma cena de black music na música popular brasileira. Sua carreira artística, contudo, ficou comprometida por conta de um grave problema respiratório no final dos anos 1970, no qual ele perdeu uma parte dos pulmões. Além da dificuldade de atuar como cantor, a relação de Cassiano com a indústria fonográfica deteriorou-se ainda mais, o que acabou levando a reclusão total do compositor ao longo das últimas três décadas da sua vida. Lembro de assistir, em 1991, uma entrevista dele ao Jô Soares em que Cassiano parecia totalmente fora da casinha. Infelizmente ou felizmente, só achei nas redes este trecho do programa: https://www.youtube.com/watch?v=JffVJY-YIRc
Nascido na Paraíba, viveu pouco tempo lá, sendo que uma das lembranças dessa época é a amizade que seu pai tinha com Jackson do Pandeiro. No fim da década de 1940, mudou-se com a família para o Rio e trabalhou como assistente de pedreiro. Foi nessa época que aprendeu com o pai os primeiros acordes de bandolim e violão.
Iniciou a carreira musical em 1964 como violonista do “Bossa Trio”, grupo que surgiu no rastro da proliferação dos conjuntos de samba jazz vinculados à bossa nova. Apesar da curta duração, o “Bossa Trio” gravou dois LPs e uma série de compactos. Após essa experiência, Cassiano, o irmão Camarão e o amigo Amaro fundaram “Os Diagonais”, grupo notadamente influenciado pela soul music americana. O forte do trio eram os vocais simultâneos. Chegaram a gravar até para Roberto Carlos. “Ele era um mestre em vocalização. Era impressionante, um talento”, diz Jairo Pires, que foi produtor de diversos discos de Tim Maia e diretor de grandes gravadoras.
Embora tenha participado apenas do álbum Os Diagonais, lançado em 1969, o trabalho musical de Cassiano no grupo chamou a atenção de outros artistas da cena brasileira. Entre eles, Tim Maia, que, depois de um período nos Estados Unidos, descobriu no compositor paraibano um outro entusiasta da obra de Marvin Gaye, Otis Redding e Stevie Wonder. Foi então que Tim convidou o músico a participar de seu primeiro disco – tanto como guitarrista quanto compositor. Cassiano assinou quatro das doze faixas do LP Tim Maia, de 1970: “Você Fingiu”, “Padre Cícero”, essa em parceria com Tim, “Eu Amo Você” e “Primavera (Vai Chuva)”, ambas em parceria com Sílvio Rochael e que se tornaram grandes sucessos nas rádios brasileiras.
No artigo “Cassiano, morto há quatro anos, deixou disco inédito e ‘baú do tesouro’ com fitas”, publicado na Folha de São Paulo, em 12/4/2025, Lucas Brêda conta sobre esta fase de Cassiano:
“Eram os primeiros meses de 1970, e Cassiano desfilava seu “black power” reluzente por São Paulo quando conheceu outro cabeludo chamado Paulo Ricardo Botafogo, de aspecto e ideologia hippie, fã de Marvin Gaye como ele. Nos alto-falantes de uma lanchonete, o locutor da rádio anunciava a nova música de Tim Maia, que deixou seu novo amigo boquiaberto.
“Ao som de “Primavera (Vai Chuva)”, a dupla pagou a conta, mas o dinheiro de Cassiano acabou. Ele estava sem lugar para dormir e pediu abrigo a Botafogo. Voltava de uma excursão, quando viu calças de homem no varal de sua mulher e não quis conversa. Também fez uma revelação. “Olha, essa música é minha, mas por favor não fale para ninguém.”
“Dita como um pedido singelo, a frase se tornou uma maldição para Cassiano. Autor de sucessos na voz de Tim Maia e Ivete Sangalo, o paraibano fascinou músicos, virou “sample” e rima dos Racionais MCs e gravou discos até hoje cultuados. Mas morreu há quatro anos como um gênio esquecido —a dimensão de seu talento é um segredo guardado por quem conviveu e trabalhou com ele.”
A boa vendagem do disco de estreia de Tim Maia possibilitou a chance para Cassiano gravar seu primeiro álbum solo, “Imagem e Som”, em 1971 pela RCA. Estão nele a versão do autor para “Primavera (Vai Chuva)” e duas parcerias com Tim, “Tenho Dito” e “Ela Mandou Esperar”. Embora tenha ganho reconhecimento posterior como uma sofisticada mistura de bossa, samba, soul e funk, o LP não teve uma grande repercussão na época do lançamento
Em 1973, pela Odeon, Cassiano gravou seu segundo LP, “Apresentamos Nosso Cassiano”, no qual interpretou dez composições de sua autoria, entre elas “Cedo ou Tarde” (em parceria com Suzana), “Me Chame Atenção” (composta com Renato Britto) e “Castiçal”. Embora algumas canções tivessem recebido um verniz mais pop, o disco ainda mantinha características experimentais, quase psicodélicas, e que ecoavam rock progressivo em outras faixas, o que também fez desse LP um trabalho de difícil assimilação nas rádios do país.
Foi então que, em 1975, Cassiano finalmente obteve êxito comercial com os singles “A Lua e Eu” e “Coleção” (ambas compostas em parceria com Paulo Zdanowski), cujo grande sucesso foi também impulsionado pela inclusão das músicas nas trilhas sonoras das telenovelas “O Grito” (na qual entrou “A Lua e Eu”) e “Locomotivas” (com “Coleção”), ambas da Rede Globo. Com essas duas canções no repertório, o álbum “Cuban Soul: 18 Kilates”, de 1976, se tornou o disco referência de seu trabalho, mas isto não facilitou a relação de Cassiano com as gravadoras.
Um hábito constante do artista era demorar para finalizar seus trabalhos, a ponto de as gravadoras desistirem de bancar as horas de estúdio e os músicos caros, pondo os projetos na geladeira. O produtor Carlos Lemos conta que Cassiano tinha uma precisão detalhista. “Ele tinha uma visão de matemática forte, de como as frequências combinavam. E era o grande segredo de tudo, porque nem sempre o resultado da sonoridade é o que está na imaginação. Só vi coisa parecida em João Gilberto. E também com Tim Maia —que não respeitava quase ninguém, mas respeitava Cassiano.” Este preciosismo acabou por prejudicar a evolução de sua carreira.
Em 1978, a Discos CBS desistiu de lançar um quarto álbum de Cassiano, por considerá-lo um produto sem retorno financeiro garantido. Nessa mesma época, os problemas de saúde começaram a atrapalhar a carreira musical do músico. Forçado a retirar parte do pulmão, Cassiano só pode retomar a carreira, em ritmo bem mais comedido, em 1984. Um novo trabalho, que também seria seu último LP de estúdio em vida, foi lançado em 1991. O disco foi chamado de “Cedo ou Tarde” (tenho um CD deste álbum gasto de tanto ouvir) e contava com as participações de Sandra de Sá, Ed Motta e Claudio Zoli — três artistas nitidamente influenciados por ele —, bem como de Djavan, Luiz Melodia e Marisa Monte. Além de sucessos antigos regravados, constam também uma ou outra composição inédita, como “Rio Best-seller”. Entretanto, sem o controle da direção musical do disco, Cassiano ficou extremamente insatisfeito com o resultado final deste “álbum tributo”, que não vendeu tão bem, o que frustrou os planos de gravar material novo. Mas, com o sucesso de “Coleção” na voz de Ivete Sangalo (ouça aqui: https://www.youtube.com/watch?v=0hzQGOKqfqU), Cassiano conseguiu comprar um apartamento na Lagoa Rodrigo de Freitas. Na época, praticamente não fazia shows e sobrevivia dos direitos autorais que ganhava com suas composições.
Em 2000, Ed Motta produziu “Cassiano Coleção”, um álbum de coletâneas com 14 faixas retiradas dos três LPs lançados entre 1971 e 1976. Fã declarado de Cassiano, Ed Motta dizia: “Ele era o João Gilberto do soul brasileiro. Mas, você imagine, um João Gilberto que não é abraçado pelos tropicalistas. Claro que ele tinha um gênio difícil, mas e a Maria Bethânia não tem?”
Uma reportagem da Folha de São Paulo, de 2001, retratou a dificuldade de Cassiano para gravar. “Levamos para várias gravadoras, mas nenhuma teve interesse, até por ele estar há muito fora da mídia. Mas sua participação em ‘Movimento’ prova que ele está a mil, numa fase criativa. Ele tem umas 150 músicas no baú”, disse William Magalhães na época. “Movimento”, o disco que marcou o retorno da banda “Black Rio” traz composições, arranjos e a voz de Cassiano, como a faixa “Tomorrow”.
Em 2021, os problemas pulmonares de Cassiano agravaram-se. Depois de algumas semanas internado no Hospital Estadual Carlos Chagas, no Rio de Janeiro, o compositor acabou vitimado, aos 77 anos, por uma arritmia cardíaca. Deixou um disco de inéditas incompleto, aquele gravado em 1978 e hoje em posse da Sony. Também tem gravações “demo” feitas nas décadas de 1980 e 1990 que há anos circulam entre fãs e amigos. Isso fora o que William Magalhães, líder da banda Black Rio, chama de “baú do tesouro” —as dezenas de fitas cassete com gravações caseiras nunca ouvidas.
“Ele nunca parou. Só parou para o mundo”, diz Magalhães, que herdou do pai, Oberdan, não só a banda que reativou nos anos 2000, mas a amizade e o respeito de Cassiano. “Todo dia ele tocava piano, passeava com gente simples, trocava ideia. Era tão puro que às vezes a gente duvidava da bondade dele.”
Em seu artigo para a Folha de São Paulo, Lucas Brêda conta sobre o último “não” que Cassiano ouviu de uma gravadora, dado por Paulo Junqueiro, presidente da Sony:
“A Sony passava por um período complicado, ele diz. Tinha feito uma reestruturação em que perdeu muita gente de sua equipe. “Do que ouvi, não fiquei tão fascinado e, quando pensei em fazer discos inéditos do Cassiano àquela altura, disse ‘não consigo’. Não tinha estrutura financeira nem emocional.”
“Posto isso, ele acrescenta que se arrepende profundamente. “Ajoelho no milho todos os dias. Tive uma oportunidade de ouro nas mãos, de registrar as últimas obras dele, e a perdi. Não tenho nem palavras para pedir desculpas à família, aos fãs e a mim mesmo. Não tenho como ser mais honesto do que estou sendo. Se gostei ou não, foda-se. Se vai vender para caralho ou não, foda-se.”
“Junqueiro se põe à disposição da família para lançar o disco de 1978, diz que tinha seus motivos para fazer o que fez, mas errou. “Se alguém tivesse me contado essa história, eu ia falar ‘olha que filho da puta, não gravou as coisas do Cassiano’. Então, se eu teria essa visão sobre alguém, eu no mínimo tenho que ter essa visão sobre mim também.”
Assim funciona o mundo da indústria musical para desespero de quem gosta de músicas especiais, como as de Cassiano.
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