ANO IV

03/06/2026

HojePR

Perigoso

15/08/2025

Ontem estive na Lapa. Algo se moveu nas brumas do tempo tropeirista.

Curto e grosso. Perigoso. É a alcunha do Tropeiro. Eu o vi e ouvi.

Mulato, baixo de feições duras no rosto.

Barba por fazer e costeletas sob o chapéu de couro.

Amarrou, na entrada da Venda de Secos e Molhados, sua cavalgadura, a Mula Sinhá, assim a chama.

Lá dentro no fogão a lenha crepitam, galhos secos. Fogo que aquece.

Cá fora o vento gélido chacoalha as araucárias e os pessegueiros.

Afrouxara a sela. Ajeitou-a nas costas e adentrou ao recinto. Parabélum na cintura. Adentrou pisando firme. Diante de nossos olhares incrédulos e atônitos

O coldre cravejado de botões de metais. Na cintura faca e punhais, espingarda cartucheira na mão.

Ao caminhar, suas botas de salto alto fremiam o piso das ripas de madeira do estabelecimento.

Juntou-se ao balcão. Visualizou nas prateleiras empoeiradas velhas garrafas de Rum, Pinga e Vermutes.

Desde o teto pendiam, amarrados bacalhaus, linguiças e salsichas e latarias.

Pediu uma garrafa de pinga, um prato de quirera e uma linguiça de carne-de -porco.

Sentou-se a uma cadeira na mesa próxima. Devorou a linguiça. Bebeu quase toda a garrafa de pinga, no gargalo. Reclamou da quirera e jogou o prato no chão.

Tirou poucas notas de dinheiro do bolso. Cuspiu três vezes no assoalho de madeira

Pagou o homem do bar. Sem dizer uma palavra. Olhar raivoso.

Pegou a sela no chão e quis sair do estabelecimento com a mão direita acariciando o revólver.

– Já vai compadi Pirigoso?! Pergunto-lhe Dona Chiquita esposa do Miguel dono da Venda.

Esta aproximou-se do tropeiro limpando as mãos no avental. E lhe dizendo.

– Tava na cozinha, vim me discurpá pela quirera.

-Pricisa não Dona Chiquita! Respondeu o Perigoso.

– Tô mar do istomago. Adoentei dispois que levaro minha Polaca pra Curitiba.

Concluiu tirando o chapéu em respeito a Dona Chiquita

-Tô indo a Curitiba. Vô furá di bala aquele político safado que mi robô a minha Polaca! Sentenciou Perigoso.

-Faça isso não Cumpadi. Esqueça a Polaca! Arranja outra mulher! Dona Chiquita insistiu.

Seo Miguel e outros nos aproximamos de Perigoso tentando demovê-lo de não seguir a rota da vingança. O sentamos na cadeira próxima a porta de saída e lhe foi servido um chá de camomila, preparado por Dona Chiquita.

Esta correu, aflita ao telefone nos fundos do estabelecimento e enquanto distraíamos o tropeiro, ligou para Curitiba.

– Alô alô telefonista quero falar com o Major Ney. É urgente! Diz que é a Chiquita da Lapa,

Minutos angustiantes ao telefone. Trêmula. E nós já contávamos piadas ao tropeiro para tentar o demover de sair com suas armas, rumo a Curitiba.

-Alô Chiquita! Como vai minha querida lapeana? Tudo em Paz com você e sua familia? Muito bom lhe ouvir. ( É lapeano o Major Ney Amintas de Barros Braga, Chefe de Polícia de Curitiba ao telefone)

Ouve atentamente a explanação de Chiquita. Pede para falar com o Perigoso.

Levamos o tropeiro ao telefone. Este ressabiado com o aparelho o coloca no ouvido e ouve atentamente o Major. Abana a cabeça. Contém as lágrimas e soluçando diz.

– Sim Senhor Major Ney. Não vou me vingar não! Vou esquecer a Polaca! Não irei a Curitiba dar tiro em ninguém. Por São Benedito eu juro! Amém.

Perigoso foi festejado. Lhe aplaudimos. Dona Chiquita disse-lhe que iria arranjar lhe uma nova namorada. O tropeiro disse que já estava de olho em uma Moça de boa familia da Congada da Lapa. Sua égua Sinhá foi solta bem tratada e alimentada. Amarrada apenas quando necessário.

O Major Ney Braga, tornou-se Prefeito, duas vezes Governador do Estado, foi Senador, Ministro da República e quase Presidente.

Sabia conversar e ouvir desde o mais humilde ao mais rico. No Paraná; em um tempo em que os homens cavalgavam, olhavam os horizontes sob o Sol.

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2 comentários em “Perigoso”

  1. Diante da abundância de “PERIGOSOS” q hoje habitam nosso país, NEY BRAGA(s) seriam muito bem vindos!
    Excelente artigo meu amigo, a riqueza do vocabulário, o desenrolar da situação e o surpreendente fechamento me fez vivenciar um tempo maravilhoso que vivi no PARANÁ.
    Grande Abraço!

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