
Ontem estive na Lapa. Algo se moveu nas brumas do tempo tropeirista.
Curto e grosso. Perigoso. É a alcunha do Tropeiro. Eu o vi e ouvi.
Mulato, baixo de feições duras no rosto.
Barba por fazer e costeletas sob o chapéu de couro.
Amarrou, na entrada da Venda de Secos e Molhados, sua cavalgadura, a Mula Sinhá, assim a chama.
Lá dentro no fogão a lenha crepitam, galhos secos. Fogo que aquece.
Cá fora o vento gélido chacoalha as araucárias e os pessegueiros.
Afrouxara a sela. Ajeitou-a nas costas e adentrou ao recinto. Parabélum na cintura. Adentrou pisando firme. Diante de nossos olhares incrédulos e atônitos
O coldre cravejado de botões de metais. Na cintura faca e punhais, espingarda cartucheira na mão.
Ao caminhar, suas botas de salto alto fremiam o piso das ripas de madeira do estabelecimento.
Juntou-se ao balcão. Visualizou nas prateleiras empoeiradas velhas garrafas de Rum, Pinga e Vermutes.
Desde o teto pendiam, amarrados bacalhaus, linguiças e salsichas e latarias.
Pediu uma garrafa de pinga, um prato de quirera e uma linguiça de carne-de -porco.
Sentou-se a uma cadeira na mesa próxima. Devorou a linguiça. Bebeu quase toda a garrafa de pinga, no gargalo. Reclamou da quirera e jogou o prato no chão.
Tirou poucas notas de dinheiro do bolso. Cuspiu três vezes no assoalho de madeira
Pagou o homem do bar. Sem dizer uma palavra. Olhar raivoso.
Pegou a sela no chão e quis sair do estabelecimento com a mão direita acariciando o revólver.
– Já vai compadi Pirigoso?! Pergunto-lhe Dona Chiquita esposa do Miguel dono da Venda.
Esta aproximou-se do tropeiro limpando as mãos no avental. E lhe dizendo.
– Tava na cozinha, vim me discurpá pela quirera.
-Pricisa não Dona Chiquita! Respondeu o Perigoso.
– Tô mar do istomago. Adoentei dispois que levaro minha Polaca pra Curitiba.
Concluiu tirando o chapéu em respeito a Dona Chiquita
-Tô indo a Curitiba. Vô furá di bala aquele político safado que mi robô a minha Polaca! Sentenciou Perigoso.
-Faça isso não Cumpadi. Esqueça a Polaca! Arranja outra mulher! Dona Chiquita insistiu.
Seo Miguel e outros nos aproximamos de Perigoso tentando demovê-lo de não seguir a rota da vingança. O sentamos na cadeira próxima a porta de saída e lhe foi servido um chá de camomila, preparado por Dona Chiquita.
Esta correu, aflita ao telefone nos fundos do estabelecimento e enquanto distraíamos o tropeiro, ligou para Curitiba.
– Alô alô telefonista quero falar com o Major Ney. É urgente! Diz que é a Chiquita da Lapa,
Minutos angustiantes ao telefone. Trêmula. E nós já contávamos piadas ao tropeiro para tentar o demover de sair com suas armas, rumo a Curitiba.
-Alô Chiquita! Como vai minha querida lapeana? Tudo em Paz com você e sua familia? Muito bom lhe ouvir. ( É lapeano o Major Ney Amintas de Barros Braga, Chefe de Polícia de Curitiba ao telefone)
Ouve atentamente a explanação de Chiquita. Pede para falar com o Perigoso.
Levamos o tropeiro ao telefone. Este ressabiado com o aparelho o coloca no ouvido e ouve atentamente o Major. Abana a cabeça. Contém as lágrimas e soluçando diz.
– Sim Senhor Major Ney. Não vou me vingar não! Vou esquecer a Polaca! Não irei a Curitiba dar tiro em ninguém. Por São Benedito eu juro! Amém.
Perigoso foi festejado. Lhe aplaudimos. Dona Chiquita disse-lhe que iria arranjar lhe uma nova namorada. O tropeiro disse que já estava de olho em uma Moça de boa familia da Congada da Lapa. Sua égua Sinhá foi solta bem tratada e alimentada. Amarrada apenas quando necessário.
O Major Ney Braga, tornou-se Prefeito, duas vezes Governador do Estado, foi Senador, Ministro da República e quase Presidente.
Sabia conversar e ouvir desde o mais humilde ao mais rico. No Paraná; em um tempo em que os homens cavalgavam, olhavam os horizontes sob o Sol.
Leia outras colunas do Gennaro aqui.




2 comentários em “Perigoso”
Belo início de publicações. PARABÉNS!
Diante da abundância de “PERIGOSOS” q hoje habitam nosso país, NEY BRAGA(s) seriam muito bem vindos!
Excelente artigo meu amigo, a riqueza do vocabulário, o desenrolar da situação e o surpreendente fechamento me fez vivenciar um tempo maravilhoso que vivi no PARANÁ.
Grande Abraço!
Os comentários estão encerrado.