ANO IV

23/06/2026

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gennaro

O missionário azul

12/09/2025

A noite fria do deserto fustigou-nos com um vento gelado vindo de noroeste.

Nossas montarias, os camelos, estavam agitados. Uma incomum tempestade de areia noturna surgiu sem aviso. Tivemos que abrigá-los dentro de nossas tendas. Estas oscilavam e quase soltavam as amarras que as sustentavam. Muitos homens agarravam-se às estacas, evitando que estas se soltassem.

Os tapetes e os tecidos que envolviam a tenda fletiam e enrolavam-se sob o efeito do vento. O fogo das tochas apagou-se. Nossos baús de metais e pratarias oscilavam. Os narguiles e nossas bolsas de comida e água conseguimos reter, com muitos homens e mulheres deitando-se sobre estas. As mulheres e crianças gritavam desesperados. Os homens seguravam seus rifles e espadas de qualquer forma. Deitados ou agachados.

Mas o vento subitamente amainou. Assim como iniciou, desapareceu. Nossos camelos acalmaram-se. Poucas tendas se soltaram. Logo uma dezena de irmãos as colocaria no lugar. A vida serenou. Tudo voltou a normal em nosso Oásis ao sul de Bamako. No querido e amado Mali.

Olhamos ao céu límpido e estrelado. E clamamos por Amenokal. Que ele nos orientasse.

Analisando a Carta Celeste herdada do Profeta, vislumbramos a constelação de Orion e em seguida o Cruzeiro . Então, da nossa Tribo Touaregue, o nosso líder chamou-nos e disse que deveríamos nos preparar para a partida rumo ao sul. Para cumprirmos a profecia e salvarmos o máximo possivel de ímpios, estes abaixo da linha do Equador.

Com três camelos bem nutridos e reforçados por sacolas de comida e água, partimos eu, Ahmadu Mussa, e minha esposa, Fatma Tahya, desde nosso Oásis Touaregue, no Mali, em direção a Dakar, no Senegal. Percorrendo uma distância de 1.353 km, com nossos camelos andando 8 horas por dia a uma velocidade de 5 Km por hora… chegamos em Dakar cansados, porém vivos, após 34 dias de peregrinação.

Guiados por estrelas adentramos até ao Porto de Dakar. Vendemos os camelos e compramos passagens de terceira classe para o Brasil. Viemos em um navio de bandeira Liberiana. Pleno de marinheiros e viajantes muito esquisitos, onde eu tive que trabalhar na limpeza de banheiros e mictórios e Fatma Tahya como auxiliar de cozinha. Minha espada e armas touaragues nos protegeram.

Para vencer as 4.500 milhas náuticas entre Dakar e a Baia de Paranaguá, o navio percorreu os oceanos em 22 dias muito agitados e desconfortáveis. Vomitamos muito.

Em todos os momentos difíceis nos revitalizávamos com as sabias orações de nosso Profeta. Orientados pela Constelação aqui conhecida como o Cruzeiro do Sul fomos deixados por um escaler no pequeno Porto de Guaraqueçaba. Ali, sem conhecer a língua nativa, fui trabalhar fazendo e cortando queijos de leite de búfala e Fatma mais uma vez como auxiliar de cozinha.

Após um ano e meio de Guaraqueçaba subimos a serra e fomos morar em um pensionato na Rua Riachuelo em Curitiba. Já falando um pouco melhor a língua portuguesa. Rua onde encontramos remanescentes de muçulmanos e judeus vivendo em perfeita harmonia. Os quais nos auxiliaram e nos tornamos amigos.

Atualmente eu trabalho na construção civil como auxiliar de pedreiro e Fatma já trabalha em um hotel como camareira.

À noite, após o jantar, ainda com muitas saudades de nosso oásis, meus camelos e tribo, me esforço para não sucumbir às dificuldades. Eu pego meus apetrechos, que são pincéis, luvas, misturador, solventes, estopas, escadas, rolos, potes e latas de tinta azul que eu mesmo compro e sigo me esforçando para cumprir a missão da qual fui incumbido pelo meu líder Touaregue.

A minha Missão lhes revelo agora:

Por ordem do Profeta, eu, o Touaregue Ahmadu Mussa, juro pelos meus camelos que hei de cumprir, devo e vou pintar de azul, apesar de tantos dias cinzentos aqui nesta cidade e região, pintarei em coloração azulada, conforme nossas vestes Touaregues, o máximo de edifícios públicos de Curitiba .

Assim azulando os edifícios públicos, libertaremos do karma entreguista todos os seus políticos, usuários e burocratas preparando-os para a Ressurreição da Definitiva Luz Azul da Ótima Aposentadoria Remunerada Celestial Quadruplicada.

Esta é a razão de nosso azul celeste.

No entanto se eu não conseguir pintar o número cabalístico suficiente de edifícios públicos ,antecedendo o Juízo Final que se aproxima ,o Profeta derivou e proclamou que opcionalmente salvos serão; aqueles que estiverem com cuecas azuis. E aquelas que estiverem com calcinhas azuis. No entanto em Curitiba, os integrantes da Escola de Samba Mocidade Azul já estarão salvos. Funcionários Públicos ou não!

Última esperança antes do Juízo Final; provenientes de lojistas da Rua 25 de março de São Paulo, um volume enorme de cuecas e calcinhas azuis estará disponível à venda em um atacadão da rua XV.

Sem outros azuis e ou desculpas amarelas.

Assim lhes informei eu o Touaregue Ahmadu Mussa com Fatma Tahya, com a missão de azular, em nome de Amenokal. Azulai-vos uns aos outros!

E se tudo der certo regressaremos ao nosso amado Oasis no deserto do Sahara no Mali.

Quem estiver cantando, por subterfúgio, a música Caneta Azul será considerado herege e não se salvará.

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