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A política não é palco para influencers

18/11/2025
chico moedas

Há muito tempo os partidos políticos brasileiros abandonaram qualquer pretensão de responsabilidade estratégica na formação de quadros. Mas, nos últimos anos, a prática ganhou contornos ainda mais alarmantes: a aposta deliberada em celebridades digitais, personagens de redes sociais e influenciadores cuja única credencial é a própria visibilidade. O caso mais recente, o convite do PT ao influenciador Chico Moedas para disputar as eleições de 2026, é sintomático de um Brasil em que a lógica do “engajamento” se sobrepõe à lógica do preparo, da experiência e da capacidade de contribuição efetiva ao país.

Os partidos parecem ter renunciado a selecionar lideranças com formação sólida, trajetória pública e entendimento mínimo sobre as complexidades do Estado brasileiro. Em vez disso, preferem transformar o processo eleitoral em uma espécie de vitrine de entretenimento, onde o que importa é lacrar, viralizar, gerar curtidas e conquistar seguidores. O objetivo? Apenas um: inflar as bancadas para turbinar o acesso ao fundo partidário e ao fundo eleitoral.

A escolha de candidatos por métricas digitais – seguidores, views, alcance – revela um oportunismo rasteiro e perigoso. Não se trata de abrir espaço para novas vozes ou renovar a política; trata-se de reduzir a vida pública a uma arena de espetáculo, onde as urgências nacionais são substituídas pela cultura da autopromoção. Influencers que mal compreendem o papel institucional de um deputado tornam-se, nas mãos dos partidos, apenas instrumentos para ampliar cadeiras e ampliar repasses milionários.

O convite ao moço da foto, Chico Moedas, um influenciador que ficou mais conhecido por trair outra influenciadora e dublê de cantora, Luiza Sonza, em um banheiro de bar, é apenas mais uma demonstração dessa distorção. Não é um caso isolado. Em diferentes siglas, de esquerda a direita, multiplicam-se convites a personalidades que nada têm a oferecer além de fama passageira e performance nas redes. É o triunfo da política-espetáculo, em que os problemas do país na educação, saúde, infraestrutura, equilíbrio fiscal, segurança pública e outras áreas, aparecem como meros coadjuvantes diante da obsessão por visibilidade.

Essa escolha, além de irresponsável, é profundamente desonesta com o eleitor. Coloca-se na disputa gente que não conhece políticas públicas, não entende o funcionamento do Legislativo e, muitas vezes, sequer demonstra interesse real pela vida política, exceto quando ela rende capital simbólico e digital.

A democracia brasileira não precisa de candidatos preocupados em “bombar no TikTok”. Precisa de representantes capazes de formular propostas, debater com seriedade, fiscalizar o Executivo e legislar com responsabilidade. Precisa de preparo, não de performance. De serviço público, não de autopropaganda.

Ao apostarem sistematicamente na lógica do engajamento, os partidos assumem com clareza que não pensam no país, pensam em si mesmos. Pensam no caixa. Pensam em ampliar poder e recursos, ainda que para isso preencham o Congresso com figuras incapazes de contribuir minimamente para as decisões que moldam o futuro da nação.

É preciso dizer o óbvio, ainda que pareça inconveniente: a política não é desfile de likes. A vida pública exige rigor, formação, coragem, responsabilidade. Candidaturas construídas apenas para ajudar partidos a “bater meta” no fundo partidário são um insulto à inteligência do eleitor e um risco à qualidade da democracia.

Enquanto os partidos continuarem tratando eleições como um jogo de números e cliques, o país continuará pagando caro pela mediocridade que eles escolhem cultivar.

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