
Ganharam visibilidade na mídia expressões metafóricas usadas Cúpula do Clima de Belém (COP30) para animar a discussão em torno de um trajeto que estabeleça prazos e condições para o fim do uso de combustíveis fósseis. Juntando tudo que se disse dá algo como: desenhar o mapa do caminho para que a Arca de Noé encontre o tesouro perdido.
A ideia é brasileira e colocou de volta o tema dos combustíveis no topo das discussões. A proposta busca dar materialidade à uma decisão tomada na conferência climática realizada em Dubai, quando os países participantes concordaram em avançar na transição para longe dos fósseis. O problema é que o parágrafo 28 da resolução da COP28 não definiu prazos nem um roteiro, e a promessa ficou sem direção.
Agora, o Brasil tenta liderar um esforço global para preencher essa lacuna. O mapa do caminho seria o embrião de um cronograma mais robusto para orientar, pelos próximos anos, a despedida dos fósseis. O argumento é de que decisões climáticas só terão credibilidade se forem acompanhadas de consequências reais.
O discurso fez cientistas e lideranças de 60 países embarcar na arca – entre eles Alemanha, Reino Unido e Dinamarca. O desafio é achar o tesouro – que no debate climático significa encontrar consensos. Para o climatologista Carlos Nobre só um mapa claro permitirá manter o compromisso com o limite de 1,5ºC de aquecimento global estabelecido no Acordo de Paris.
Contrassenso amazônico
Por falar em combustíveis fósseis, não passou desapercebido pelos críticos o uso do petróleo para fazer funcionar duas estruturas essenciais para a realização da COP30. Muitos veículos de comunicação noticiaram que o sistema de refrigeração dos ambientes de debates é alimentado geradores a diesel. Reportagem do Los Angeles Times descreve os navios de cruzeiro usados como “hotéis flutuantes” como símbolo do paradoxo entre a tentativa de fazer da conferência brasileira um marco climático e o aumento da pegada de carbono na região amazônica.
COP da verdade
A imprensa mundial deu espaço para a expressão “COP da verdade” e análises de especialistas e agências multilaterais reforçam que a conferência de Belém precisa ser o ponto de virada: momento em que países terão de apresentar planos alinhados à meta de 1,5°C, atualizar as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) para emissões até 2035 e avançar em um novo patamar de financiamento climático para países em desenvolvimento. Temas como descarbonização, proteção de florestas, adaptação e sistemas de alerta precoce também estão no centro das expectativas de soluções concretas.
Cobrança é por entrega
A comunicação oficial da COP30 e de organismos da ONU noticiam avanços de uma pauta abrangente: adaptação, cidades resilientes, infraestrutura, água, resíduos, bioeconomia, economia circular e uso de ciência e inteligência artificial para acelerar ação climática. Boletins oficiais da conferência também falam em liderança da Amazônia em uma “agenda de industrialização verde” e em novos hubs de financiamento climático. A mídia internacional, porém, insiste na pergunta central: quanto desse cardápio vai sair do papel depois de Belém?
100 mil árvores derrubadas
A construção de novas vias em Belém, especialmente a chamada Avenida Liberdade, virou tema de fact-check internacional. Matérias da Euronews mostram que circulam nas redes alegações de que 100 mil árvores teriam sido derrubadas para viabilizar a via de chegada à COP30. Os textos analisam a cronologia dos projetos e os dados oficiais sobre supressão de vegetação. Paralelamente, entrevistas com lideranças indígenas, como o cacique Raoni, criticam o pacote de grandes obras de infraestrutura na Amazônia — estradas, ferrovias e exploração de petróleo — como ameaça direta à floresta em nome do desenvolvimento.
Imperfeitas, mas essenciais
Institutos de política internacional avaliam a COP30 como continuação de um ciclo de cúpulas “imperfeitas, mas essenciais”. O grupo francês IRIS lembra os 10 anos do Acordo de Paris e destaca que a conferência na Amazônia acontece num contexto de erosão do multilateralismo e avanço de populismos antiambientais. Mas pontua que ainda é o principal fórum global para manter vivo o esforço de limitar o aquecimento. A Lowy Institute e outras instituições veem Belém como teste de credibilidade para países que prometem muito e entregam pouco – os ricos, principalmente.
Muita mídia, pouca TV
O padrão de cobertura jornalística da COP30 também é notícia. Segundo levantamento do The Guardian, quase 4 mil profissionais de mídia se credenciaram para o encontro, mas as quatro maiores redes de TV aberta dos Estados Unidos (CBS, NBC, ABC e Fox) não enviaram equipes a Belém. Para analistas, a ausência das grandes redes norte-americanas num encontro considerado decisivo para o futuro do clima indica que a transição energética ainda disputa espaço com temas de política interna e entretenimento na agenda midiática das grandes economias.
O preço do calor
Estudo publicado na revista Nature aponta que o aquecimento global provocado pela exploração e uso de petróleo e gás tornou todas as grandes ondas de calor do século 21 mais intensas e frequentes. A pesquisa utilizou o método de “atribuição de eventos extremos” para medir o impacto das mudanças climáticas em 213 episódios classificados como grandes desastres. Segundo os autores, um quarto dessas ondas de calor teria sido “virtualmente impossível” sem o aquecimento causado pela ação humana.
(Foto: Assessoria/COP30)
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