A ensolarada tarde iluminava os balaústres de madeira que demarcavam os quintais das casas.
O ângulo oblíquo da luz do sol formava as sombras dos balaústres projetadas sobre o piso da rua, perfiladas em sequência geométrica na perspectiva do caminho.
O calor de verão, naquele novembro ensolarado, seria amainado pelas nuvens brancas e acinzentadas, carregadas de chuva, que cairiam logo mais, poupando-nos das altas temperaturas.
O mormaço fazia evaporar do asfalto ondas gasosas em direção aos céus. Nos quintais, os pomares plenos de árvores frutíferas estavam cheios de pássaros sobre os mamoeiros. Os pés de manga, abarrotados de frutos maduros, apareciam curvados, com galhos quase ao chão. Era fácil apanhar e degustar uma manga sob a sombra de suas folhagens e tronco.
No chão dos pomares, o solo fofo e fértil emanava um odor ocre de matéria orgânica fertilizada. Folhas decompostas, palha de arroz e café eram os fertilizantes naturais ali espalhados pelos moradores e proprietários.
O céu de intenso azul, sobre nós, recheado de nuvens brancas de algodão e cinzas de chocolate, fazia-me pensar em carneirinhos brancos saltitando por sobre elas.
Com minha bola de couro, capotão número cinco, eu caminhava, orgulhoso futebolista, pela rua à procura de meus amigos para o bate-bola do final de tarde.
Aquela cidade do interior, nos anos sessenta, nos permitia andar e brincar sem violências ou perigos. A rua era nosso playground de múltiplas amizades e brincadeiras livres e saudáveis.
Eu observava uma sequência de formigas que, próximo a um balaústre da cerca, encaminhavam folhas cortadas ao formigueiro, enquanto minha bola de futebol estava próxima aos meus pés, no chão.
— Mataram o Kennedy! Mataram o Kennedy!! — Uma voz da vizinhança eclodiu pelos ares próximos! Gritando, aterrorizada, uma mulher dizia:
— Na Rádio Bandeirantes estão noticiando que mataram o Kennedy!!! Ai, meu Deus!!! Mataram o Kennedy!!!
De repente, eu entendi que algo muito grave acontecera. Peguei minha bola de futebol e regressei rápido à minha casa. Eu tinha 5 anos.
Em casa, os adultos ouviam as notícias via Rádio Nacional, Rádio Tupi e Rádio Bandeirantes, confirmando que John Fitzgerald Kennedy havia sido assassinado em Dallas, no Texas.
Como aconteceu? Quem o teria assassinado?
Os russos? A máfia? Os cubanos? Os chineses? Foi o Mossad? Quem mandou matar JFK?
Meu Deus… será que começaria a Terceira Guerra Mundial? — Eram as indagações que comecei a ouvir dos adultos ao meu redor.
Após essas notícias via rádio, um silêncio aterrador e constrito dominou a noite e o dia seguinte na cidade interiorana, e talvez no estado e em nosso país.
Eu tinha descoberto a maldade humana. Mesmo assim, minha bola de futebol não murcharia, e eu jogaria meu futebolzinho. Continuaria a ler e ouvir, nos anos seguintes, muitas notícias, literaturas, depoimentos e versões sobre o que ocorrera em Dallas naquele fatídico e histórico dia.
Certo dia, no ano 2000, o American Film Institute elegeu nosso filme de longa-metragem “Oriundi” como o filme do ano. E lá estivemos com Anthony Quinn, no John F. Kennedy Center, em Washington, sendo homenageados e aplaudidos por uma imensa plateia de hispanos.
Eu, “cucaracha”, dizia estar muito feliz e não entender muito bem o que nos sucedia, ao então presidente da OEA, César Gaviria, que nos recepcionava. Ele estava às lágrimas, feliz por estar pessoalmente com Anthony Quinn. E este elogiava ao público a nós e a Curitiba, do Brasil.
Eu pensava no JFK. E se estivesse vivo, talvez o mundo teria sido melhor desde os anos 60? Talvez nem existisse o Kennedy Center. Muitas respostas às perguntas estão nos arquivos do N.A.R.A., em Washington, inclusive muitas respostas a respeito do Brasil.
Quem quiser e puder, que vá até lá e pesquise.
62 anos depois, a radio vitrola em que ouvíamos as notícias sobre o ocorrido em Dallas ainda funciona. Está registrada na aquarela. Nossas vidas serão esquecidas ao longo das décadas; talvez algumas de nossas obras resistam um pouco mais ao tempo.
“Pergunte-se o que você pode fazer pelo seu país, ao invés de se perguntar o que seu país deve fazer por você.”
Frase de John Kennedy — um democrata.
“De América soy hijo, y a ella me debo.”
José Martí — outro democrata.
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