No ano 2000, pouco sabia dos corvos (Corvus corone) que encontraria nas árvores das praças ao redor do Watergate Hotel, em Washington D.C. Lá havia muitos plátanos, carvalhos e vegetações densas de folhagens — e corvos, muitos corvos.
Estes são pássaros espertíssimos.
E, por sobreviverem ao rigoroso inverno do hemisfério norte, creio sim serem aves muitíssimo mais sábias que os nossos papagaios tropicais (Amazona aestiva).
Isso me pareceu uma reflexão meio darwiniana.
Eu, oriundo das florestas subtropicais, conhecia bem os nossos pássaros pretos, os tizius saltitando sobre as folhagens de capim; os anús-brancos no pasto ao redor do gado; as siriemas nos campos; as coleirinhas; os inambus sob as moitas nas beiras do rio; os tico-ticos, as rolinhas, os sabiás e os pardais que ficavam às centenas sobre a palha de arroz.
Mas eu não tinha em minhas retinas o registro desses solenes, intelectualizados e muito bem informados pássaros: os corvos de Washington. Mesmo com os filmes e séries policiais que eu havia assistido, minha ingenuidade era latente. Eu, um Zé Carioca qualquer. Um hispano-americano. Brasileirinho da Silva.
A energia aglutinadora de Anthony Quinn levou-nos ao Kennedy Center e, de lá, replicou-nos para outros rincões do planeta. Eu poderia ter sido digerido por um corvo, como eles lá digerem nozes e castanhas.
O presidente da OEA, o ex-presidente da Colômbia César Gaviria, emocionado e sensibilizado com a presença do grande ator e com a repercussão do filme nas terras do Tio Sam, convidou-nos para um jantar solene em sua residência oficial.
César Gaviria chorava de emoção por estar ao lado do ator. Era seu ídolo desde a infância, segredou-me ao ouvido.
À mesa conosco, eis que vejo uma japinha de cabelos grisalhos e brancos. Ao vê-la, pensei: “É uma japa do interior do Paraná ou de São Paulo!” Pareceu-me até uma amiga de infância. Mas ela falava um castelhano portenho. Argentinizado. Pimba! Em fração de segundos, saquei: era Maria Kodama, viúva, herdeira e secretária de Jorge Luis Borges.
Conversamos sobre o Brasil, a imigração japonesa, Curitiba, a obra de Borges. Eu, em 1985, estivera em Buenos Aires, na rua Maipú… adquirira os livros da obra de Borges etc. Ela disse que gostaria de conhecer Curitiba.
Mas, é claro, falávamos também da biografia e da história de Quinn. Sua biografia, lançada no Brasil, chama-se Tango Solo. E Kodama contou-nos que, enquanto ainda enxergava um pouco, Jorge Luis Borges assistia e era fã incondicional de Anthony Quinn.
E, se Anthony Quinn quisesse, ela — Maria Kodama — lhe daria e autorizaria que qualquer texto ou obra de Borges se tornasse filme ou obra audiovisual. Ao que ele agradeceu, sensibilizado.
E, para minha surpresa, ele disse-lhe:
— Sim, eu aceito! Desde que os produtores sejam meus amigos aqui presentes: o Rubens Gennaro e a Virgínia Moraes. E o Ricardo Bravo também pode ajudar!
Uma emoção e alegria tomou conta de todos, e brindamos à Nuestra Latinoamérica.
Tudo isso sob o olhar e testemunho de César Gaviria e sua esposa, Milena.
Claro que senti o peso da responsabilidade sobre os ombros. E, após o regresso ao Brasil, iniciamos algumas trocas de mensagens e e-mails com a ilustre argentina.
Infelizmente, Anthony Quinn partiu em 3 de junho de 2001, aos 86 anos de idade.
E nós, aqui, não tivemos coragem de seguir com o projeto sem o amigo e grande ator.
Enveredamos por outras produções audiovisuais. E parcerias com a Argentina.
Com Maria Kodama ainda mantivemos correspondência e afeto.
A obra de Jorge Luis Borges tem dimensão planetária. Ela foi uma mulher muito importante na divulgação dessa obra. Partiu em 2023.
Nós aqui ainda estamos, neste labirinto. E sabemos da nossa pequena dimensão. Temos o senso das proporções. Borges, Kodama e Quinn são planetários.
Para ouvir pássaros canoros, procurem no YouTube “Jairo Canta Borges”.
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