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Ruy Castro não é mais aquele

29/12/2025
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Outrora dono de texto invejável nas páginas de cultura da imprensa, Ruy Castro virou um chato de tênis. Dia desses, a pretexto de responder a um colega da Folha de S. Paulo que contestou sua afirmação de que o Flamengo seria, de fato e de direito, campeão brasileiro em 1987, Ruy disparou. Mas não contra o jornalista. Ele mirou em Abel Ferreira, o técnico do Palmeiras. Uai.

A história é velha. Naquele ano, a CBF alegou não ter condições de organizar o campeonato e o Clube dos 13 criou a Copa União. O Flamengo venceu o módulo verde e o Sport, o amarelo. As equipes deveriam se enfrentar em uma grande final, mas os cariocas recusaram. Por W.O., o campeão foi o Sport. Daí a polêmica que já foi parar no STF e deu ganho de causa aos pernambucanos.

Ruy Castro acha que o Rio continua lindo. É sério. O Flamengo por isonomia. É uma ideia que resume sua vida profissional. E ele se agarra a ela do mesmo jeito que Glauber Braga, o deputado do PSOL, se agarrou à cadeira da presidência da Câmara. Dia desses.

O Flamengo poderia muito bem ter deixado a empáfia de lado, entrando em campo com toda a humildade para enfrentar o time pernambucano, que então buscava o primeiro título nacional – o de 1987 é o único em sua história.

Pobre Lusa

Mas deixou que as coisas se resolvessem no tapetão. Como, aliás, é típico. Foi assim também, na base da chicana, que os cariocas escaparam do rebaixamento em 2013, já na era do Brasileirão de pontos corridos. Aproveitando-se de um jogo em que a pobre Portuguesa de Desportos perdeu pontos por escalar atleta irregular. A Lusa, sabemos, nunca se recuperou.

Passemos agora a Abel Ferreira. O jornalista, confundindo as bolas, acusou o treinador de colocar um asterisco nos nove (*) títulos nacionais conquistados pelo Flamengo. Nada disso. O asterisco de Abel se referia às vitórias que os cariocas conquistaram na base do chilique e do apito amigo. E quando falamos em juiz, é bom também incluir os do STJD, que anularam os 12 jogos de suspensão de Bruno Henrique por envolvimento com apostas.

O Flamengo foi o supercampeão da temporada. De todos os títulos disputados, só não levou a Copa do Brasil. E isso por si só já deveria deixar Ruy satisfeito. Mas eu entendo o travo na língua, o amargo na boca.

Foi neste ano que os sete acusados do incêndio no Ninho Urubu foram julgados e considerados inocentes. Dez meninos morreram naquela tragédia e a diretoria rubro-negra até hoje briga na justiça para não indenizar as famílias ou negociar um tico de dinheiro. Na Europa, onde os cariocas acham que deveriam jogar, uma tragédia tal como se desenhou valeria uma punição pesada. No mínimo, o Flamengo seria rebaixado para a terceira divisão e pagaria multa milionária.

Ele queria ser, mas não foi

Mas, espie só, em 2019, ano em que os dez meninos com idade entre 14 e 16 anos morreram queimados no alojamento feito de contêineres, o Flamengo fez história nos campos de futebol, conquistando corações e mentes. E Ruy Castro sabe muito bem disso. Mas não daquilo.

Há tempos, o jornalista ocupa espaço nobre na página 2 da Folha de S. Paulo. Quando assumiu a coluna, após a morte de Carlos Heitor Cony, expressou a vontade de dar continuidade ao trabalho de Otto Lara Resende, o antecessor de Cony. Não conseguiu. Ele também é tradutor de Woody Allen e deu a pinta de ser como ele. Não foi. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, ele é famoso como biógrafo, mas não como escritor. Nesse quesito, iguala-se a José Sarney, seu companheiro do chá das cinco, autor de “Marimbondos de Fogo”. Quando resolve falar sobre futebol, Castro talvez evoque o espírito de Nelson Rodrigues, o dramaturgo e cronista esportivo, apaixonado pelo Fluminense. Mas que sujeito azarado. Pede Nelson e vem Ribamar. Pede Zico e vem Beijoca. Pede Nunes e vem Fio. Assim o Rio não continua lindo. Assim o Rio não continua sendo. Assim Ruy não é mais aquele.

(*) O Flamengo tem oito títulos brasileiros: 1980, 1982, 1983, 1992, 2009, 2019, 2020 e 2025.

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