Em novembro passado, foi lançado, em homenagem ao aniversário de 90 anos de morte de Fernando Pessoa (1888-1935), um livro em que são reunidas toda a poesia e toda a prosa de seu heterônimo Ricardo Reis, o primeiro a ser criado pelo genial poeta português. Publicado pela editora Tinta-da-China Brasil, “Obra completa de Ricardo Reis” conta com edição crítica dos pesquisadores colombianos Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe, além de dois poemas inéditos e imagens de manuscritos e anotações.
Na apresentação, eles explicam que “os principais desafios, com o passar dos anos, continuam a ser os mesmos: afinar as leituras dos documentos autógrafos, percorrer a totalidade do espólio pessoano e definir o que pertence ou poderia pertencer a certos autores fictícios, organizar de forma clara cada corpus textual e propor datações críticas bem informadas”. Pizarro defende que “Pessoa é nitidamente um autor póstumo. É muito mais um escritor nosso do que de sua época. Se torna nosso por que está a ser publicado, construído e conhecido nos dias de hoje”.
Poeta incomparável da língua portuguesa, desde menino Pessoa dizia conviver com essas personalidades, que não eram apenas amigos imaginários. “Eram gente”, anotou em uma de suas muitas obras nunca publicadas. No perfil criado para Ricardo Reis, Pessoa dizia que era um médico português melancólico afinado ao classicismo grego. Era descrito como um homem culto, racional e adepto do estoicismo, pregando o desapego dos bens materiais e das emoções intensas, como o amor. Era um ano mais velho que Pessoa, um interessado em astrologia, que usava conhecimentos da área na criação de seus heterônimos, como se pode ver na ilustração desta matéria: o mapa astral de Ricardo Reis, nascido em 19 de setembro de 1887, virginiano portanto. O local de nascimento aparece como Lisboa, mas Fernando Pessoa mudou-o posteriormente para o Porto. Achava que o comportamento mais reservado dos portugueses do Norte era mais condizente com a personalidade de Ricardo Reis.
Curioso saber que o primeiro heterônimo criado por Pessoa foi discípulo de Alberto Caeiro (meu heterônimo predileto). Moldado nas odes do poeta romano Horácio (65 a.C.- 8 a.C.), sua personalidade e obra se diferenciam pela busca do equilíbrio, do estilo clássico, da serenidade e da reflexão profunda sobre a existência. O mediúnico Pessoa publicou Reis pela primeira vez em 1924, ao assumir o posto de editor da revista Athena. Protestando contra a instauração da República em Portugal, Ricardo Reis imigrou para o Brasil e depois para o Peru.
Numa resenha deste livro, Carlos Adriano escreve que: “Em 1916, coube-lhe traduzir Ésquilo e, em 1921, Safo e Aristóteles. Aedo andante e neopagão parido no seio cristianizado, Reis ainda vivia no Peru quando Pessoa morreu em 1935 — o criador deixou a criatura sobreviver-lhe. O primeiro retrato está em Ricardo Reis: vida e obra. Na formidável carta de 13 de janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa lavrou um impressionante relato sobre a figura de seu duplo r, sua última descrição e, como nas delirantes e fascinantes — além de provisórias, póstumas e providenciais — ficcionalizações de biografemas das máscaras heteronímicas, arrolou peripécias rocambolescas.
“Em 12 de junho de 1914, véspera de seu 26° aniversário, Pessoa escreveu, com a persona de Reis, seis odes e, no mês, contabilizou um total de quinze. A leva de poemas levou-o a confidenciar a aparição de Reis ao amigo e poeta Mário Sá-Carneiro, um dos maiores da língua portuguesa, que, em cartas parisienses de 23 e 27 de junho de 1914, felicitou o rebento e elogiou as odes. Ao cabo de 1914, Pessoa escrevera quarenta odes de Reis e, em 1924, o conjunto era de cento e dezessete. Projetos esboçados de 1917 a 1932 indicam que Reis seria autor de “uns três ou cinco livros” de odes e que se manteria ativo (em menor fluxo) até 1935 — o último poema é de 13 de novembro deste ano.
“Se as biografias que Pessoa forjou para suas personae poéticas atiçariam o leitor tiktok do século 21 (esse alcoviteiro ligeiro da vida alheia e do alheio), o que importa ainda há de ser a poesia e, no caso do objeto desta resenha, o que Pessoa escreveu na pessoa de Reis. Em texto de 1931, o poeta justifica-se à la Rimbaud (“je est un autre”, lê-se na “Carta do Vidente”, de 1871), afirmando que nas obras heterônimas predomina o verso porque “em prosa é mais difícil de se outrar”. Foi-o outrora agora.”
O eixo “Poesia” da Obra completa de Ricardo Reis organiza-se em quatro núcleos cronológicos: Odes (livro escrito entre 1914 e 1917); Livro I, publicado na revista Athena (1924); poemas avulsos publicados na revista Presença (1927-1933); “Outras odes e poemas” (1914-1935), que não foram indexados nem publicados em vida por Pessoa.
Em “Prosa”, estão os prefácios às Odes e o projeto ambicioso que foi o prefácio à poesia de Caeiro. De 1915 a 1929, hesitou entre apresentação e tratado, configurando um ensaio crítico sobre a obra de Caeiro (e de Pessoa), com alusões a escritores e filósofos afinados ao paganismo (Théophile Gautier, Walter Pater, Friedrich Nietzsche, Oscar Wilde). O poeta não chegou a publicar o prefácio que, em suas palavras, lhe deu “um dos dias mais felizes de uma vida que não tem sido pródiga deles”.
O volume total de pouco mais de quinhentas páginas inclui anexos, notas, reproduções de manuscritos e datiloscritos, bibliografia e índices (onomásticos e dos primeiros versos). Os poemas de Ricardo Reis foram coligidos em livro em 1946 (pela editora Ática) e a prosa o foi em 2003 (Assírio & Alvim). Segundo os organizadores da Obra completa, Pessoa confessou: “Reis [escreve] melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado”.
Pizarro e Uribe apontam o dinâmico caráter de expansão que caracteriza a produção pessoana, “desafio e motivação” para os editores. Datado de 22 de novembro de 1935 e feito em inglês, o último poema de Fernando é “The happy sun is shining”. Escrito pouco antes da morte de Pessoa, em 13 de novembro de 1935, o último poema de Ricardo Reis é “Vivem em nós inúmeros”, quase um balanço testamentário: “Vivem em nós inúmeros; /Se penso ou sinto, ignoro / Quem é que pensa ou sente. / Sou somente o lugar / Onde se sente ou pensa.”
Quando visitei o Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, fiquei emocionado ao ver que ali estavam enterrados Dom Manoel I, Vasco da Gama, Luís de Camões e Fernando Pessoa. Que país pode se dar ao luxo de ter dois poetas num panteão de heróis da pátria? Seus restos mortais foram trasladados para aquele Patrimônio da Humanidade em 1985, cinquenta anos após sua morte e no seu túmulo está gravado este poema de Ricardo Reis:
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
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