Tenho dificuldade em acompanhar o noticiário local. Só agora descobri que Rafael Greca é secretário do Desenvolvimento Sustentável do Paraná. Greca foi bem avaliado na prefeitura nos dois mandatos que exerceu de 2017 a 2024. Talvez esteja entre os melhores dos últimos tempos. E os tempos são sombrios. O problema é que ele tem um azar danado com datas comemorativas.
Nos festejos dos 500 anos do Descobrimento, em 2000 (governo FHC), Greca levou a réplica da nave capitânia a pique. Escrevo de memória, mas parece que a caravela saiu do Rio de Janeiro para a Bahia e quase naufragou. Foi içada por um barco e levada ao porto. Greca era ministro do Turismo e tinha enfeitado seu gabinete com bandeiras e símbolos brasileiros de gosto duvidoso. Tudo era verde e amarelo. Por pouco ele não se vestiu como Luciano Hang, o dono da Havan. Acho que ninguém lhe deu a ideia.
Greca também esteve à frente da prefeitura nos anos 1990. Integrava o grupo do governador Jaime Lerner e tinha como certo que seria escolhido seu sucessor. Não foi. Na época, isso não tisnou o seu verniz. Mas claro que ele destilou suas mágoas. Candidato a deputado federal, teve 600 mil votos. Isso, mais o presidencialismo de coalizão, o levou a ser nomeado ministro no mesmo ano da comemoração.
A passagem foi rápida. O vexame da nau, mais um confronto armado entre índios e policiais, envolvendo cassetetes, flechas e lacrimogêneo, interromperam uma carreira política que parecia navegar segura.
Pisou na turfa
Ele comeu o brioche que o diabo amassou. Primeiro mudando de partido – do PFL para o PMDB –, sigla na qual elegeu-se deputado estadual com a margem necessária de votos. Depois, cumprindo uma missão ainda mais difícil. E amarga. Foi obrigado a se subjugar ao governador eleito Roberto Requião, o inimigo público nº 1 de Lerner. De novo, a nau foi a pique. Requião, aliás, costumava fazer piadas chulas nos bastidores da Escola de Governo – uma aberração televisiva que ia ao ar às terças-feiras na TV Educativa – associando Greca à nau. Não vou repetir.
O político viveu mesmo uma maré de azar. Não se diga que pisou no tomate. Mas pisou na turfa, uma terra mole, no momento em que participava da inauguração de um projeto de reassentamento no bairro Guarituba. Os jornais publicaram a foto na primeira página. Ele afundou até os joelhos.
Diga-se que quando pôs a prumo sua carreira política, afastando-se da sombra deletéria de Requião, Greca emergiu para dois mandatos na prefeitura que, não só lhe devolveram o prestígio, mas deixaram-no em condições de disputar um cargo majoritário com grandes chances de vencer. Ele quer ser governador e pode disputar o Senado.
Postagem ácida
A nau capitânia e as efemérides, no entanto, parecem persegui-lo. Nos últimos dias, Greca teve cancelado um voo para a Itália, onde participaria da comemoração dos 200 anos das relações diplomáticas entre Brasil e a Santa Sé. Por causa disso, ele também perdeu a audiência previamente marcada com o Papa Leão XVI. O resultado foi uma postagem ácida nas redes sociais contra a companhia aérea e contra a agência que reservou as passagens.
Greca tem que aprender. Ora em diante quando for convidado para organizar ou participar de alguma homenagem, convém declinar. E é aí que me vejo em uma associação livre. Por alguma razão, a condição de náufrago eventual do ex-prefeito me faz recordar uma piada de Woody Allen acerca do fim dos relacionamentos.
“Separei-me de minha esposa porque ela era terrivelmente infantil. Uma vez, eu estava a tomar banho na banheira, e ela afundou todos os meus barquinhos sem nenhum motivo aparente”.
Isso é Greca escrito.
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