ANO IV

04/06/2026

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SÓ FALTOU COMBINAR COM RATINHO JUNIOR

Ancelloti da direita, Flavio Bolsonaro escala Guto Silva para disputar o governo do Paraná

25/02/2026
anotação de flavio bolsonaro

A empolgação com as últimas pesquisas parece ter produzido um efeito colateral curioso no senador Flávio Bolsonaro (PL). Animado com os números que circulam nos bastidores de Brasília, o filho do ex-presidente decidiu assumir uma função que vai além da articulação política tradicional. Passou a agir como uma espécie de técnico da direita, escalando candidatos estaduais como se organizasse uma seleção para a Copa ou, para usar uma metáfora mais contemporânea, como um Ancelotti de gabinete, distribuindo posições e definindo titulares antes mesmo de o campeonato começar.

As anotações manuscritas do senador, usadas em uma coletiva com a imprensa e divulgadas nesta quarta-feira (25) pelo portal de notícias Metrópoles, revelam uma estratégia que extrapola as fronteiras do seu próprio partido, o PL. Nas suas anotações, Flávio desenha palanques estaduais para sustentar sua eventual candidatura presidencial, mas não se limita a quadros da legenda. Pelo contrário, parece disposto a montar alianças pragmáticas, ainda que isso signifique prestigiar nomes de outras siglas.

O caso do Paraná é emblemático. Nas anotações, o senador sacramenta uma candidatura ao governo estadual que nem sequer foi oficialmente confirmada. O nome do secretário Guto Silva aparece como o escolhido do PSD para a disputa ao Palácio Iguaçu. Mais do que isso, ao lado do nome de Guto, Flávio registra, de próprio punho, o nome do governador Ratinho Junior, indicando tratar-se de uma indicação direta dele.

A desenvoltura chama atenção porque o próprio governador ainda não confirmou publicamente o desenho sucessório. Mas, no caderno do senador, a escalação já está pronta.

Na mesma página, surge outro nome, o do senador Sergio Moro. A simples anotação do nome do senador indica que o PL não descarta buscar seu apoio ou, em movimento ainda mais ousado, oferecer-lhe a própria legenda como abrigo partidário. Moro, que construiu trajetória marcada por embates e rupturas políticas, aparece ali como peça possível no tabuleiro bolsonarista, caso a estratégia eleitoral assim recomende.

No Senado, a definição é ainda mais objetiva. Flávio deixa claro que o PL apoiará apenas o deputado Filipe Barros, de Londrina, para uma das vagas. A ex-candidata à prefeitura de Curitiba, Cristina Graeml, que usou e abusou do apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições municipais, é descartada nas anotações, sob o argumento de que “atrapalha Filipe”.

Já o ex-procurador Deltan Dallagnol é tratado como candidato do governador Ratinho Junior, indicando que pretende cumprir um acordo firmado entre o governador e o ex-presidente Jair Bolsonaro, que distribui as duas vagas para o Senado entre o PL e o PSD. Para Flavio, Dallagnol se elege com facilidade. “Se garante”, anota Flavio, numa demonstração de confiança pouco usual num cenário político que, por definição, é imprevisível.

O que emerge do bloco de notas do pré-candidato à Presidência não é apenas uma estratégia eleitoral, mas uma tentativa de coordenação ampla do campo conservador nos estados, sob a lógica de maximizar palanques e evitar dispersão de votos. A ironia é que o comando parte de um senador que, formalmente, não ocupa a presidência do partido nem detém autoridade estatutária para definir sozinho os rumos estaduais.

Se a empolgação com as pesquisas justificou a ousadia, o tempo dirá. Por ora, o que se vê é um parlamentar disposto a distribuir camisas, escolher titulares e até indicar reforços de outras legendas, como se o campeonato já tivesse calendário definido e resultado encaminhado.

No caso do Paraná, só faltou combinar com o governador Ratinho Junior. Durma-se com um barulho desses.

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