Existe um fenômeno econômico brasileiro que deveria ser estudado com a mesma seriedade dedicada ao pré-sal: o empreendedorismo por alinhamento institucional.
Eis que o país teve acesso, com a quebra de sigilo, à conta corrente do Lulinha. Para quem não sabe, trata-se do filho do Lula, o presidente.
Segundo as informações que circularam nesta quinta-feira (5), Lulinha movimentou R$ 19,5 milhões nos últimos quatro anos. Quatro anos. Curiosamente, o período em que o pai voltou a ocupar a cadeira mais bem posicionada do mercado nacional, uma cadeira tão influente que muda até o humor da bolsa, o preço do dólar e o tom das pessoas no elevador.
Quando um cidadão comum movimenta quantias modestas, o banco pergunta origem, destino, finalidade e, se possível, o signo do zodíaco. Já quando os números ganham sete ou oito dígitos, o país entra em um interessante estado de contemplação institucional.
Não estou sugerindo irregularidade alguma. Longe disso. Apenas observo que o Brasil desenvolveu um talento singular para transformar matemática em narrativa.
R$ 19,5 milhões não é pouco dinheiro. Tampouco é muito, dependendo do contexto. No Brasil, o valor exato de qualquer cifra depende menos do número e mais da biografia de quem a movimenta.
Insisto: nada disso, por si só, prova (ainda) irregularidade alguma. Movimentar dinheiro não é crime (ainda). E ter um pai generoso, menos ainda. Aliás, o pai, Lula, o presidente, teria repassado R$ 721 mil ao filho, uma demonstração de afeto que, em famílias menos abençoadas, costuma se limitar a “posso te fazer um PIX de cento e cinquenta e você me devolve no dia 5?”.
Para os mais antigos, a cena lembra aquele clássico do humor da televisão brasileira, criação do mestre Chico Anysio, em que o pai chamava o filho de “meu garoto”, e o garoto respondia com ternura, “meu pai-pai”. No Brasil contemporâneo, apenas atualizamos a expressão. O carinho agora vem acompanhado de comprovante bancário.
Enfim, o que impressiona não é a cifra. R$ 19,5 milhões é uma bobagem. É o timing.
Empresários surgem. Negócios prosperam. Consultorias florescem. O mercado recompensa talentos que, curiosamente, costumam aparecer nas proximidades do poder.
Há filhos de presidentes que viram escritores. Outros viram palestrantes. Alguns descobrem vocação para a diplomacia em aeroportos. Mas há um tipo especial, raríssimo, que parece ter uma habilidade superior: gerar negócios exatamente quando o pai está bem colocado no mercado.
E veja, não estou dizendo que exista relação causal. Deus me livre. Estou falando apenas de uma coincidência estatística tão elegante que daria inveja a qualquer consultoria de “growth”.
Peço até desculpas pela minha habilidade no uso de termos em inglês. Vamos lá: essas consultorias modernas que explicam o óbvio em PowerPoint colorido, e cobram caro por isso, gostam de chamar de growth aquilo que, no português mais antigo, se chamaria simplesmente de “crescer”.
Voltando ao assunto, quando o pai está fora do poder, o empreendedor enfrenta a dureza do mercado: burocracia, concorrência, boleto, juros. Quando o pai está no poder, o empreendedor enfrenta… oportunidades.
É uma forma moderna de meritocracia. O mérito de nascer no CEP certo da árvore genealógica.
O mais bonito é que o Brasil faz tudo isso mantendo o discurso moral sempre pronto. De um lado, o país discute “privilégios”. Do outro, pratica a versão mais sofisticada do privilégio, aquela que vem vestida de normalidade.
E convenhamos, R$ 721 mil de ajuda paterna não é exatamente um “empurrãozinho”. É um abraço financeiro. Um afago contábil. Um “vai lá, meu filho, o mundo é seu” com TED e comprovante.
Ainda existe TED? Deixa pra lá.
A relação familiar vira quase um case de administração doméstica avançada:
• Pai: ocupa posição central na economia e na política.
• Filho: movimenta volumes respeitáveis no mesmo período.
• País: discute por semanas se deve achar isso normal, genial ou apenas “mais uma coincidência”.
No Brasil, a coincidência é um patrimônio cultural. E a coincidência bem situada é praticamente um modelo de negócios.
Repito, não estou acusando ninguém de nada. Apenas admiro a eficiência do arranjo.
Porque há gente que precisa de MBA para aprender networking. Outros precisam só de sobrenome.
E isso, sim, é um milagre econômico em estado puro.



