O Brasil é uma nação profundamente comprometida com o futuro. Tão comprometida que faz questão de nunca chegar até ele.
Tudo aqui é planejado para “depois”. Reformas estruturais, ajustes fiscais, modernizações administrativas, cortes de privilégios, enfim, sempre existe um momento mais conveniente, logo ali adiante, depois da próxima eleição, da próxima crise, da próxima lua cheia ou da próxima reunião que não acontecerá.
O presente é apenas um local de espera.
Governos anunciam medidas corajosas que serão implementadas em etapas cuidadosamente distribuídas ao longo de décadas. A primeira etapa consiste em anunciar a segunda. A segunda consiste em criar um grupo de trabalho para avaliar a viabilidade da primeira. A terceira é substituída por um novo anúncio ainda mais ambicioso.
A esse ritmo, o país avança com extraordinária estabilidade rumo ao ponto onde já estava.
O Congresso, por sua vez, cumpre papel essencial nesse ecossistema do adiamento. Nada é rejeitado de imediato. Tudo é “aperfeiçoado”. Propostas entram em comissões, subcomissões, grupos temáticos, câmaras técnicas e outras instâncias que funcionam como spas legislativos. A ideia entra inflamada e sai relaxada, desidratada e sem qualquer efeito colateral.
Já o cidadão aprendeu a colaborar. Desenvolveu uma notável capacidade de adaptação. Quando uma obra pública é anunciada, ele não pergunta mais quando ficará pronta. Pergunta apenas se chegará à fase das placas inaugurais ou se permanecerá na fase conceitual.
A placa, aliás, é o verdadeiro monumento nacional. Resiste a governos, a chuvas e ao próprio tempo. Muitas vezes é a única evidência de que algo esteve prestes a acontecer naquele local.
Especialistas dizem que o país precisa de planejamento de longo prazo. Discordo. O Brasil já domina o longo prazo como ninguém. O problema é que ele sempre começa amanhã.
Enquanto isso, seguimos administrando o cotidiano com a serenidade de quem sabe que nenhuma decisão é definitiva. Sempre existe uma comissão, uma revisão, um ajuste ou uma nova conjuntura que permitirá reconsiderar tudo novamente.
É um sistema profundamente humano. Errar é aceitável porque não há pressa em acertar.
No fundo, talvez essa seja nossa verdadeira política de estabilidade. Garantir que nada mude rápido o suficiente para obrigar alguém a assumir responsabilidade pelo resultado.
O futuro, afinal, é um lugar perigoso. Lá, promessas viram fatos. Melhor deixá-lo para depois.
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