Sexta-feira é um território delicado. O cidadão brasileiro chega a ela emocionalmente exaurido, cognitivamente saturado e com uma tolerância bastante limitada para novidades institucionais.
Diante disso, esta coluna opta hoje por um serviço de utilidade pública leve. Vou apresentar uma prévia do Pequeno Dicionário da República, obra em preparação pelo Instituto Agenor Mendes Pedreira de Linguística Aplicada à Realidade.
Trata-se de um trabalho minucioso de anos de observação, escuta seletiva e sobrevivência cívica. A proposta é simples: converter o idioma oficial da política, também conhecido como “vernáculo estratégico”, para o português compreensível sem necessidade de assessoria especializada.
Seguem alguns verbetes inaugurais:
“Estamos monitorando a situação”
Tradução: não sabemos o que fazer, mas prometemos parecer atentos.
“A medida é temporária”
Tradução: ficará até que todos esqueçam que deveria acabar.
“O diálogo está aberto”
Tradução: ninguém concordou com nada, mas a reunião teve café.
“Não haverá impacto para a população”
Tradução: haverá impacto, porém distribuído de forma democrática.
“O governo trabalha incansavelmente”
Tradução: alguém está trabalhando. Não necessariamente no problema.
“Os números mostram melhora”
Tradução: escolhemos números que mostram melhora.
“A decisão foi técnica”
Tradução: política demais para ser assumida como política.
“Estamos estudando alternativas”
Tradução: estamos esperando o problema se resolver sozinho.
Caso o leitor identifique alguma expressão recorrente que mereça inclusão em futuras edições do dicionário, a coluna aceita sugestões, desde que acompanhadas de provas de sobrevivência ao anúncio original.
Este material será ampliado conforme a realidade nacional continue produzindo exemplos com regularidade, o que, tudo indica, não deve cessar no curto prazo.
Na segunda-feira voltamos ao tom habitual. Até lá, recomenda-se moderação no consumo de notícias e expectativas igualmente moderadas quanto ao surgimento de soluções súbitas.
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