ANO IV

06/06/2026

HojePR

mauro mueller

Um minuto e onze segundos de Dalton

24/03/2026
janela

Manhã bem cedo.

Saí de casa às sete e meia da manhã, com uma camiseta de malha, na fria Curitiba que eu, nascido por aqui, fingia não conhecer.

Sempre achei que o curitibano já nasce sem o hipotálamo. Ao sol não foi permitido participar deste sábado. Ficou escondido e sairia das nuvens somente às treze e trinta. Um passeio para respirar o ar da Rua das Flores. São poucas flores, mas tem muita calçada e gente apressada sem saber aonde vai chegar. A Praça Santos Andrade estava movimentada e obrigou os moradores de rua a acordarem um pouco mais cedo. Um deles já lavava o rosto no chafariz. Higiene matinal, no modo possível.

Eu tinha um propósito naquela manhã fria. Conhecer o auto-declarado Vampiro. Disseram-me vários que era avesso aos contatos com pessoas deste mundo, mal sai de sua casa e não se deixa fotografar.

Ao longo dos anos, eu realmente nunca havia tomado conta de sua presença além da fama de escritor e contista. E que escritor e que contista este senhor é!

Das minhas influências literárias, Dalton está na fila da frente.

Pretenso escritor, poeta, contista e compositor musical desde meus catorze, sem nada publicado até os quarenta anos de idade, organizei minha primeira saga literária: Um livro de contos. E prometi a mim mesmo que o maior de todos seria dono dos primeiros olhos a testemunhar algumas de minhas escritas.

Uma das pernas quase não deixava caminhar o resto do corpo.

Muitas pessoas alertaram que o Vampiro era avesso a entrevistas. Eu não queria entrevistá-lo, mas trabalho em TV.

Ele dificilmente me atenderia, mas eu estava determinado a bater em sua porta e entregar em mãos o material: Doze contos.

Parei em frente ao portão que dava para a calçada da Ubaldino. Casa antiga, deve estar ali há cem anos, há trinta precisando de uma pintura, mesmo assim dava a impressão de alguém estar cuidando desta falta de tinta com minúcias para conservar assim. Muro alto, quase dois metros. Portão dentro do muro. Muro emendado na casa. Janelas que “dão” para a rua. Medo gostoso de que realmente um Vampiro residia ali. Portão velho, sem cuidados de pintura, mas conservado o suficiente para fechar e dormir sem sustos.

Um dia fora azul claro?

Fixado ao portão a caixa de correios, que eu relutava em fazer uso. Do portão para a porta de entrada da casa era uma varanda com aproximadamente sete passos. Mas, tinha a porta da sala à direita dos olhos a dois passos. As duas portas eram destas portas com vidros da metade para cima e cortinas sob medida com elásticos de fora a fora. Lembrei a casa da minha avó, na Trajano. A um passo do portão e à esquerda, uma escada com dois degraus que dava para o jardim, que não parecia estar no centro daquela cidade que já fora tranquila naquelas bandas. Um jardim enorme com grama verde, bem cuidada e cerca de 10 cedros enfileirados beirando o muro que dava para o prédio vizinho, fechando o cenário europeu no mundo fora, que já é metrópole.

Se as histórias contadas sobre o Vampiro são verdadeiras, não havia de ter campainha. Já eram quinze minutos de espera entre a primeira vez que eu batia palmas até a primeira vez em que resolvi chamar seu nome em voz alta em duas outras vezes, para mudar a tática. Em vão por mais cinco longos minutos. Um vulto de uma pessoa na porta que dava para o jardim passou perto. Em nada lembrava um Vampiro. Cerca de mais três minutos esperando a porta se abrir, no terceiro brado de seu nome a janela começa a produzir barulho. Na janela a visão de um semblante que nada se parece a um temido Vampiro.

Somados 40 minutos de espera e então… ele.

Um senhor, bem e simplesmente vestido com camisa clara de gola moderna, aparentando bem menos que os seus noventa anos de idade. Cabelos grisalhos e um rosto tranquilo e simpático.

Ele disse bom dia primeiro e sem que eu pudesse fazer qualquer pergunta depois de responder o seu bom dia, sorrindo educadamente, eu pedi para apertar a sua mão.

Ele estendeu a mão e nos tocamos muito suave, em formal aperto.

Quando eu disse meu nome ele já entregava de presente um livro seu, dizendo:

– Todas as respostas estão aqui.

Como ele sabia que eu tinha perguntas?

Óbvio: Todos tinham.

Fazendo o movimento de fechar a janela, eu rapidamente disse que eu queria retribuir ao presente que acabara de receber das mãos do Vampiro, que mais parecia um avô de um grande amigo de infância.

– Posso?

Ele voltou a abrir a janela, em consentimento. Me enchi de felicidade e passei para a sua mão rapidamente a pasta que carregava. Enquanto entregava a pasta com meus contos, explicava que eram meus primeiros contos a serem publicados em livro. Ao termino da entrega e da fala, ele imediatamente sorriu.

Estou autorizado pelo maior contista brasileiro a publicar meus livros? Posso carregar esta ilusão comigo, até me transformar em Vampiro também?

Falei a ele que sua leitura já seria uma pretensão e que sua aprovação seria um sonho.

– Qual é o motivo pelo senhor se retrair assim, neste mistério?
– As respostas estão todas neste livro.
– O senhor é bem mais simpático do que as histórias sobre o senhor.
– Obrigado.
– Muito prazer em conhecê-lo.
– Obrigado.

Você achou idiota este pequeno diálogo? Eu também me achei um completo idiota, revivendo a cena. Tantas coisas para falar e saiu somente isto?

Pergunta. Logo um expediente que eu sei que ele é avesso?

A janela se fechou.

Abriu-se em mim uma alegria infantil, uma catarse melancólica, um desejo de conversar e perguntar outras coisas, saber se ele mesmo cuidava daquele jardim, se era possível voltar um dia para um café, um vinho, uma conversa.

Sim, eu fui muito óbvio.

Um idiota óbvio.

Saí de lá com um desejo de começar tudo outra vez e mudar a abordagem.

Fiz tudo errado.

Perto do misticismo em volta do histórico, até fui acima da média do ser humano. Ganhei um livro de suas mãos e conversei com o Vampiro por um minuto e onze segundos. Ele atendeu pelo nome de Dalton.

(Imagem: a janela do encontro/Mauro Mueller)

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