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06/06/2026

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Problema cardíaco não começa no coração; entenda e saiba como se proteger

25/03/2026
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As doenças cardiovasculares, representadas por acidente vascular cerebral (AVC) e doença isquêmica do coração (que pode levar ao infarto), são responsáveis por quase um em cada três óbitos que ocorrem no mundo. Por isso, ocupam o posto de principal causa de morte no planeta. No Brasil, elas vitimam 400 mil brasileiros ao ano — um indivíduo a cada 90 segundos —, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. Apesar dos números alarmantes, muitos fatores de risco ainda são negligenciados pela população, seja por desconhecimento ou por subdiagnóstico. É o caso de quadros como distúrbios do sono, diabetes e doenças renais crônicas.

É importante destacar que o perfil dos pacientes com problemas cardíacos tem mudado nos últimos anos. Cada vez mais, as doenças do coração têm sido diagnosticadas em pessoas mais jovens, muitas vezes na casa dos 30 ou até dos 20 anos, geralmente sedentárias e estressadas.

Mas, segundo a Associação Americana do Coração (AHA, na sigla em inglês), esse cenário é totalmente evitável, já que aproximadamente 80% dos infartos e AVCs são passíveis de prevenção.

Por trás da conexão

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos confirma que a maioria das pessoas não percebe que a saúde do coração, dos rins e do metabolismo (como o corpo cria, usa e armazena energia) está interligada, de acordo com a AHA. “Como as doenças cardíacas, renais e diabetes estão intimamente relacionadas, ter uma dessas condições muitas vezes aumenta a probabilidade de desenvolver as outras. Isso se deve, em grande parte, a fatores de risco comuns, incluindo hipertensão, colesterol alto, hiperglicemia, excesso de peso e redução da função renal”, alertou a entidade em comunicado divulgado recentemente.

O termo médico para a conexão entre doenças cardíacas, renais e diabetes é síndrome cardiovascular-renal-metabólica, ou síndrome CKM. As maiores ameaças à saúde decorrentes da síndrome CKM são a incapacidade e a morte por doenças cardíacas e derrames.

O diabetes aumenta o risco de doenças cardiovasculares porque o excesso de açúcar no sangue, quando mantido por muito tempo, danifica a parede interna dos vasos sanguíneos e favorece a inflamação e o acúmulo de gordura nas artérias, processo conhecido como aterosclerose, explica o endocrinologista Levimar Araújo, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. A glicose elevada também se liga a proteínas do organismo, tornando os vasos mais rígidos e menos saudáveis.

No diabetes tipo 2, a resistência à ação da insulina — hormônio que facilita o aproveitamento do açúcar pelas células — também está associada a alterações no colesterol, com aumento do LDL, o chamado “colesterol ruim”, que facilita o entupimento das artérias. Muitos pacientes ainda desenvolvem pressão alta, o que sobrecarrega ainda mais o sistema circulatório. A soma desses fatores eleva o risco de infarto, AVC e problemas na circulação das pernas, que podem levar até a amputações quando o diabetes não é bem controlado, afirma o médico membro da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Já a doença renal crônica, que se caracteriza pela perda lenta e progressiva da função renal, acomete cerca de 10% da população e evolui lentamente. Ela tem como principais causas o diabetes e a hipertensão — mas, mesmo quando o paciente não tem essas comorbidades associadas, a doença renal por si só já aumenta o risco cardíaco.

O rim é ligado ao coração por uma artéria, por isso, quando um “piora”, o outro também “sofre”, explica o nefrologista Hugo Abensur, médico da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. O coração funciona como uma bomba que envia sangue para todo o corpo, inclusive para os rins, que precisam desse fluxo adequado para filtrar o sangue. Assim, quando o coração está enfraquecido, a função renal é prejudicada. Por sua vez, quando os rins não funcionam bem, eles retêm água e sal, o que eleva a pressão arterial e sobrecarrega ainda mais o coração, criando um ciclo em que um problema agrava o outro, ensina o especialista.

“Portanto, é muito importante a gente estar atento aos fatores que agridem de maneira comum o rim e o coração”, conclui Abensur.

Os distúrbios do sono, como a apneia, a insônia crônica e a falta ou excesso de sono (menos de seis horas ou mais de nove horas por noite) também aumentam o risco cardiovascular ou podem funcionar como marcadores de risco, demonstrando que algo está errado com o coração. Em resumo, noites mal dormidas mantêm o organismo em estado de alerta, inflamado e metabolicamente desregulado, ambiente que favorece hipertensão, disfunção endotelial e formação de placas nas artérias — o caminho clássico para infarto e AVC.

Na lista de impulsionadores “invisíveis” de eventos cardíacos, ainda vale incluir os transtornos mentais, como depressão e ansiedade. Pacientes em sofrimento emocional possuem maior atividade da amígdala cerebral, uma estrutura envolvida no processamento do medo e do estresse, mantendo o organismo em estado de alerta. Ao longo do tempo, isso pode afetar o funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos.

Além desses fatores, o cardiologista Luiz Bortolotto, do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que o uso de anabolizantes e o tabagismo também pioram a saúde do coração. Isso ocorre não apenas devido ao maior risco de entupimento das artérias, mas por outros mecanismos como a formação de coágulos e o desenvolvimento de trombose, além da relação com alterações estruturais no coração (como hipertrofia) e arritmias.

Por que muitas pessoas desconhecem esses problemas?

No caso do diabetes, uma parcela considerável da população passa de oito a 12 anos sem receber o diagnóstico, e quase metade dos brasileiros com a doença não sabe que convive com a condição e está em risco, afirma Araújo. Esse cenário acontece porque “a primeira glicemia que se altera (no diabetes) é aquela medida duas horas depois da refeição, e a maioria dos médicos pedem (apenas) o exame de glicemia de jejum”, o que pode dificultar o diagnóstico do diabetes na fase mais precoce, segundo o endocrinologista.

Muitos pacientes também chegam no pronto-socorro já em níveis avançados de doença renal crônica, sem saber que tinham a condição, relata Abensur. “Isso é uma evidência de que o diagnóstico precoce não está sendo feito”, diz o nefrologista.

Já os distúrbios de sono são frequentemente negligenciados porque os sintomas — como sonolência diurna, perda de foco, dor de cabeça matutina — costumam ser atribuídos ao estresse, à rotina intensa ou até a traços pessoais, em vez de reconhecidos como sinais de um problema clínico. A apneia tem ainda o ronco alto como principal sintoma, mas que só é relatado quando uma pessoa divide o ambiente noturno com o paciente.

Para complicar, muitas pessoas não encaram hipertensão e diabetes, por exemplo, como doenças, afirma Bortolotto. “(Os pacientes acham que) é uma situação pontual e temporária: ‘Minha pressão está alta, eu tomei o remédio, abaixou, acabou o problema’ ou ‘eu controlei o diabetes, está tudo certo’. É difícil as pessoas terem essa percepção de que vai acontecer algo grave se a doença não for tratada no longo prazo, e isso dificulta a adesão ao tratamento. Porque, se elas não se convencem do risco, não vão tomar remédio”, diz.

O principal perfil de pacientes com risco de problemas cardiovasculares, mas que não têm consciência dessa possibilidade, são os jovens. Segundo o cardiologista, aqueles com antecedente familiar dessas doenças são os que devem se preocupar mais — mesmo que não apresentem sintomas. Os problemas de coração também têm aparecido cada vez mais cedo devido ao aumento de obesidade, diabetes, pressão alta e uso de anabolizantes e cigarros eletrônicos entre os mais novos, reforça Bortolotto.

Como identificar essas condições

Os fatores de risco geralmente se desenvolvem lentamente, com poucos ou nenhum sintoma no início. Por isso, é fundamental avaliar com frequência parâmetros como pressão arterial, colesterol, glicose (açúcar no sangue), circunferência da cintura e função renal. “Devido às taxas atuais de fatores de risco, todos poderiam se beneficiar desse tipo de exame”, afirmou Stacey Rosen, presidente da AHA, em comunicado.

A dificuldade de diagnosticar o diabetes precoce poderia ser superada por meio do exame de hemoglobina glicada (HbA1c), que mede a variação da glicose nos últimos três meses, comenta Araújo. “Isso faz com que a gente consiga antecipar o diagnóstico de diabetes. E, se a pessoa tiver a doença, é obrigatório fazer um check-up do coração e dos rins, além de manter um bom controle da glicose, usando todas as medicações e investindo em alimentação adequada e atividade física”, explica o endocrinologista.

O rastreamento de doenças renais, em particular, pode ser melhorado por meio do teste uACR (relação albumina/creatinina na urina), reforça a AHA. Trata-se de um exame de urina capaz de avaliar a função renal. Para pessoas com diabetes ou hipertensão, são recomendados dois exames: o uACR e também o exame de sangue eGFR. Segundo a entidade, cada um mede aspectos diferentes da saúde e do funcionamento dos rins.

Abensur também recomenda a dosagem de creatinina no sangue. “É muito importante conscientizar a população sobre a creatinina como um marcador de função renal. A população sempre está preocupada com glicemia, colesterol, PSA, mas também tem que pedir para o seu médico avaliar a creatinina para ver se ele tem algum grau de disfunção renal. É um exame simples e barato”, aponta o nefrologista.

Em resumo, a triagem para a síndrome cardiovascular-renal-metabólica (CKM) pode incluir os seguintes exames:

  • Pressão arterial;
  • Painel de colesterol (colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos);
  • Glicemia, por meio da glicemia em jejum, A1C e, se necessário, o teste oral de tolerância à glicose (TOTG);
  • Peso e tamanho corporal, medidos pelo índice de massa corporal (IMC) e circunferência da cintura;
  • Função renal, por meio da dosagem de albumina e creatinina.

“A síndrome CKM é evitável e tratável. Hábitos saudáveis e tratamentos baseados em evidências podem melhorar várias condições de saúde em conjunto”, diz o documento da entidade americana.

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