ANO IV

23/06/2026

HojePR

É preciso ressurreição

31/03/2026
ressurreição

Sábado à tarde. A rua vazia.

O comércio fecha com o barulho seco das portas de ferro encerrando o expediente. Lembro-me do som do portão da garagem do meu avô.

Ninguém nas calçadas – a cidade morta.

Vejo o reflexo das minhas pernas nas vitrines, trançando-se ligeiras. Sempre caminhei com pressa, cheia de tarefas urgentes.

Tinha que voltar logo para casa. O que servirei no jantar? Conseguirei fazer a sobremesa? Onde passo antes: Mercado, padaria, açougue?

Outras preocupações também me obrigavam a acelerar o ritmo – corpo e mente. O jardineiro vai aparecer? E a consulta da filha? Preciso buscar alguém hoje — ainda há quem me espere?

Que estranho… não há ninguém na rua.

Aromas me distraem – cigarro, perfume perdido no ar, café velho. De repente a fragrância dos junquilhos chega até mim, inesperada. Como um agrado do Céu, um alívio aos sentidos.

Junquilhos remetem à infância. Colocados na água, seu doce frescor permanecia, por dias, emanando felicidade.

Percebo, então, que não estou tão só. Há memórias. A rua vazia varria vento de flor em mim.

Sempre li e ouvi: a vida é sozinha. Isso soava distante, como conversa sem assunto, melhor, falta de conversa. Mas chegou o dia em que sou mais minha do que de ninguém.

E o que faço com tanta Maria?

A vida é só minha.

Meus amores tinham asas e eu não sabia. Será? Fingia, fugia.

A casa está grande demais: sobram camas e lugares à mesa. As portas não batem, nem há vozes brincando, rindo ou brigando. Não há pés correndo na escada, nem ninguém descendo pelo corrimão.

Nos varais, há espaço para pendurar as saudades, e o silêncio toma conta. De repente, se instala a pior das sinfonias.

O entardecer de quem jogou a rede milhares de vezes vem junto com o aviso: é tempo de compreender que o sim e o não não são para sempre. As linhas tortuosas por onde a vida nos leva nem sempre são justas. Mas ressentir-se pelas flores despedaçadas não é mais opção.

É necessário tatear a humildade. Aceitar que somos passagem na vida de quem amamos. Brincar com a esperança. E reconhecer que o final do filme é sempre uma surpresa.

Aqui dentro, um sino insiste em tocar.

Vozes ecoam insistentes:

— Mãe, cadê você?
— Deus, você ainda está aqui?

Sossego a solidão.Trago à lembrança as felicidades passadas, perdoo as pisadas.

E espero a ressurreição.

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