ANO IV

23/06/2026

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Kombi

10/04/2026
kombi

Em Santa Felicidade, onde o perfume das cantinas italianas se mistura com o tilintar de taças e o barulho discreto de garfos em massa al dente, circulava — não sem certa dignidade combalida — a célebre Kombi 1987 de Miguélzinho da Kombi.

Miguélzinho, figura conhecida no bairro, era desses homens que não se entregam facilmente ao fracasso — ainda que o fracasso, diga-se, nutrisse por ele uma afeição quase familiar. Sua Kombi, de pintura já indecisa entre o bege original e o ferrugem sincero, fora testemunha de uma sequência de empreendimentos tão variados quanto improváveis.

Primeiro, tentou a vida de entregador de pães, leite e derivados. A ideia parecia promissora: acordar cedo, distribuir frescor pelas ruas ainda sonolentas. Contudo, Miguélzinho tinha uma relação flexível com horários. O pão chegava quando já era quase torrada de sol, o leite azedava de tédio, e os fregueses, impacientes, migraram para padarias mais pontuais. Resultado: fracasso com miolo murcho.

Na segunda investida, a Kombi ganhou cores mais alegres — ou assim pretendia — e transformou-se em sorveteria ambulante. Miguélzinho, munido de um freezer que mais parecia um otimista elétrico, percorreu ruas e praças anunciando picolés e sonhos gelados. O problema é que a Kombi, solidária ao clima de Curitiba, preferia oscilar entre o frio e o morno. Sorvete meio derretido não inspira confiança. As crianças desconfiavam, os adultos evitavam, e o freezer, por fim, aposentou-se em silêncio. Novo fracasso, desta vez pegajoso.

Foi então que, aconselhado por uma palestra motivacional do Sebrae — dessas que prometem transformar até chaleira quente em freezer, vislumbrou uma oportunidade —, Miguélzinho decidiu ingressar no ramo de consertos domésticos. Especializou-se em panelas, tampas e utensílios de cozinha. E ali, surpreendentemente, encontrou um nicho.

Sua Kombi passou a estacionar em pontos estratégicos, e logo se formavam pequenas filas de senhoras com panelas de todas as idades e temperamentos. Havia tampas rebeldes, que já não se ajustavam ao destino; alças frouxas, cansadas da lida; fundos empenados, talvez por excesso de fervura da vida.

Miguélzinho, com ferramentas simples e uma conversa ainda mais afiada, ajustava aqui, martelava ali, e devolvia às panelas uma segunda chance. Era quase um terapeuta de utensílios — e, por tabela, de suas donas. O negócio prosperava. A Kombi, enfim, encontrava algum propósito.

Mas foi justamente nesse período de relativo sucesso que Miguélzinho teve sua mais ousada ideia.

Observador atento da rotina humana — e talvez inspirado por tantas tampas que buscavam encaixe —, percebeu que havia uma demanda ainda mais silenciosa nas ruas: encontros amorosos discretos, práticos e, sobretudo, acessíveis.

Numa guinada digna de crônica urbana, transformou a Kombi em um pequeno refúgio itinerante. Instalou uma cama modesta, um frigobar respeitável, cortinas estratégicas e uma iluminação que variava entre o romântico e o econômico. Tudo muito funcional, com aquele charme improvisado que só a necessidade bem administrada consegue produzir.

Nascia, assim, a Kombi dos Encontros.

Estacionada ora nas redondezas de Santa Felicidade, ora nas imediações do Parque Barigui, e por vezes em outros parques onde o amor costuma passear disfarçado, a Kombi passou a oferecer seus serviços por meia hora ou hora inteira.

Sem burocracia, sem julgamento, apenas o aluguel de um espaço onde o tempo corria com certa cumplicidade.

E o sucesso veio — avassalador, como costumam ser as ideias que ninguém admite ter tido antes.

Casais jovens, maduros, reencontrados, desencontrados — todos encontravam na Kombi de Miguélzinho uma solução prática para seus enredos afetivos. Havia quem celebrasse inícios, quem resolvesse meios, e quem encerrasse ciclos com dignidade estofada.

Filas e filas se formaram. A Kombi do Miguélzinho também fica estacionada nas imediações do MON no Centro Cívico as quintas e sextas feiras. Que é para proporcionar conforto aos funcionários públicos que prolongam o horário de almoço e ou expediente noturno.

Miguélzinho, agora empresário consolidado, administrava horários com precisão quase suíça — ironia que não passou despercebida pelos antigos fregueses do pão atrasado. Aprendera, enfim, que certos negócios exigem pontualidade emocional. Aceita todos os tipos de cartão. Pode fazer convênio com associações de classe e sindicatos.

E aceita até vales refeições.

Dizem que, ao final do expediente, enquanto fecha as cortinas e confere o frigobar, ele ainda guarda consigo uma caixa de ferramentas.

Vai que aparece uma panela teimosa ou uma tampa sem rumo.

Afinal, no fundo, Miguélzinho continua sendo o mesmo: um homem tentando, com seus meios e sua Kombi, ajudar coisas — e pessoas — a se encaixarem melhor.

E se antes fracassava em entregar pão fresco, hoje entrega algo talvez mais delicado: momentos calientes e fervorosos..

Se você leitor encontrar a Kombi do Miguelzinho saiba que é de Utilidade Publica pois opera com qualificado serviço de higiene. E aproveite os preços módicos você poderá viver bons momentos.

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1 comentário em “Kombi”

  1. 🙂😊😁🥹😍 Vou lá, sim falta arrumar a quenga. Toindo pro Passeio Público, em frente a Celu, caçar uma piranha com isca de minhoca

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