Seis horas da manhã e eu não consigo pensar em mais nada.
A noite foi calma, porém não havia nenhuma coisa para me convencer que foi uma boa noite de boemia. Nem o clima, nem a música, nem os bares, só tempo desperdiçado, como todos os arrependimentos nas madrugadas.
As mesmas roupas, as mesmas caras de sempre, os mesmos foras, as mesmas cantadas grotescas, com bafo de cachaça.
Mundo fútil, que insisto em admirar. Afinal, até no lixo existe alguma beleza.
De repente, uma estranha cena me deixou parado.
Acho que somente eu via aquilo. Um moleque, aparentando menor idade, estava abrindo um carro, com habilidade e uma experiência como poucos. Ele roubava sem selecionar, tudo o que havia dentro.
Tudo o que tinha algum valor, ia para o seu saco de pano reciclável: som, altofalantes, blusa de cotelê, alguns CD’s no porta-luvas… os óculos escuros foi o maior proveito. Já imaginou um cliente, que iria pagar um bom dinheiro por ele.
O rapaz fazia um trabalho com destreza e calma, sem se quer passar os olhos, para cuidar se havia alguém olhando, ou se o dono do automóvel estaria se aproximando.
– Que merda é essa, moleque… por quê isso ? – eu era daqueles que queria eu consertar o mundo.
– Coitado de mim.
– Elvis, dotô, Elvis Presley – Me deu um CD do Elvis e saiu saltitante, comemorando o saldo positivo da sua ação, numa gargalhada sem tamanho.
Leia outras colunas do Mauro Mueller aqui.



