ANO IV

23/06/2026

HojePR

sergio

Coquetel Molotov: o primeiro urro do punk carioca

16/04/2026
coquetel

Em 1982, fomos tocar com a Contrabanda no Circo Voador do Rio de Janeiro, como já escrevi aqui antes. Depois do show, nossos novos amigos cariocas (Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho) nos levaram para o Cochrane, bar do ladrão inglês Ronald Biggs, e aí conhecemos alguns punks, quase todos mulheres negras. Entre eles estava o Tatu, vocalista do Coquetel Molotov. Pelas voltas do destino, conheceríamos muitos anos depois Olmar Lopes, o baixista da banda, que tinha mudado com a mulher para Curitiba. Hoje é o nosso baixista na Orquestra Sem Fim, que, em breve, lançará seu primeiro álbum em vinil.

A banda Coquetel Molotov, integrada por Tatu (voz), César Nine (guitarra), Olmar Lopes (baixo) e Lúcio Flávio (bateria) é considerada por muitos pesquisadores e estudiosos como o primeiro grupo de punk rock do Rio de Janeiro, formado em 1982. Tatu, Olmar e Lúcio Flávio, da turma de skatistas da Zona Norte do Rio, uniram-se a César Nine, sobrenome em homenagem à banda punk inglesa 999.

Em 1983, junto com o 402, grupo que tinha como guitarrista Fernando Magalhães (futuro Barão Vermelho) e os Paralamas do Sucesso (ainda desconhecidos da mídia) participou do “I Festival Punk do Rio de Janeiro”, realizado no Dancing Méier. No mesmo ano, apresentou-se no “Punk Fest Voador”, no Circo Voador, do qual participaram também bandas de São Paulo, como Cólera, Inocentes e Ratos de Porão. Nesse período, gravou uma fita “demo” com algumas músicas, enviando-a para a extinta Rádio Fluminense FM, que colocou em sua programação as músicas “Ódio às tvs” e “Subúrbio”. Participou também, em Belo Horizonte (MG), do “Festival Não Há Armas” e, em Juiz de Fora (MG), do festival punk da cidade, realizado no estádio de futebol municipal. No ano seguinte, o grupo se dissolveria por divergências internas. Em 1987, Tatu tentou ressuscitar a banda com outros componentes, sem, porém, obter êxito. Em 2005, Tatu foi assassinado ao tentar apartar uma briga de facas entre dois punks. Apesar de não ter deixado nenhum registro fonográfico, o Coquetel Molotov é considerado um dos conjuntos mais importantes da cena punk brasileira.

Esta última frase já não é verdade: a gravadora paulistana Nada Nada Discos acabou de lançar um LP do Coquetel Molotov intitulado “Rio 83”. Num trabalho primoroso de remasterização, o álbum reúne quatro faixas de uma demo enviada à Fluminense FM, duas músicas gravadas ao vivo em São Paulo no show “Presente à Nicaragua” e mais treze faixas, incluindo gravações de estúdio e ao vivo, trazendo a sonoridade da formação original, com masterização de Daniel Husayn e artes de Flávio Bá. O material foi resgatado e lançado em vinil transparente importado (capa dupla), marcando 40 anos das gravações originais e está disponível no site da Nada Nada Discos.

Tom Leão é uma das figuras mais importantes do underground carioca daquela época. Ele assinou por 22 anos a coluna de cultura alternativa Rio Fanzine, em “O Globo” (1988-2010), atuou como crítico de música e cinema do jornal por mais de 20 anos e colunista cultural do canal GloboNews. Ninguém melhor do que ele para escrever este texto que vem no interior do vinil “Rio 83”:

40 ANOS DEPOIS, O PRIMEIRO LP!

O punk brasileiro existiu. E existe. O carioca, também. Embora em livros sobre o assunto, ele – o carioca, raramente seja mencionado com destaque.

Falam apenas da cena paulistana (que, realmente, foi a maior e mais forte do país), mas existiram meia dúzia de bandas de alguma expressão nos subúrbios do Rio (e não só). A principal delas, que iniciou a ‘cena’ e que, curiosamente, não conseguiu lançar nenhum disco (a não ser as fitas demo nas rodas punks) foi a Coquetel Molotov.

Primeira de sua geração a ter uma música com alta rotação na lendária rádio Fluminense FM (‘Odio às TVs’ tocava com certa regularidade na programação). A se apresentar com destaque num festival de médio porte (a primeira edição do Festival de Rock de Juiz de Fora, ao lado de nomes como Lobão e Rogério Skylab, em 1983), a ser destaque na primeira noite punk do Circo Voador, a ter um documentário dedicado a ela (‘Punk Molotov’, de João Carlos Rodrigues, 1983) e a inspirar outras ao seu redor, a Coquetel Molotov, que implodiu em 1984 (Tatu ainda tentaria, com outros integrantes, manter a banda depois), só existe, basicamente, na memória de quem a viu e ouviu.

Felizmente, esse lapso na timeline do rock brasileiro dos anos 80, será sanado agora, com o lançamento de um LP da banda, pela Nada Nada Discos, que vem fazendo um trabalho de amor em relançar em edições primorosas em vinil ou resgatar essa parte da história, que não vemos em livros e documentários que celebram a geração anos 80. O material que está no disco, vem de fitas demo e de áudios extraídos de fontes diversas, num trabalho insano para encontrá-las. É um material raríssimo, que traz algumas músicas em versões diferentes ao vivo.

Como integrante do, digamos, ‘Contingente da Lapa’, onde os punks de toda a parte da cidade se encontravam, acompanhei a primeira fase da carreira da Coquetel bem de perto, desde seu nascedouro. Seja como ocara que divulgava os shows em fanzines (e até participou da confecção de algumas letras, ao lado de Tatu), seja como amigo pessoal do baixista Olmar Junior e do skatista/baterista Lucio Flávio. Era uma gangue só.

Aliás, o skate teve grande importância nisso tudo. Já que a galera se reunia nos fins de semana para andar na pista de Big Field (como chamávamos a pista de Campo Grande, na Zona Oeste carioca) e todos na banda eram skatistas, a exceção do guitarrista César Nine, que chegou pouco depois. O falecido vocalista e letrista Jorge Luís, o ‘Tatu’, era exímio navegador de skate de borda larga. Lucio Flavio, o ‘bacaninha’ campeão de skate estilo livre (competiu até no exterior). Olmar Junior, o ‘marreco’, praticante de street, como eu. Portanto, foi a pista e o skate que deram liga no encontro dos três. A banda foi, oficialmente, a primeira de skate-punk do país.

Depois, os encontros passaram a acontecer na galeria da entrada do imenso cinema Imperator, no Méier (hoje, um centro cultural) e, por fim, na Lapa, onde punks, de toda a parte, se encontravam.

Foi a partir da criação do Coquetel Molotov, genuinamente a primeira banda punk carioca (houve uma, que emanava o ritmo, Os Vândalos, mas não era realmente do ‘movimento’), que as outras foram se formando ao redor, justamente pelas idas aos shows dominicais no Dancy Méier. Muitas se formaram, principalmente, para tocar no Dancy (grafado errado assim mesmo) ou abrir pro Coquetel. E pelos encontros na Lapa. A partir daí, a cada semana, surgia uma banda nova: Descarga Suburbana, Eutanásia, Primeiras Damas, Espermogramix..•

O Coquetel sempre foi uma banda errante. Não se encaixava no novo rock carioca que surgia na cidade (não frequentavam as panelinhas, sofriam preconceito), não tinham respeito o bastante das bandas paulistanas (só tocaram em SP uma vez), fora a demo para rádio, não havia grana alguma para mais nada, raramente ganhavam cachês e ninguém estava realmente nem aí para uma carreira. Embora Tatu fosse aplicado (lia Bakunim, se dedicava às letras) e a banda, eventualmente, até ensaiasse.

O clima niilista, de autodestruição, pairava o tempo todo.

Mas, agora, finalmente, essa história será contada, neste documento em vinil de extrema importância. O que você tem em mãos, é um verdadeiro tesouro do punk carioca. Que, sim, realmente existiu. E foi muito real. E legítimo.

TOM LEÃO

Leia outras colunas Frente Fria aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.