Dizem os antigos que os gatos não caminham: deslizam entre os tempos.
Não pertencem inteiramente às casas, às cidades ou aos donos.
Pertencem aos mistérios.
O gato de Lili, por exemplo, jamais foi apenas um gato.
Sua história atravessou séculos como um fio invisível, uma espécie de DNA bordado pelo destino, ligando civilizações, impérios, guerras, bibliotecas, revoluções e estrelas. Mudavam os nomes dos homens, as roupas, as moedas, os idiomas e as bandeiras. Permaneciam os olhos felinos — duas luas amarelas observando a humanidade cometer suas eternas trapalhadas.
Sua primeira vida começou em Siracusa, quando o mar ainda cheirava a oliveiras e embarcações gregas. Pequeno e magro, o gato dormia entre pergaminhos e instrumentos geométricos de Arquimedes. Conta-se que certa vez, enquanto o sábio corria nu pelas ruas gritando “Eureka!”, o felino permaneceu tranquilamente deitado sobre os cálculos, bocejando diante daquela agitação científica toda. Gatos sempre souberam que os humanos demoram demais para descobrir aquilo que já estava evidente.
Morreu velho, sob o perfume salgado do Mediterrâneo.
Mas os gatos possuem acordos secretos com a eternidade.
Em sua segunda vida, despertou no antigo Egito, dourado como as areias do Nilo. Viveu entre colunas monumentais, sacerdotes silenciosos e servas adornadas de alabastro. Circulava pelos aposentos de Cleópatra e observava, do alto das almofadas reais, os encontros tempestuosos com Marco Antônio. Enquanto os amantes discutiam impérios, batalhas e paixões devastadoras, o gato roubava tâmaras da mesa imperial e cochilava sem qualquer preocupação geopolítica. Talvez tenha sido o único ser verdadeiramente sereno naquele romance que incendiou continentes.
Depois vieram séculos de sinos, neblinas e velas derretidas.
Na Alemanha de Martinho Lutero, o gato reapareceu cinzento e robusto. Dormia perto da lareira enquanto Lutero escrevia sermões, traduzia textos sagrados e enfrentava tempestades religiosas. O felino assistiu às discussões teológicas com a mesma expressão com que um gato encara chuva pela janela: certa impaciência filosófica. Em noites geladas, caminhava sobre manuscritos recém-escritos, deixando pegadas de tinta que talvez tenham sido interpretadas por algum monge distraído como sinais divinos.
A quarta vida trouxe mares revoltos.
O gato embarcou nas naus de Fernão de Magalhães. Tornou-se caçador oficial de ratos durante as grandes navegações. Conheceu tempestades monstruosas, portos desconhecidos e homens que acreditavam costurar o planeta com rotas marítimas. O felino, porém, sabia que o mundo sempre fora redondo; gatos enxergam curvaturas invisíveis. Nas noites de calmaria, caminhava pelo convés observando estrelas austrais enquanto marinheiros supersticiosos juravam que aquele animal possuía pacto com Netuno.
Séculos depois, renasceu nas guerras libertárias da América Hispânica. Em meio aos mapas e cartas militares de Simón Bolívar, o gato dormia indiferente aos canhões. Os soldados o consideravam mascote de sorte. Bolívar, cansado e febril, por vezes interrompia estratégias militares apenas para acariciar o felino silencioso que se acomodava sobre documentos revolucionários. Entre uma batalha e outra, talvez aquele gato tenha aprendido que a liberdade humana é sempre uma construção inacabada.
Na sexta vida, veio ao Brasil imperial.
Instalou-se discretamente nos aposentos de Princesa Isabel. Branco como algodão antigo, observou a movimentação nervosa da corte, os cochichos políticos e o peso da História entrando pelas janelas do palácio. Na tarde em que a princesa assinou a Lei Áurea, o gato dormia exatamente sobre uma pilha de documentos oficiais, como se guardasse, com seu corpo sereno, a esperança de um país menos cruel.
Então chegou o século XXI.
O velho espírito felino ressurgiu em Curitiba, elegante e malicioso, pertencendo à professora Lili, célebre estudiosa de literatura e línguas estrangeiras. A casa tinha livros em francês, espanhol, latim e italiano espalhados pelas estantes. O gato passeava entre dicionários, corrigia provas com o rabo e dormia sobre poemas de Neruda como quem revisava pessoalmente a qualidade da metáfora.
Lili dizia que ele compreendia idiomas.
Talvez compreendesse mesmo.
Em noites frias curitibanas, enquanto a neblina abraçava as araucárias, o gato permanecia junto à janela observando o céu. Havia em seus olhos uma saudade impossível de explicar — como se lembrasse dos desertos egípcios, das velas de Magalhães, das guerras de Bolívar e dos cálculos de Arquimedes ao mesmo tempo.
Até que, certa madrugada, simplesmente desapareceu.
Nenhum ruído.
Nenhuma despedida.
Somente um pelo dourado sobre um livro aberto de astronomia.
Hoje, dizem os sonhadores, o gato vive sua oitava existência ao lado de Carl Sagan, viajando por nebulosas e oceanos cósmicos. Caminha silenciosamente pelos corredores luminosos de uma nave interestelar, observando galáxias como quem atravessa jardins antigos.
E talvez seja verdade.
Porque certos gatos jamais morrem.
Apenas trocam de universo.
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