ANO IV

23/06/2026

HojePR

Elis: a intérprete da alma

02/06/2026
elis

Zapeando pelo YouTube, acabei caindo nas redes da memória, atraída pelo título de uma música da qual não me lembrava mais, que, no entanto, pressenti ter algo que me fez sair da rota que trilhava para me perder na voz da admirável intérprete. Sim, intérprete, porque ela, Elis, era a Elis Regina, como se o “rainha”, que levava no nome, fosse previsão ou destino do qual não fugiria vindo a se tornar, na vida adulta, a cantora, rainha da MPB, a música popular brasileira onde, até hoje, reina incontestável.

Capa da Revista Manchete nº818, casamento de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli (1967) -Livraria Fígaro Leilões – ([email protected]).

“Tatuagem”. Era o título da música que eu ouvia, de autoria de Chico Buarque de Holanda, parte da peça dele e de Rui Guerra, intitulada “Calabar: o elogio da traição”, de 1973. Ali estava, divinamente, acompanhada ao piano por Cesar Camargo Mariano, por quem recentemente se apaixonara e que viria a ser seu segundo marido, diretor musical e pai de dois de seus filhos. Fiquei hipnotizada por tudo aquilo! A voz, a expressão do olhar, o sorriso malicioso, a letra e o piano. Tudo me prendeu a atenção. A entrega da cantora desnudava o sentimento que transbordava, a cada palavra do compositor, que, plenas de significado e sensualidade, descreviam, em pura poesia e impregnadas de paixão e erotismo, bordavam imagens num corpo rabiscado por marcas indeléveis e eternas, surgidas num momento, num estado alterado, de grande amor ou de loucura.

Eram aqueles, os anos setenta. Elis tinha sido casada com Ronaldo Bôscoli – em uma bela cerimônia, vestida elegantemente por Dener Pamplona de Abreu (1939-1978), que à época, dividia com Clodovil Hernandes (1937-2009) o palco dos grandes estilistas da moda brasileira –uma união da qual nasceu seu primeiro filho. Vivia-se um Brasil onde a “Revolução Militar de 64”, que se prolongaria até 1985 e que convulsionava o país e especialmente a cultura e o meio artístico brasileiro. Foi nesse período que a peça Calabar foi censurada, só tendo sido apresentada, na íntegra, no início da década de 80. Teve, no entanto a trilha sonora liberada e, sob a direção musical de Mariano, Elis gravou “Tatuagem”, dentre seus outros grandes sucessos: “Elis” (1972), “Elis e Tom” (1974) e “Falso Brilhante” (1975).

Elis Regina – detalhe de foto original com Fagner, Ronaldo Bôscoli e Luiz Carlos Mieli – 1972-Arquivo Nacional – Domínio Público.

Resolvi, seguindo pela Internet, continuar ouvindo a cantora. Entre uma obra e outra ouvi Elis passar da cumplicidade do amor ao desespero da perda em sua outra inesquecível interpretação de uma obra que fazia parte do show “Trem azul”. A melodia me transportou aos tempos em que, aos sábados pela manhã, depois de abrir a casa, eu ouvia em alto volume, grandes interpretes da música popular que me falavam à alma naqueles tempos. À Tatuagem, seguiu-se “Atrás da Porta” (1972), com música do arranjador, compositor e pianista carioca Francis Hime e letra de Chico Buarque. Conta-se que, tendo a letra ficada incompleta por algum tempo, ao ouvi-la pela primeira vez, Elis se encantou e, assim, resolveram, ela e o compositor, gravá-la ainda que incompleta. Ao mostrá-la ao Chico, ele se emocionou ao ouvi-la e, ali mesmo, compôs a bela segunda parte da letra, completando a música. Numa memorável interpretação, mal começa a canção, Elis abaixa a cabeça, tampa o rosto com a mão, escondendo do público a incontrolável emoção. Com técnica e sustentada por sua melodiosa voz, segue até o final, arrastando a plateia consigo, pelos caminhos do desespero – tão bem descritos nas palavras de Chico – causado pela irremediável perda do ser amado. Com o rosto encharcado de lágrimas, Elis chega ao final da peça, e após um breve intervalo, respira e, ao som dos músicos, inicia a próxima canção.

Acervo Elis Regina – Casa de Cultura Mario Quintana – Porto Alegre/RS – Foto Ajamand

Sempre me encantou a coragem dos atores, aqueles que se despem de toda a vaidade do seu eu para emprestar suas almas e técnica, a representações magistrais de personagens inesquecíveis produzidos pela arte de seus criadores. Assim vejo Elis Regina, cantora-atriz, ícone da nossa MPB, que partiu muito cedo, mas cumpriu seu destino de intérprete, única, deixando marcas indeléveis pelos caminhos da bela música popular brasileira.

(Ilustração de abertura: Elis e César Camargo Mariano – Foto do site: Canto da MPB- Copyright 2020-2022 Canto da MPB)

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2 comentários em “Elis: a intérprete da alma”

  1. A música elevada a potência quase que transcendental, quando interpretada por Elis Regina “Rainha”. Obrigada 🌸 Elizabeth 🌸

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