Em um tranquilo quintal de Santa Felicidade, à sombra de uma velha araucária, viviam dois cães chamados Tango e Banzé. Como bons vira-latas paranaenses, estavam acostumados à rotina de ração, cochilos e vigilância do portão. Tudo corria normalmente até descobrirem uma preciosa fonte complementar de alimento: os pinhões que caíam da árvore.
No início, limitavam-se a comer os pinhões para variar o cardápio. Mas Banzé, que possuía espírito empreendedor, começou a enxergar possibilidades maiores.
— Tango, estamos diante de uma riqueza natural inexplorada!
— Eu estava apenas almoçando — respondeu o amigo.
A ideia, porém, ganhou força. Utilizando métodos industriais que certamente não receberiam aprovação de qualquer órgão fiscalizador, os dois passaram a moer pinhões e produzir uma refinada farinha. Depois de sucessivos aperfeiçoamentos, surgiu um produto ainda mais sofisticado: o famoso Pó de Pinhão de Araucária.
Os primeiros consumidores apareceram na vizinhança. O papagaio Neco tornou-se mais eloquente, galinhas passaram a cacarejar com entusiasmo renovado e até um velho gato abandonou temporariamente sua carreira de dorminhoco profissional.
Percebendo o potencial do negócio, Tango e Banzé iniciaram uma discreta distribuição do produto. O sucesso foi imediato.
Logo o pó começou a circular em festas elegantes, recepções e eventos da alta sociedade. Políticos afirmavam sentir-se mais dispostos para longos discursos. Integrantes do Executivo, Legislativo e Judiciário elogiavam a extraordinária capacidade de concentração proporcionada pelo produto. Artistas garantiam que suas melhores ideias surgiam após uma pequena dose.
Em pouco tempo, o Pó de Pinhão de Araucária transformou-se em verdadeiro fenômeno social.
Enquanto isso, os dois cães prosperavam. Adquiriram coleiras novas, ampliaram a casinha, contrataram esquilos para a logística e organizaram uma eficiente rede de distribuição operada por pombos-correio.
Os lucros cresceram tanto que surgiram rumores de exportação para outros estados e até para o exterior. Economistas tentavam explicar o fenômeno. Especialistas promoviam seminários. Havia quem defendesse a criação de uma Bolsa Internacional do Pinhão.
O sucesso chamou atenção das autoridades.
E exasperou a concorrência vendedora de outro pó.
Uma grande comissão de fiscais, policiais e assessores, peritos e especialistas apareceu no quintal para investigar a origem daquela inesperada fortuna.
Encontraram apenas uma araucária carregada de pinhões e dois cães cochilando ao sol.
— Quem são os responsáveis pelo empreendimento? — perguntou o chefe da equipe.
Tango abriu um olho.
Banzé abriu o outro.
Os dois olharam para a comissão, bocejaram educadamente e voltaram a dormir.
Meses de investigação produziram pilhas de relatórios, pareceres e formulários. Contudo, nenhuma prova concreta foi encontrada. Não havia contratos, registros ou diretoria formal. Apenas pinhões espalhados pelo chão e dois cães aparentemente inocentes.
O caso acabou arquivado. Aqui no Paraná e no Exterior
Desde então, Tango e Banzé seguem sua rotina empresarial sob a sombra da velha araucária. No inverno, quando os pinhões voltam a cair, observam o movimento com a tranquilidade de quem compreende os segredos da prosperidade.
Pó de pinhão continua energizando setores da sociedade. Quem o inala fica energizado durante horas. Dizem que não há contraindicação, nem mesmo provoca espirros ou alergias.
Afinal, enquanto muitos procuram fortuna em bolsas de valores, criptomoedas ou mercados internacionais, eles descobriram algo muito mais simples: no Paraná, uma araucária generosa pode valer mais que uma mina de ouro.
E ainda hoje, nas festas mais sofisticadas de Curitiba, ouve-se alguém perguntar em voz baixa:
— Será que trouxeram aquele famoso pó de pinhão? Há um frisson no ar.
Os convivas procuram ansiosos o fornecedor de pó de pinhão.
Ao que outro responde discretamente:
— Fale baixo… os Barões da Araucária podem estar escutando.
E provavelmente estão.
Deitados sob a árvore.
Administrando, em absoluto sigilo, o mais curioso império empresarial que um quintal paranaense já produziu.
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