ANO IV

08/06/2026

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Para Alá e para cá

08/06/2026
alá

Em nome de Alá, o goleiro da seleção egípcia, Oufa Shobeir, realizou o sujud — a prostração de agradecimento tocando a testa no gramado — ao fim do primeiro tempo do amistoso contra o Brasil, no sábado passado.

A equipe liderada por Mohamed Salah, craque do Liverpool, havia arrancado, sem qualquer dificuldade, a igualdade no placar graças a um erro bizarro de Marquinhos. O Brasil marcou logo no início do jogo, mas sequer teve tempo para comemorar. Quem assistiu pela TV ficou pasmo. Não só com a falha, mas com a conversa flagrada pelas câmeras entre Casemiro, capitão do selecionado brasileiro, e o zagueiro. Um fez que foi e não foi, e ambos acabaram ‘fondo’. Na confusão, detectou-se um risinho irônico de Casemiro e a sensação de saia justa que, provavelmente, se estendeu ao vestiário. Sorte que os dois não voltaram para o segundo tempo.

Com a substituição de metade do time no intervalo, a seleção brasileira precisou de apenas dez minutos para marcar 2 a 1 — gol de Endrick — e assim encerrar o penoso período de preparação para a estreia na Copa.

Em nome de Alá, o primeiro adversário do Brasil no torneio é o Marrocos, país igualmente africano e muçulmano. Com o perdão do trocadilho, Marrocos foi para lá de Marraquexe em 2022, no Qatar. Conseguiu o primeiro lugar em um grupo que tinha Bélgica e Croácia e rumou para a semifinal vencendo a poderosa Espanha nos pênaltis e Portugal no tempo normal. É um feito que o Brasil não consegue desde 2002, quando eliminou a Turquia na semifinal vencendo por 1 a 0. Gol de bico de Ronaldo. Foi no pentacampeonato. Nunca mais.

Descrentes venceremos

Há muito o futebol deixou de ser uma caixinha de surpresas. Os jogos preparatórios dizem muito sobre isso. A Costa do Marfim venceu a França por 2 a 1, a Espanha empatou com o Iraque em 1 a 1, o Haiti goleou a Nova Zelândia por 4 a 0, e não há nenhum esgar de assombro com esses resultados.

Pesquisas recentes mostram que o torcedor já sabe disso. Apesar de gritar “olê, olê, Neymar” nos estádios, o brasileiro não é um crente do futebol. A expectativa é que a seleção repita o desempenho das últimas Copas e chegue, vá lá, às quartas de final. Aqueles que apostam em uma final representam apenas 11%. Bem-aventurados.

É essa sensação de “miserê” do futebol que gostaríamos de ver exercitada na política. A seleção tem prazo de validade, e esse prazo vence no primeiro jogo. Se o Brasil vencer jogando mal, adeus. Se o Brasil perder, adeus. Não há meio-termo. Não há polarização. Todos estarão de um lado só. Se jogar bem — possibilidade remota —, é outra história. Mais fácil acreditar em Saci.

Em nome de Deus, o atacante Endrick fez o sinal da cruz e apontou para os céus depois de marcar o gol da vitória contra o Egito. Ele foi eleito o melhor em campo e pode ter conquistado um lugar no time principal. Mas Deus não tem nada com isso. Alá também não. E é bom que se diga que, ao contrário do que escreve Paulo Coelho, o universo não conspira a nosso favor. Nem contra. Ele é indiferente. A seleção, portanto, que trate de jogar futebol.

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