ANO IV

09/06/2026

HojePR

ENTREVISTA

PL 1424/2026 reacende debate sobre combate ao antissemitismo no Brasil

09/06/2026
antissemitismo

O crescimento dos casos de antissemitismo no Brasil reacendeu o debate sobre a necessidade de políticas públicas específicas para prevenir e combater essa forma de discriminação. Nesse contexto, tramita na Câmara dos Deputados o PL 1424/2026, de autoria da deputada Tabata Amaral, que busca estabelecer parâmetros nacionais para o enfrentamento do antissemitismo com base em referências internacionais amplamente adotadas.

Nesta entrevista, o presidente da Federação Israelita do Paraná, Alexandre Knopfholz, analisa o cenário atual, comenta a proposta legislativa e discute os desafios da promoção da tolerância, do pluralismo e do respeito à diversidade em uma sociedade democrática.

Como a Federação avalia a situação do antissemitismo no Brasil atualmente?

O cenário é preocupante. Dados recentes da Confederação Israelita do Brasil (Conib), à qual à Federação Israelita do Paraná é vinculada, mostram um crescimento expressivo dos episódios de antissemitismo nos últimos anos. O fenômeno não afeta apenas a comunidade judaica, mas representa um desafio para toda a sociedade, porque atinge valores fundamentais como o respeito à diversidade e à convivência democrática.

Os relatórios da Conib apontam aumento significativo de denúncias nos últimos anos. A que vocês atribuem esse crescimento?

Temos uma combinação de fatores. O agravamento das tensões internacionais após os ataques de 7 de outubro de 2023 contribuiu para aumentar a circulação de discursos de ódio. Ao mesmo tempo, as redes sociais ampliam o alcance e a velocidade dessas manifestações. Também é possível que hoje exista maior disposição para denunciar casos que antes passavam despercebidos ou não eram reportados.

O ambiente digital se tornou o principal espaço para manifestações antissemitas? Como combater esse problema?

De fato, a maior parte dos casos monitorados atualmente ocorre no ambiente digital. O enfrentamento desse problema não é simples. Passa por educação, conscientização, responsabilização quando houver ilegalidade e pelo fortalecimento de mecanismos que reduzam a disseminação de conteúdos de ódio sem comprometer as liberdades democráticas.

O que a Federação considera mais importante no projeto de lei apresentado pela deputada Tabata Amaral sobre o combate ao antissemitismo?

O texto do PL 1424/2026 não cria novos crimes; ele oferece instrumentos para que o poder público compreenda melhor o problema e possa enfrentá-lo de modo mais eficaz. O principal mérito do projeto é fornecer uma definição clara e internacionalmente reconhecida de antissemitismo para orientar políticas públicas de prevenção e educação. Essa definição foi formulada pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) e já ganhou a adesão de muitos estados e cidades brasileiras, inclusive Curitiba e o Paraná.

Há algum aspecto do texto que merece aperfeiçoamento ou mais debate?

Todo projeto legislativo pode ser aperfeiçoado durante sua tramitação. O importante é preservar o objetivo central: estabelecer parâmetros claros para a formulação de políticas públicas voltadas ao combate do antissemitismo e à promoção dos direitos humanos.

Poucas pessoas conhecem bem a história da comunidade judaica no Brasil. Isso contribui para preconceitos?

O desconhecimento favorece estereótipos e preconceitos. A comunidade judaica faz parte da história brasileira há séculos e contribuiu para o desenvolvimento cultural, econômico, científico e social do país. Quanto maior o conhecimento, menor o espaço para a intolerância.

Existe uma preocupação de que parte da sociedade associe automaticamente a comunidade judaica ao Estado de Israel. Como a Federação vê essa questão e quais os riscos dessa generalização?

Essa é uma preocupação legítima. Judeus brasileiros são cidadãos brasileiros, com opiniões diversas sobre política, inclusive sobre Israel. Generalizações não fazem sentido e podem levar pessoas a responsabilizar indivíduos por decisões de governos dos quais não participam, o que é injusto e alimenta preconceitos.

Quais são os critérios que vocês utilizam para diferenciar uma crítica política legítima ao governo de Israel de uma manifestação antissemita?

Críticas a governos, políticas públicas ou decisões de Estado fazem parte do debate democrático e são legítimas. O problema surge quando se atribuem características negativas aos judeus como grupo, quando se utiliza linguagem discriminatória ou quando se responsabilizam judeus em geral por ações do Estado de Israel. A diferença está entre criticar políticas e atacar pessoas por sua identidade.

Como evitar que o debate sobre o conflito no Oriente Médio acabe produzindo hostilidade contra judeus que vivem no Brasil?

É fundamental separar governos, conflitos internacionais e comunidades locais. O debate político pode e deve existir, mas precisa ocorrer com responsabilidade e respeito. Nenhum brasileiro deve ser alvo de hostilidade por causa de sua origem, religião ou identidade. É o que diz a Constituição Federal.

Quando vocês observam os números recentes da Conib, qual é a principal mensagem que gostariam que a sociedade brasileira compreendesse sobre o antissemitismo?

A principal mensagem é que o antissemitismo não é um problema do passado. Ele continua existindo e pode crescer se não for enfrentado. Combater o antissemitismo significa defender valores democráticos, proteger minorias e fortalecer uma sociedade baseada no respeito e na dignidade de todas as pessoas. Também preservar o pluralismo que é parte da identidade brasileira.

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