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É bem possível que você já tenha passado pela seguinte situação: está em casa assistindo a uma partida de futebol por uma plataforma de streaming quando, de repente, ouve o grito de gol do vizinho antes mesmo de a jogada chegar à grande área na sua TV. A explicação para essa diferença de tempo é o delay, termo em inglês que significa “atraso” e que ganhou relevância às vésperas da Copa do Mundo em meio às disputa das emissoras e plataformas para convencer o público sobre a melhor forma de acompanhar o torneio.
A verdade é que não existe transmissão esportiva sem delay, mas já existem maneiras de minimizar o atraso nas transmissões. “Quando se fala em transmissão ‘sem delay’, trata-se mais de uma forma de comunicação com o público do que de uma descrição técnica literal. O que a tecnologia busca hoje é reduzir a latência a níveis praticamente imperceptíveis”, explica Luiz Carlos Abrahão, diretor de tecnologia da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).
De acordo com o especialista, o objetivo da tecnologia atual é reduzir a latência a níveis imperceptíveis. A engenharia de streaming evoluiu nos últimos anos com tecnologias de baixa latência, como LL-HLS (Low Latency HTTP Live Streaming) e WebRTC, que reduzem o tamanho dos blocos de vídeo transmitidos e tornam o uso do buffer (área de armazenamento temporário na memória) mais eficiente.
Ainda assim, diminuir o delay ao máximo tem um preço: quanto menor a margem de segurança, maior o risco de travamentos e quedas de qualidade diante de pequenas oscilações da conexão. “Por isso, o buffer continua sendo um elemento essencial, funcionando como uma reserva que ajuda a garantir uma transmissão mais estável e uma melhor experiência para o usuário”, explica Abrahão.
Para chegar no televisor dos torcedores, a imagem atravessa uma série de etapas. A captação de imagens em uma transmissão esportiva tem início no estádio, onde câmeras e microfones registram a ação e o som ambiente, enviando esses dados para um centro de produção para a inclusão de cortes, narração, replays e gráficos. O delay, ou latência, é justamente o intervalo de tempo físico e de processamento computacional entre o que ocorre no campo e o que é exibido na tela, percorrendo as etapas de captura, processamento, transmissão, recepção e exibição
Nas transmissões por TV aberta digital, o atraso é reduzido porque utiliza um modelo de broadcast (um para todos), onde o sinal é codificado rapidamente e irradiado por ondas de rádio que viajam na velocidade da luz, com processamento feito em tempo real por hardware dedicado. Isso resulta em um delay médio de apenas 2 a 4 segundos
Por outro lado, o streaming apresenta uma latência maior devido à necessidade de um sistema individualizado para cada conexão. O sinal precisa ser convertido em múltiplas resoluções (transcodificação) e fragmentado em pequenos blocos de arquivos chamados “chunks”, geralmente de 2 a 6 segundos. Esses pacotes percorrem redes de distribuição (CDNs) até chegarem ao dispositivo do usuário, onde ficam armazenados temporariamente em uma memória de segurança, o buffer.
Veja como é o caminho da imagem até a TV pela antena digital e streaming
O buffer é apontado como um dos maiores responsáveis pelo atraso no streaming, pois acumula alguns segundos de vídeo para proteger a experiência do usuário contra oscilações de rede e travamentos. Enquanto o streaming tradicional pode ter um delay de 20 a 60 segundos, tecnologias modernas de baixa latência tentam reduzir esse tempo para a faixa de 5 a 10 segundos, embora o “zero delay” seja tecnicamente impossível devido ao tempo físico de tráfego e processamento dos sinais.
Globo x CazéTV
Há cerca de três semanas, a Globo iniciou a campanha “Fique Antenado” para dar orientações sobre o funcionamento de antenas digitais, produto que, na maioria das vezes, dispensa a visita de um profissional para a instalação e conta com preços acessíveis, com valores na faixa dos R$ 30 em lojas de produtos eletrônicos. Peças em tom de humor tem sido veiculadas pelo canal tanto em intervalos comerciais da emissora quanto em ações nas redes sociais.
A campanha da Globo tem como pano de fundo a disputa da emissora contra a CazéTV pelos direitos de transmissão de algumas das principais competições esportivas, como é o caso da Copa do Mundo. Recentemente, o influenciador Casimiro Miguel fez uma leve provocação à Globo.
“Rapaz! Já comprou sua antena? Não? Sintoniza na CazéTV! É, tem gente que vai comprar antena não vai achar o jogo, hein?”, debochou o influenciador.
Apesar do tom descontraído, a piada teve como o objetivo de reforçar que apenas a CazéTV (via Youtube, Prime Video e Disney +) exibirá as 104 partidas do torneio. Globo e Sportv vão transmitir 55 partidas, enquanto o SBT, NSports e GE TV, criado pela própria Globo para rivalizar com o canal de Casimiro, transmitem 32 cada. Ou seja, a campanha contra o delay se restringe a uma parte da competição.
Cabe ressaltar que a CazéTV também detém os direitos exclusivos de transmissão da Copa do Mundo nas redes sociais. Em um cenário de conectividade cada vez maior, isso lhe garante uma vantagem significativa na repercussão dos jogos em plataformas como Instagram, Facebook, X e TikTok. Na prática, apenas perfis autorizados pela Livemode, agência de mídia esportiva responsável pelo canal, poderão publicar imagens das partidas nas redes.
Para Rômulo Vieira da Silva, diretor de Estratégia e Planejamento da Agência End To End, a discussão sobre o delay revela mais do que uma diferença técnica, mas evidencia as novas formas de consumir futebol. “Quem acompanha pela TV busca o ritual coletivo, com o gol chegando para todos ao mesmo tempo. Já o streaming oferece interação, comentários e uma comunidade digital em torno da partida. Hoje, essas experiências não são excludentes. O torcedor combina diferentes telas e formatos para acompanhar o jogo.”
Para Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM, a discussão sobre delay também faz parte de uma disputa maior pela atenção do torcedor, que hoje conta com mais opções para acompanhar sua seleção. “Na briga pela menor latência, o rádio continua sendo o campeão absoluto. Mas, na disputa pela audiência, usar todos os argumentos possíveis para ser a opção escolhida pelo torcedor, que pela primeira vez tem tantas alternativas para acompanhar sua seleção favorita, faz parte das regras do jogo.”



