ANO IV

13/06/2026

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Quando pôde, Moro deixou o Paraná no fim da fila

12/06/2026
moro

Existe uma velha máxima na política que deveria vir impressa em letras garrafais na porta de todo gabinete de político: o passado nunca se aposenta.

Ele pode até tirar férias, ficar quietinho por um tempo, esconder-se atrás de pesquisas favoráveis, discursos bem ensaiados, ou não, e campanhas milionárias, essa sim. Mas, em algum momento, ele volta. E normalmente volta sem avisar.

O senador Sérgio Moro está descobrindo isso.

A mais recente lembrança veio pelas mãos do jornalista Lauro Jardim, de O Globo, em sua coluna deste dia dos namorados. Nas linhas do jornalista, informações constrangedoras para Moro. E números, mais constrangedores ainda.

Quando o ex-juiz ocupava uma das cadeiras mais poderosas da República, a de ministro da Justiça, o Paraná não figurou entre os estados mais beneficiados pelos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública.

“Quinto estado mais populoso do país, o Paraná recebeu 4,16% do total distribuído em 2019, percentual inferior ao de outros dez estados, incluindo Mato Grosso do Sul (5,24%), Goiás (4,57%), Rondônia (4,34%), Sergipe (4,26%) e Pernambuco (4,24%)”, entrega o jornalista carioca.

Quem assinou a portaria destinando esses valores, ou deixando o Paraná à mingua? Uma figurinha do Neymar para colar no álbum da Copa para quem respondeu Sergio Moro.

Não estamos falando de um detalhe burocrático perdido numa gaveta empoeirada de Brasília. Estamos falando de uma portaria assinada pelo próprio ministro.

E aí surge aquela pergunta que o eleitor costuma fazer quando encontra um político em campanha: “Mas e quando teve a oportunidade de fazer algo pelo seu Estado, o que você fez?”

Porque promessa é o futuro. E o futuro, como dizia Winston Churchill, é o campo preferido dos políticos justamente porque ninguém pode conferir imediatamente.

Já o passado é diferente. O passado deixa recibos.

O Paraná, quinto estado mais populoso do Brasil, recebeu proporcionalmente menos recursos do que uma série de estados menores. Em valores absolutos, ficou atrás de unidades da federação com população muito inferior. Em repasse por habitante, então, a diferença chama ainda mais atenção.

“Em valores absolutos, o Paraná recebeu R$ 31,8 milhões em 2019, menos do que estados significativamente menores como Rondônia (R$ 33,2 milhões), Roraima (R$ 33 milhões) e Sergipe (R$ 32,6 milhões). A diferença também aparece na comparação com Mato Grosso do Sul, o segundo no ranking, cujos repasses naquele ano totalizaram R$ 40,1 milhões – quase R$ 9 milhões a mais que o Paraná”, escreve Lauro Jardim.

Naturalmente, os adversários agradecem.

Política é uma atividade curiosa. Quando você está no poder, acredita que está escrevendo sua biografia. Quando sai dele, descobre que estava produzindo material de campanha para seus adversários.

Mas, convenhamos, nada disso deveria causar tanta surpresa. Porque quem acompanhava a trajetória política de Moro naquela época talvez tenha percebido um detalhe importante.

Enquanto muitos paranaenses imaginavam que o ex-juiz poderia representar uma força política do Paraná em Brasília, o próprio Moro parecia olhar para outro endereço no mapa.

Sua tentativa mais ambiciosa era chegar à Presidência da República. E, para isso, usou todas as suas forças para ser candidato por São Paulo, não pelo Paraná.

Outro exemplo de que o Paraná não estava nas prioridades da família Moro é que sua esposa, Rosângela, é deputada federal por São Paulo.

Nada de ilegal. Nada de proibido. Mas altamente revelador. Afinal, políticos costumam priorizar aquilo que consideram estratégico para seus projetos.

E a impressão que ficou para muitos observadores é que o Paraná aparecia mais como ponto de origem biográfica do que como prioridade política. Dessa forma, é lícito perguntar: se Moro não cuidou do Paraná quando podia distribuir milhões, por que cuidaria agora?

Aliás, a história brasileira está cheia de personagens assim. O sujeito nasce numa cidade, constrói fama em outra, faz carreira numa terceira e reaparece na primeira pedindo votos como se nunca tivesse saído de casa.

É quase um gênero literário nacional. Machado de Assis talvez chamasse isso de realismo. Nelson Rodrigues provavelmente chamaria de obviedade. Eu prefiro chamar de amnésia eleitoral.

Porque a memória do eleitor brasileiro é um fenômeno fascinante. Ela dura aproximadamente o mesmo que uma bateria de celular esquecida fora da tomada.

No entanto, algumas pessoas lembram. Parte da imprensa lembra. Os adversários certamente lembram. E, modéstia à parte, eu também lembro. Lembro que política não é apenas discurso. É decisão, prioridade e escolha.

É para onde o dinheiro vai quando o político tem a caneta na mão.

Agora que a campanha começa a ganhar forma, a pergunta inevitável volta ao debate. Quando o ex-juiz teve a oportunidade de decidir, qual foi exatamente a prioridade?

O passado não responde tudo. Mas costuma fazer as perguntas mais incômodas.

E, para azar de muitos candidatos, ele tem o péssimo hábito de aparecer justamente quando as pesquisas começam a sorrir.

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