O bicampeonato brasileiro de 1962 entrou para a história pelas atuações de Garrincha. Para o colunista Jacir Venturi, porém, a Copa inesquecível começou bem longe dos estádios, em uma pequena comunidade do interior catarinense. Em meio ao tradicional dia de matar porco, o chiado de um velho rádio transformou uma tarde de trabalho pesado em uma lembrança que o tempo jamais apagou.
Junho de 1962. Dia de matar porco na pequena vila de Pastagem (SC), evento que mobilizava a família inteira e metade da vizinhança. Água fervendo para raspar o couro, vísceras separadas para virar sabão, cortes nobres reservados ao escambo com os vizinhos. Geladeira era luxo de cidade grande!
Os melhores pedaços, já cozidos, iam para latas de banha, nosso “freezer rural”. No fim do dia, ainda sobrava disposição para lançar no tacho escaldante os nacos de carne com pele destinados ao tradicional torresmo. Depois, a carne era moída e embutida nas tripas do próprio animal, dando início ao preparo da linguiça que seguiria para a chaminé de defumação.
Mas, às 14h, em meio àquele ritual quase medieval, acontecia algo novidadeiro em minha vida: Brasil x Chile, semifinal da Copa de 1962. O Chile era o anfitrião daquela Copa. Pelé estava lesionado e eu, aos 12 anos, tentava conciliar a lida com a curiosidade despertada por um rádio Semp tratado como joia de família. Pela precariedade da época, encontrar uma extensão com mais de cem metros para levar energia até o aparelho foi uma tarefa hercúlea. Pedi ao meu pai, que detestava futebol com fervor quase religioso, que o ligasse. Ele resmungou: “Escuta, mas trabalha.”
O locutor se esgoelava. E o jogo parecia ter um único protagonista: Garrincha. Garrincha endiabrado.
Resultado: Brasil 4 x 2 Chile. Dois gols dele, uma assistência para Vavá e uma atuação inesquecível. Eu seguia no serviço, tentando acompanhar o ritmo da lida com o porco já esquartejado, enquanto vibrava por dentro.
No dia seguinte, o jornal santiaguino El Mercurio estampou a manchete que atravessaria o tempo: “De qué planeta es usted, Garrincha?”
O Brasil seria bicampeão mundial, talvez a Copa menos celebrada e menos presente no imaginário popular entre os nossos cinco títulos.
Como bem escreveu o jornalista André Lopes, do HojePR, ao me fazer o convite para escrever sobre “Qual foi sua Copa inesquecível”: “A Copa do Mundo é feita de gols, títulos e grandes personagens, mas também de lembranças que atravessam gerações e marcam a vida de cada torcedor por meio de emoções, histórias familiares, celebrações ou até frustrações.”
Para mim, porém, entre cheiro de banha quente, rádio chiando e o menino ali olhando para o pai que fingia não ouvir nada do rádio, foi a mais marcante de todas.
Há memórias que não dependem de estádios nem de megashows, mas das circunstâncias, do cenário que cerca os acontecimentos, dos detalhes que o tempo preserva – como aqueles vividos por um menino que nunca tinha ouvido uma partida de futebol pelo rádio.
Coração é terra que ninguém pisa.
Eu nasci em Pastagem, então distrito de Rio do Sul (SC), hoje município de Agronômica. Vim para Curitiba aos 17 anos.




1 comentário em “1962: A Copa menos lembrada; não para este menino de Pastagem”
Belo depoimento e infância!