Curitiba vive um paradoxo difícil de compreender.
Enquanto a cidade convive diariamente com um dos maiores problemas de mobilidade e segurança urbana do Brasil, poucos parecem dispostos a enfrentar a verdadeira discussão. Os trens de carga continuam cortando bairros inteiros, fechando cruzamentos, congestionando o trânsito e, pior, colocando vidas em risco.
Não é exagero. Curitiba lidera o número de acidentes ferroviários do país. São décadas de colisões, atropelamentos e mortes. Famílias perderam entes queridos. Trabalhadores se atrasam diariamente. Ambulâncias ficam presas. A cidade literalmente para quando uma composição atravessa seus trilhos. É um problema que já deveria ter sido resolvido há muito tempo. Dados da ANTT mostram que Curitiba acumula o maior histórico de acidentes ferroviários do Brasil, justamente por manter uma extensa ferrovia de cargas atravessando sua área urbana.
Por isso merece reconhecimento a insistência do prefeito Eduardo Pimentel em cobrar do Governo Federal e da ANTT que o contorno ferroviário seja incluído no novo contrato da concessão, que vence em 2027. Se essa oportunidade for perdida, Curitiba poderá conviver com esse atraso por mais três décadas.
A pergunta que fica é simples: onde estão as grandes mobilizações da sociedade? Onde estão as entidades, os movimentos organizados, os manifestos, os protestos e as campanhas exigindo o fim desse risco permanente?
Curiosamente, essa mesma mobilização aparece com enorme intensidade quando o assunto envolve a retirada de árvores.
É evidente que árvores são importantes. Fazem parte da identidade de Curitiba, ajudam no clima, embelezam a cidade e devem ser preservadas sempre que possível. Isso nem sequer está em discussão. O problema surge quando a preservação deixa de ser técnica para se tornar ideológica.
Nos últimos dias, uma jovem de apenas 22 anos foi atingida por um galho que caiu de uma árvore na Praça Osório. Ela sofreu uma grave lesão medular e perdeu os movimentos das pernas. Uma tragédia que comoveu Curitiba inteira. Após o acidente, a Prefeitura iniciou uma nova vistoria das árvores da praça para avaliar suas condições.
Mas onde estavam, naquele momento, os mesmos grupos que costumam fazer manifestações apaixonadas em defesa de cada árvore que precisa ser removida por apresentar risco? Quem se solidarizou com a jovem? Quem cobrou que árvores antigas e potencialmente perigosas sejam avaliadas com responsabilidade técnica? Cadê aquele pessoal que fez uma enorme algazarra na Arthur Bernardes?
O silêncio chamou atenção.
Defender o meio ambiente não pode significar ignorar a segurança das pessoas. Da mesma forma, defender o progresso não significa autorizar destruição indiscriminada. Uma cidade inteligente encontra equilíbrio.
Curitiba precisa preservar seu patrimônio ambiental, mas também precisa remover árvores quando laudos técnicos indicam risco e quando projetos de infraestrutura para melhorar o cotidiano da cidade são implantados. Precisa proteger sua história, mas também precisa retirar de sua área urbana uma ferrovia de cargas que há décadas provoca acidentes, mortes e enormes prejuízos à mobilidade.
A cidade não existe para atender ideologias. Ela existe para servir às pessoas.
É hora de abandonar os radicalismos que transformam qualquer intervenção urbana em batalha política. Muitas vezes, quem mais grita não está preocupado com Curitiba, mas apenas em produzir manchetes, alimentar redes sociais ou construir um discurso conveniente para pequenos projetos eleitorais.
Curitiba merece mais. Merece decisões técnicas, planejamento de longo prazo e coragem para enfrentar problemas históricos. E isso, apesar da gritaria daqueles cujos interesses ficam nas sombras, tem sido feito pelo prefeito Eduardo Pimentel e seus técnicos.
Se a sociedade realmente quer uma cidade mais humana, mais segura e mais moderna, precisa levantar a voz onde ela faz mais diferença: exigir que os trens de carga deixem definitivamente o perímetro urbano. Essa, sim, seria uma causa capaz de unir Curitiba inteira.



