ANO IV

19/06/2026

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Trump, o Agente 86 e o velho truque do Bolsonaro disfarçado de Bolsonaro

19/06/2026
trump

Em Évian-les-Bains, ao final da cúpula do G7, Donald Trump foi perguntado sobre o encontro que tivera com Lula. Disse que havia passado bastante tempo com o presidente brasileiro, comentou que o Brasil é um país complicado, um pouco perigoso politicamente, uma bagunça. Até aí, nada exatamente surpreendente vindo de alguém que transformou a hipérbole em método de comunicação. Mas então veio a frase que acabou chamando mais atenção do que muita decisão tomada na própria cúpula.

Trump disse ter ouvido que prenderam o Bolsonaro Jr. Estava indo muito bem nas pesquisas, acrescentou, e acabou preso por causa de uma declaração feita no Texas.

O problema é que não prenderam ninguém.

E quem fez a declaração no Texas, foi condenado pelo STF e recebeu pena de quatro anos e dois meses em regime semiaberto por coação no curso do processo foi Eduardo Bolsonaro. Já o irmão mais velho, Flávio, que aparece nas pesquisas eleitorais e disputa espaço no tabuleiro presidencial, não foi condenado por nada relacionado a esse episódio.

Trump trocou um pelo outro com a naturalidade de quem troca o nome de um garçom num restaurante em que provavelmente nunca mais voltará.

Confesso que a cena me fez lembrar imediatamente do Agente 86. Quem passou dos quarenta talvez se recorde de Maxwell Smart, o espião mais atrapalhado da televisão. Smart dizia as maiores barbaridades com uma convicção desarmante. Entre elas, uma frase que hoje seria atropelada, e com razão, pelos padrões mínimos de convivência: “O velho truque do chinês disfarçado de japonês”.

A graça da piada não estava nos chineses nem nos japoneses. Estava no próprio Smart. Ele acreditava sinceramente estar diante de uma sacada genial quando, na verdade, não percebia nem o que estava à sua frente. O público ria porque entendia o pacto. Aquilo era ficção. Era um personagem exagerando a própria competência enquanto colecionava trapalhadas.

Dá para tratar o episódio envolvendo Trump como um simples tropeço de memória depois de uma agenda pesada. Talvez tenha sido exatamente isso. Chefes de Estado erram nomes. Acontece.

Mas há uma questão adicional que torna a história mais intrigante.

A presidência dos Estados Unidos não funciona à base de improviso permanente. Presidentes recebem relatórios, conversam com diplomatas, são abastecidos por assessores especializados e têm à disposição algumas das estruturas de inteligência mais sofisticadas do planeta. Se Trump realmente estava tentando comentar a política brasileira, duas hipóteses surgem. Ou ele pouco se importa com os detalhes do país sobre o qual falava, ou está sendo pessimamente atualizado por quem deveria ajudá-lo a distingui-los.

Nenhuma das duas é particularmente tranquilizadora.

Não é que Trump não saiba quem é Eduardo ou quem é Flávio. É que, para o que pretendia dizer naquele momento, isso simplesmente não fazia diferença. Bastava existir um Bolsonaro que coubesse na narrativa já pronta. Alguém popular, perseguido e vítima de uma Justiça que ele decidiu considerar excessiva antes mesmo de demonstrar familiaridade com os detalhes do caso.

Os nomes eram intercambiáveis porque a história já estava escrita antes dos fatos chegarem.

Trump nunca demonstrou muito apreço pelas minúcias. Trabalha melhor com personagens do que com biografias completas, com gestos largos mais do que com detalhes. Faz isso quando insiste em descrever as eleições americanas como fraudadas sem apresentar provas capazes de sustentar a dimensão da acusação. Faz isso ao comentar guerras, adversários, aliados e, aparentemente, também quando resolve opinar sobre o Brasil.

Não é apenas um defeito de memória. É um jeito de fazer política em que a força do enredo costuma valer mais do que a precisão dos fatos.

O curioso é perceber que o Brasil acaba capturado pela mesma lógica. Passamos dias discutindo quem exagerou, quem mentiu, quem ultrapassou limites e quem está com a razão. Debatemos nomes, datas, decisões judiciais, competências constitucionais e tecnicalidades que, para nós, fazem enorme diferença. E fazem mesmo.

Mas, vistos de fora, os contornos ficam menos nítidos.

Eduardo ou Flávio. Filho número dois ou filho número um. Condenado ou candidato. Para parte da plateia internacional, pouco importa. O personagem principal já havia sido escolhido antes que os fatos se acomodassem à narrativa.

Talvez seja esse o aspecto mais desconfortável de toda a história. Não o erro cometido por Trump, que pode ser atribuído ao improviso, ao desinteresse ou à má assessoria. O desconforto está em perceber como um país complexo, contraditório e barulhento como o Brasil pode ser reduzido, com tanta facilidade, a um roteiro simples demais para caber dentro da própria realidade.

No fim das contas, talvez a questão não seja descobrir qual Bolsonaro Trump confundiu.

Talvez a pergunta mais incômoda seja outra: em que momento passamos a aceitar com tanta naturalidade histórias em que os fatos servem apenas para preencher personagens que já haviam sido escolhidos antes mesmo de entrarem em cena?

Maxwell Smart nos fazia rir porque seus enganos terminavam antes dos créditos finais, acompanhados por uma trilha sonora leve e pela certeza de que tudo não passava de uma piada. Donald Trump é muito mais politicamente incorreto do que o velho Agente 86 jamais ousou ser, mas suas frases infelizes, preconceituosas ou simplesmente descoladas da realidade não são pronunciadas num estúdio de televisão. São ditas pelo homem mais poderoso do mundo, diante de microfones reais, com consequências reais.

E talvez seja justamente isso que torne a história menos engraçada do que parece à primeira vista. Porque, quando o velho truque do “Bolsonaro disfarçado de Bolsonaro” passa a funcionar sem que ninguém se incomode muito com os detalhes, o problema deixa de ser a confusão de nomes.

Passa a ser a nossa crescente tolerância a narrativas que já chegam prontas, indiferentes aos fatos, desde que confirmem aquilo que gostaríamos de acreditar.

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