É o que dizia Nelson Rodrigues. Onde o goleiro joga, não nasce grama. Por onde Átila passava, também. E ouso dizer que em Ponta Grossa ocorre o mesmo fenômeno. Os nascidos na cidade sabem muito bem disso. Há rumores de que foi lá que o huno viveu seus últimos dias.
Não sabia, mas existe o Dia Mundial do Goleiro. A data é 26 de abril. Na Sexta-Feira Santa não se come carne; no Dia do Goleiro, convém aos profissionais da área não comerem frango. Pura precaução.
Autor de O Estrangeiro — a história de um homem absurdo — e O Mito de Sísifo — em que afirma que o suicídio é a questão filosófica fundamental —, Albert Camus, argelino radicado na França, foi goleiro. Quando veio ao Brasil, quis assistir a um jogo de futebol. Minto se disser que foi cair em um clássico entre Bangu e Bonsucesso. Mas foi quase. Acho que o placar foi 6 a 2, com péssimas atuações de quem guardou a baliza de um lado e de outro. Depois disso, ele se viu inspirado a transpor para o papel a relação visceral entre o goleiro e uma navalha bem afiada.
Escrevo tudo isso porque temo por Vozinha. Herói no empate sem gols contra a Espanha, o goleiro da seleção de Cabo Verde terá que se provar ainda contra Uruguai e Arábia Saudita. O caro leitor conhece certamente a história de Ben Johnson, o corredor dos 100 metros rasos flagrado no doping. Um dia canadense, outro jamaicano. Pois é.
Hoje Vozinha é herói com 13,5 milhões de seguidores no Instagram. Amanhã pode voltar a ser um ilustre desconhecido com chances de jogar no Bangu ou no Bonsucesso. Ó vida.
A máscara do mascarado
Claro que não é o caso de Luca Zidane. Com pai rico e famoso, o goleiro da Argélia não tem com o que se preocupar, salvo as desastrosas mãos de alface. Foi dessa maneira que ele tomou dois dos três da Argentina no hat-trick de Messi, justo ele, na estreia da Copa. Luca só não se ofende com a fama de mascarado. É assim que ele joga e suspeita-se que é assim, doravante, que ele pretende sair às ruas.
Será uma sina da Argélia? Luca Zidane é goleiro, assim como Albert Camus. No caso deste, havia sempre uma escapatória apropriada. Em sua defesa (outrossim) — veja como este texto é cheio de duplas interpretações —, ele poderia dizer: “Como goleiro, sou um excelente filósofo”. E era mesmo.
Alisson, do Brasil-sil, é dado a humildades. Em entrevista antes da Copa, admitiu que não estava em sua melhor forma. Em entrevista depois da estreia, admitiu que falhou no gol de Marrocos. De longe, ele parece um andrajoso. De perto, idem.
Humilhado e ofendido
Não faz muito, noticiou-se em Curitiba o caso do “mendigato”. Um modelo que caiu no vício e foi acolhido, dizem, por uma filantropa com ‘primeiras intenções’.
Lento e relaxado no visual, Alisson, entretanto, não corre o risco de carregar nas costas o peso de um escrete derrotado. A seleção é ruim, todos sabemos. O padre Quevedo (aka Ancelotti) é um perdido, todos sabemos.
A sina de humilhado e ofendido cabe a Barbosa, o goleiro da Copa de 1950, injustamente culpado (diga-se) pelo gol do uruguaio Ghiggia na derrota por 2 a 1, que adiou o sonho do primeiro título da seleção brasileira. ‘A pena máxima por um crime no Brasil é de 30 anos. Eu pago por aquele há 50’, disse ele na entrada do novo século.
Citei a solidão do goleiro na abertura da coluna, e há um livro a respeito cujo título é O Medo do Goleiro Diante do Pênalti. O autor é o austríaco Peter Handke — no Brasil, a obra é publicada juntamente com Infelicidade Sem Desenlace e pode ser encontrada em sebos. Trata-se de um suspense psicológico que foi adaptado para o cinema por Wim Wenders em 1972. A narrativa acompanha Joseph Bloch, um goleiro de futebol que, após ser suspenso, passa a vagar por Viena e comete um assassinato sem motivo. O futebol funciona apenas como uma metáfora inicial. O medo do goleiro simboliza a paralisia e a angústia da escolha diante do inevitável. Guardadas as devidas proporções, O Estrangeiro, de Camus, vai pelo mesmo caminho.
De frango em frango, o goleiro enche o bicho
Tratei de fracassos, mas não de redenção. René Higuita, da Colômbia, tentou um drible ousado fora da área na Copa de 1990, e isso custou a derrota para Camarões e a eliminação da seleção sul-americana. Cinco anos depois, eis Higuita novamente, criando a imortal ‘defesa escorpião’ em partida contra a Inglaterra no estádio de Wembley. Está no YouTube para quem quiser ver e rever. Mil vezes, porque vale a pena.
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