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Foi na adolescência que a empresária Marina Goulart, de 45 anos, teve as primeiras dores de cabeça. No início, por volta dos 14 anos de idade, os episódios pareciam fazer parte das transformações naturais do corpo, mas logo passaram a se tornar frequentes. As idas ao pronto-socorro e os medicamentos não aliviavam o problema. “Cheguei a tomar uma cartela inteira de analgésico num dia só”, recorda.
O que Marina não sabia era que as crises não eram apenas dores de cabeça: eram sinais de uma doença neurológica que levaria anos para ser identificada.
A confusão entre os diferentes tipos de dor é comum. Segundo Mário Peres, presidente da Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca (Abraces), a dor de cabeça é um sintoma, enquanto a enxaqueca é uma doença. Já a enxaqueca crônica representa uma forma mais grave da condição, caracterizada por crises em mais de 15 dias por mês durante pelo menos três meses.
“As crises costumam provocar dores de intensidade moderada a forte, geralmente em um dos lados da cabeça, com sensação pulsátil. Também são comuns sintomas como sensibilidade à luz (fotofobia) e ao som, náuseas e vômitos”, detalha.

Por que a enxaqueca demora a ser diagnosticada?
A história de Marina reflete a realidade de milhões de brasileiros. Uma pesquisa da farmacêutica Teva Brasil com o apoio da Abraces estima que 27 milhões de pessoas podem conviver com a doença sem diagnóstico. Hoje, o País reúne cerca de 23 milhões de pacientes diagnosticados, o que significa que, para cada brasileiro que sabe ter enxaqueca, há pelo menos mais um que enfrenta os sintomas sem acompanhamento adequado.
O estudo foi dividido em dois módulos. No primeiro, conduzido pela Ipsos-Ipec, foram realizadas 2 mil entrevistas em 132 municípios, conforme cotas de sexo, idade, região, escolaridade, cor autodeclarada e ramos de atividade do Censo 2022 e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) 2023. No segundo, focado em pessoas com o diagnóstico formal de enxaqueca, foram 408 entrevistas.
Segundo o levantamento, o desconhecimento sobre a doença, a automedicação e a dificuldade de acesso a especialistas ajudam a explicar a subnotificação.
Peres acrescenta ainda outro motivo: a enxaqueca pertence ao grupo das chamadas doenças invisíveis. “Não existe um exame de sangue ou imagem que confirme a enxaqueca. O diagnóstico depende do relato do paciente”, afirma.
Marina passou por neurologistas, realizou exames e ouviu diferentes hipóteses sobre a origem das crises, mas a confirmação só veio por volta dos 18 anos. Mesmo assim, ela afirma que não recebeu orientações adequadas. “Recebi o diagnóstico, mas não um tratamento específico”, lamenta.
De acordo com Peres, a falta de tratamento adequado pode levar à progressão da doença. Com o aumento da frequência das crises, a enxaqueca pode se tornar mais incapacitante, comprometendo a qualidade de vida e elevando o risco de problemas como ansiedade, depressão e distúrbios do sono. Por isso, pacientes com crises recorrentes devem ser avaliados para iniciar o tratamento preventivo.
Mulheres são as mais afetadas
Os dados do levantamento reforçam que a enxaqueca afeta principalmente as mulheres. Elas representam 75% dos pacientes diagnosticados e 63% daqueles que apresentam sintomas compatíveis com a doença, mas ainda não receberam confirmação médica.
A maior prevalência em mulheres está associada a uma combinação de fatores hormonais, genéticos e sociais. Segundo Peres, as oscilações do estrogênio exercem influência direta sobre as crises, enquanto a predisposição hereditária contribui para o desenvolvimento da doença. Além disso, a sobrecarga decorrente da dupla jornada de trabalho, com responsabilidades profissionais, domésticas e familiares, pode aumentar a frequência dos episódios.
No caso de Marina, as crises afetavam a vida profissional e pessoal e eram acompanhadas por sintomas como a fotofobia, que em alguns momentos impossibilitava atividades tão simples quanto olhar para a tela do celular.
Acostumada a seguir trabalhando mesmo durante os episódios, ela afirma que os impactos da enxaqueca vão além da dor. “Existe o sofrimento de não conseguir fazer as coisas, mas também o de sentir culpa. Você pensa: ‘Meu Deus, estou com dor de cabeça de novo’.”
Nova opção de tratamento
Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do Nurtec ODT, medicamento à base de rimegepanto indicado tanto para o tratamento das crises quanto para a prevenção da enxaqueca.
O remédio bloqueia a ação da CGRP, proteína relacionada aos mecanismos da doença. Nos estudos clínicos, cerca de 20% dos pacientes que utilizaram o medicamento ficaram livres da dor duas horas após o uso. Nos protocolos de prevenção, o tratamento também demonstrou redução do número mensal de crises.
Para a neurologista Thaís Villa, especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca, o rimegepanto representa um avanço em relação às opções tradicionais. “É uma medicação desenvolvida especificamente para a enxaqueca, com melhor perfil de tolerabilidade do que analgésicos, anti-inflamatórios e triptanos”, afirma.
Apesar de apresentar um perfil de segurança considerado favorável, o rimegepanto não é indicado para todos os pacientes. Segundo Thaís, a principal contraindicação é a hipersensibilidade ao princípio ativo ou a componentes da formulação. Pessoas com insuficiência renal ou hepática também devem passar por avaliação médica antes de iniciar o tratamento.
A médica ressalta ainda que a escolha do tratamento ideal deve ser individualizada. “Fatores como frequência das crises, perfil clínico do paciente, adesão ao tratamento e custo-benefício precisam ser considerados antes da definição terapêutica”, explica.
Foi por volta dos 39 anos que Marina iniciou um tratamento específico para a doença. Além dos medicamentos, ela incorporou mudanças na rotina para tentar controlar as crises, como a prática regular de exercícios físicos e a adoção de horários fixos para dormir e acordar.
Quando finalmente chegou a um especialista em cefaleia, a doença já havia evoluído para a forma crônica. “Se eu tivesse recebido orientação adequada no começo, talvez não tivesse chegado ao ponto em que cheguei”, afirma.
Hoje, a frequência das crises é significativamente menor e Marina tem períodos de até três meses sem episódios incapacitantes. “Melhorou a qualidade de vida, o sono, a tranquilidade para fazer as coisas do dia a dia. Melhorou tudo”, celebra.


