ANO IV

22/06/2026

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O tempo do constrangimento

22/06/2026
constrangimento

Certos comportamentos produzem constrangimento político quase imediatamente. E talvez seja exatamente assim que deva ser. Uma declaração racista, uma atitude discriminatória, um ato de violência ou uma manifestação incompatível com a responsabilidade da vida pública dizem muito sobre quem os pratica. Nesses casos, não existe grande espaço para interpretação. A reprovação social e política faz parte da resposta que uma sociedade saudável precisa oferecer.

Nem tudo, porém, chega até nós com esse mesmo grau de clareza.

Todos os dias somos expostos a denúncias, vazamentos, vídeos editados, prints, operações policiais, trechos de conversas e manchetes que se espalham numa velocidade impressionante. Muitas vezes, antes mesmo de entendermos exatamente o que aconteceu, já sabemos quem deve pedir desculpas, quem precisa deixar o cargo e quem merece ser definitivamente afastado da vida pública.

Basta observar alguns episódios recentes para perceber como esse mecanismo se repete. Uma investigação é anunciada e, em poucas horas, as análises já disputam espaço com as conclusões. Uma fotografia passa a valer mais do que as circunstâncias em que foi tirada. Uma troca de mensagens deixa de ser um elemento de apuração para se transformar na tradução definitiva do caráter de alguém. O julgamento público, em muitos casos, não espera que os fatos se acomodem. Ele acontece enquanto os fatos ainda estão sendo conhecidos.

É evidente que a política não funciona apenas pelos critérios da Justiça. Quem ocupa uma função pública depende de confiança, e a confiança, quando é abalada, exige respostas. Não seria razoável esperar que a sociedade suspendesse qualquer avaliação até o último recurso ou a palavra final dos tribunais.

O problema surge quando deixamos de fazer distinções que deveriam ser elementares. Uma suspeita não é a mesma coisa que uma prova. Uma acusação não corresponde automaticamente a uma condenação. Da mesma forma, existe uma diferença importante entre um comportamento que se revela diante dos olhos de todos e situações cujo significado ainda depende de investigação, contexto e esclarecimento.

Isso não significa defender este ou aquele personagem, muito menos sugerir complacência com desvios de conduta. Existem pessoas que traem a confiança que receberam e precisam responder por isso. Existem atitudes incompatíveis com a vida pública e que merecem reprovação imediata. O desafio está em não permitir que a velocidade com que formamos convicções elimine nossa capacidade de distinguir uma coisa da outra.

Talvez esta seja uma das marcas do nosso tempo: não a ausência de julgamento, mas o julgamento permanente. Somos chamados a opinar sobre tudo, quase sempre antes que os acontecimentos revelem todas as suas camadas. E, embora a indignação tenha seu lugar, e às vezes seja absolutamente necessária, ela não substitui o discernimento.

No fim das contas, o Estado das Coisas talvez seja este: uma democracia madura não precisa escolher entre a complacência e o linchamento. Ela precisa preservar a coragem de reprovar aquilo que é claramente inaceitável, sem abrir mão da prudência diante do que ainda precisa ser compreendido.

Em tempos de certezas instantâneas, distinguir talvez continue sendo uma das formas mais difíceis, e mais importantes, de exercer a cidadania.

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