O colunista Ernani Buchmann relembra sua primeira Copa do Mundo, em 1958, vivida inteiramente pela emoção das transmissões de rádio.
Entre lembranças da infância, reuniões de família, churrascos e a narração inesquecível dos jogos, ele revive a campanha que marcou o primeiro título mundial do Brasil e transformou uma geração de torcedores.
Em suas memórias, Buchmann mostra como aquela conquista foi muito mais do que um triunfo esportivo, foi uma memória afetiva que atravessou décadas e segue viva em cada nova edição do Mundial.
Tenho especial apreço pelas Copas que vencemos, com a preferência recaindo sobre 1958. Foi uma Copa que assisti pelo rádio. Afirmo que assisti porque imaginei cada lance narrado por Edson Leite e Pedro Luiz desde a Suécia, como se estivesse ao lado do campo.
O som subia e descia, como se estivesse navegando nas ondas do mar, não do rádio. E a emoção crescia com a voz de Edson Leite:
– Placar na Suécia: 1 x 0. O Brasil vence!
Foram dias magistrais, com seis partidas inesquecíveis, a partir da vitória de 3 x 0 sobre a Áustria. Naquele domingo de estreia, meu pai nos levou a Campo Alegre, no alto da serra do norte catarinense para passar o domingo com minha avó. Foi frustrante não ouvir o primeiro jogo. Na volta, já noite, o velho parou em uma bodega para comprar cigarros e voltou com a notícia: a Seleção tinha vencido por 3 x 0. Minha mãe rebateu de pronto:
– É sempre assim, começa bem e depois se estrepa!
Ela se referia às estreias nas Copas de 1950 (Brasil 4 x 0 México) e 1954 (Brasil 5 x 0 México).
A segunda partida já assisti pelo rádio da sala de casa. Um 0 x 0 amargo contra a Inglaterra, incólume graças à destreza de seu goleiro McDonald, responsável por não entregar de bandeja sanduíche algum para os atacantes brasileiros.
Veio, então, a transformação. Para o terceiro jogo, contra a União Soviética, o treinador Vicente Feola trocou diversos jogadores: Zito entrou no lugar de Dino Sani; Garrincha no de Joel; Pelé no de Mazzola e fixou Vavá como o centroavante.
O resultado foi um assombro. Garrincha deixou a defesa russoviética enlouquecida, chutou uma bola na trave, fez fila para driblar todo mundo, deu passe para gol e a Seleção derrotou os europeus por 2 x 0, os dois de Vavá.
As quartas de final nos fizeram encarar o País de Gales, do goleiro Kelsey. Outro bombardeio nacional, defendido pelo galês, até Pelé receber na área, chapelar um zagueiro e comemorar no fundo da rede amassado pelo restante do time.
Vencemos a França na semifinal por conta da fratura na perna do zagueiro Jonquet, ao fim do primeiro tempo, depois de um dividida com Vavá. Como não havia substituições, a França jogou com 10 o segundo tempo. Resultado, Brasil 5 x 2.
Veio a final. Saí cedo para ajudar meu tio Cassou a preparar o churrasco na casa dos avós maternos. O jogo começou às 11h, com a Suécia marcando o primeiro gol aos 4 minutos. Vavá empatou aos 8m, em cruzamento de Garrincha. E repetiu a dose ainda no primeiro tempo, com outro gol a partir de bola cruzada pelo Mané das pernas tortas.
A goleada brasileira teve direito a outro gol de Pelé dando lençol em um zagueiro sueco. Mais um 5 x 2, este definitivo. Era a glória, a catarse depois da decepção de 1950, o fim do complexo de vira-lata, como festejou o fantástico Nelson Rodrigues.
Foi a primeira das minhas 18 Copas, incluindo esta de agora, que acompanho praticamente jogo a jogo. Não existe espetáculo igual no planeta.
Ouso dizer: nem fora dele.



