Livre adaptação das obras “Faust, eine Tragödie” e “Faust. Der Tragödie zweiter Teil in fünf Akten”, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), por Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos.
NOITE DE VALBURGA CLÁSSICA
A ÚLTIMA EDIÇÃO DO JORNAL POVÃO ALEMÃO
EDITORIAL
Temos o desprazer de publicar o último número do nosso matutino POVÃO ALEMÃO. Depois de tantos anos cobrindo o lado obscuro da vida humana, deixamos de circular, abatidos pela concorrência desleal da realidade. Nossos exemplares, que antes causavam escândalo e comoção, hoje servem de chacota e papel de embrulho para papelotes de crack. Manchetes célebres, como: “Trocou a mulher por uma vaca”, “Matou a rival com 14 machadas. A vizinha tentou evitar mas a assassina estava endemonhada!” “Matou amigo, depois comeu a sua orelha com cachaça!”, viraram histórias da carochinha para nossos trombadinhas. Fomos miseravelmente ultrapassados pela velocidade dos fatos. Nossa revolta é tanta, que talvez não possa ser escrita à tinta. Quem sabe, à sangue, numa carta-bomba, para estarmos mais de acordo com os novos tempos.
É HOJE! A NOITE DE VALBURGA CLÁSSICA!
A tradicional Noite de Valburga terá este ano uma fantástica inovação. Nossas bruxas e duendes nórdicos convidaram para orgia uma delegação de mitos gregos. Pela lista de convidados já dá para se ter uma ideia de que a noite vai ser boa, de tudo vai rolar: esfinges, sereias, ninfas, dáctilos, sátiros, pigmeus, grous de bico, lâmias, dríades, fórcidas, grifos (vide a sessão Populiras), nereidas, tritões, telquinos e dóridas. Deu pra sentir a lesação? Mais detalhes na coluna da Érika Palomino.
TARADO ALEMÃO À SOLTA NA GRÉCIA!
A polícia grega desenvolve diligências para capturar um marginal alemão conhecido como Fausto. Ele teria cruzado a fronteira helênica com o intuito deliberado de raptar e estuprar a pop-star Helena de Troia, conhecida pela sua incomparável beleza. As investigações desenrolam-se em absoluto sigilo, uma vez que o marido da moça, o furibundo Rei Menelau, um touro de bravo, é bem capaz de aprontar outra guerra se souber das intenções do maníaco. Consultando os arquivos do POVÃO ALEMÃO, descobrimos que o elemento já esteve envolvido em três crimes mal explicados que condenaram à morte Margarida, a famosa mulher-monstra. As autoridades policiais apuraram que Fausto está acompanhado de dois estranhos comparsas: um é conhecido pela alcunha de Homúnculo e é tão pequeno que anão o põe no chinelo, o outro é ainda mais esquisito, ninguém sabe seu nome, mas acredita-se que seja o cérebro da gangue.
POPULIRAS BY HAROLDO DE CAMPOS:
UM GRIFO
(resmungando)
Gri não de gris, grisalho, mas de Grifo!
Do gris de giz, do grisalho de velho
Ninguém se agrada. O som é um espelho
da origem da palavra, nela inscrito.
Grave, gralha, grasso, grosso, grés, gris
Concertam-se num étimo ou raiz
Rascante, que nos desconcerta.
O Grifo
Tem um grito e garra no seu nome-título.
MEFISTÓFELES
(perambulando atrás de Fausto pela Grécia)
E aqui estou, me arrastando que nem cobra pelas rochas.
Que saudades sinto da Alemanha e seu cheiro de resina
tão semelhante ao enxofre e ao breu das tochas.
Esta merda de Grécia não fede nem sai de cima.
Papai aqui prometeu ensiná-los a acender o fogo dos infernos.
HOMÚNCULO
Você pode ser muito bom pra suas negas!
No estrangeiro, pensa alemão e fala grego.
MEFISTÓFELES
Ao longe, a cidade natal adquire contornos mais belos.
Mudando de assunto, Homúnculo, quem são as três galegas?
HOMÚNCULO
Ah! As Fórcidas? Agora vou ver até tu, bruto, se encagaçar de medo.
MEFISTÓFELES
Se feiura pagasse imposto, o déficit fiscal grego estava no lucro.
Nem o mais mortal pecado se compara ao horror dessa trindade.
E ainda têm a coragem de dizer que a Estética se criou na Grécia.
FÓRCIDA 1
Me empresta um olho, irmã, para eu ver melhor o visitante maluco.
MEFISTÓFELES
Vinde a mim, queridinhas, dai-me a bondade.
FÓRCIDA 2
Este espírito tem uma aura esperta.
MEFISTÓFELES
Nenhum artista imortalizou essa linda trinca?
FÓRCIDA 3
Vivemos encavernadas no escuro, nem passou pelas cabeças tão boa ideia.
MEFISTÓFELES
Se vocês não chamam ninguém, ninguém lhes chama na chincha.
FÓRCIDA 1
Também não admira, nossa parente mais próxima é a mocreia.
Nascemos na noite e desconhecemos quase que a nós próprias.
MEFISTÓFELES
Não é problema! Empresto-vos minha forma.
Concentrem-se as três em um corpo único de demônio.
FÓRCIDA 2
Quê que cês acham? Cabem em Mefistófeles três fórcidas?
FÓRCIDA 3
Fecha um olho, bota um incisivo para fora
e fica igual a nós pelo método mnemônico.
MEFISTÓFELES
Amém!
FÓRCIDAS
Amém!
MEFISTÓFELES-FÓRCIDA
Eis-me aqui, de Caos o filho predileto!
FÓRCIDAS
Que coincidência, adivinha quem é o avô de nosso neto?
MEFISTÓFELES-FÓRCIDA
Que vexame, vão me tachar de hermafrodita!
FÓRCIDAS
Que joia a nova trindade, temos dois olhos e dois dentes na dentadura postiça!
MEFISTÓFELES-FÓRCIDA
Dos dois olhos de todos tenho que me esconder,
até os piores diabos vou botar pra correr.
(continua no próximo capítulo)
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