Existe um detalhe curioso na política brasileira. Alguns personagens parecem incapazes de falar sobre o próprio futuro sem antes revisitar o passado.
Foi exatamente essa impressão que ficou após a entrevista concedida por Sergio Moro a uma emissora do interior do Paraná. Pré-candidato ao governo do Estado, esperava-se que o ex-juiz aproveitasse o espaço para apresentar ideias, prioridades e projetos para quem pretende governar. Mas o protagonista da entrevista acabou sendo outro.
Ao longo do programa, Moro citou o presidente Lula nada menos que 21 vezes. Vinte e uma.
Não é pouca coisa. Não é uma referência ocasional, nem tampouco uma comparação inevitável. É uma obsessão política.
Ninguém está dizendo que Moro deva deixar de criticar Lula. Num ambiente democrático, críticas fazem parte do jogo. Aliás, seria estranho esperar que dois adversários históricos passassem a trocar elogios.
O problema é outro.
Quando alguém se apresenta como candidato ao governo do Paraná, espera-se que dedique a maior parte do tempo falando… do Paraná.
Quais são suas propostas para infraestrutura? O que pretende fazer pela saúde? Pela segurança? Pela educação? Como pretende atrair investimentos? O que pensa sobre o agronegócio, sobre a indústria, sobre os gargalos logísticos, sobre o litoral, sobre a Região Metropolitana de Curitiba, sobre o interior?
A entrevista oferecia essa oportunidade. Mas ela foi desperdiçada.
Em vez de apresentar um projeto de governo, Moro preferiu transformar praticamente toda a conversa em mais um capítulo de sua interminável disputa com Lula.
Talvez isso explique outra dificuldade.
Em quatro anos de Senado, Moro não conseguiu construir uma agenda legislativa que lhe permita chegar à campanha exibindo um conjunto robusto de realizações. Não há um projeto de grande impacto que tenha marcado seu mandato. Em compensação, as prestações de contas do Senado mostram um parlamentar que percorreu o país com frequência. Viajou bastante. Produziu pouco.
Antes que os beócios das redes sociais resolvam gastar neurônios tentando me enquadrar em algum rótulo, faço questão de registrar: não sou lulista, não sou de esquerda e nem tenho qualquer fascínio pela cor vermelha.
Sou apenas eleitor.
E, como eleitor paranaense, gostaria de conhecer as propostas de quem pretende administrar o meu Estado.
Não estou interessado em assistir a uma campanha para presidente travestida de campanha para governador.
Lula continuará sendo candidato no momento oportuno e responderá por suas próprias ideias.
Moro, por sua vez, precisa responder pelas dele.
Até agora, porém, parece mais preocupado em debater Brasília do que Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa, Foz do Iguaçu ou Paranaguá. Ops, Paranaguá não, melhor deixar pra lá.
É uma escolha. Mas é também uma enorme oportunidade perdida.
Porque, se eu quiser conhecer propostas para melhorar o Brasil, não será na campanha de Moro que eu vou procurar. Até porque, certamente não irei encontrar.
O que espero de um candidato ao governo do Paraná é algo muito mais simples. Que ele fale do Paraná. E, de preferência, que finalmente mostre a que veio.
Leia outras colunas do Agenor aqui.



