Por Gabriela Marcolina Kleina
A maioria das pessoas associa a saúde bucal à estética: dentes brancos, hálito agradável, sorriso bonito. Essa visão reduzida tem um custo que vai muito além da boca. A ciência acumula evidências de que a boca é uma porta de entrada para doenças que comprometem o coração e o cérebro.
A gengiva funciona como uma barreira protetora ao redor dos dentes, impedindo a invasão bacteriana. Quando essa barreira entra em colapso, instala-se um processo inflamatório que destrói progressivamente os tecidos de suporte. O que poucos sabem é que a cavidade oral abriga a segunda maior microbiota do corpo humano, com aproximadamente 500 espécies bacterianas identificadas até o momento. Essas bactérias desempenham papel essencial na regulação da saúde, mas quando entram em dequilíbrio, as consequências ultrapassam a boca.
A disbiose oral, caracterizada pelo desequilíbrio dessa microbiota, está associada não apenas à gengivite e periodontite, mas também a condições sistêmicas graves como doenças cardiovasculares e Alzheimer. O elo central é a bactéria Porphyromonas gingivalis, principal bactéria da periodontite, cuja ligação nessas doenças tem sido amplamente investigado.
No campo cardiovascular, estudos recentes confirmaram que a inflamação crônica associada à doença periodontal contribui para a aterosclerose por dois mecanismos: a disseminação das bactérias periodontais para a circulação sistêmica e a indução de uma resposta inflamatória generalizada. O resultado é um ambiente favorável ao desenvolvimento de infartos e acidentes vasculares cerebrais.
A relação com o Alzheimer é ainda mais perturbadora. No plano patológico, a doença é identificada pela presença de placas amiloides e emaranhados neurofibrilares no cérebro, ambos fortemente associados ao declínio cognitivo. Estudos epidemiológicos, modelos animais e pesquisas moleculares demonstraram que a Porphyromonas gingivalis não apenas provoca resposta inflamatória sistêmica, mas tem acesso ao tecido cerebral. Uma vez no cérebro, a bactéria acelera a progressão do Alzheimer ao intensificar a neuroinflamação, aumentar o depósito de amiloide e facilitar sua própria entrada no tecido cerebral por meio da ativação microglial.
O que esses dados têm em comum é o mecanismo central: inflamação crônica originada na boca com consequências sistêmicas documentadas. A gengiva inflamada não é um problema localizado. É um foco ativo com acesso direto à corrente sanguínea e, como a ciência tem demonstrado, ao próprio cérebro.
Cuidar da saúde bucal não é vaidade. É prevenção de doenças graves. A detecção precoce da periodontite e o tratamento periodontal adequado são condutas com impacto direto na saúde cardiovascular e na proteção do sistema nervoso. Uma consulta com o cirurgião-dentista pode ser, literalmente, uma decisão que protege sua memória.
Gabriela Marcolina Kleina é cirurgiã-dentista



