Quando o Led Zeppelin encerrou suas atividades em 1980 após a morte de John Bonham, poucos imaginavam qual seria o caminho artístico de Robert Plant. Em vez de tentar reconstruir o som da antiga banda, o cantor decidiu iniciar uma carreira solo baseada em novas influências. Lançado em 28 de junho de 1982, Pictures At Eleven marca essa transição de forma elegante e segura. Embora a voz de Plant permaneça imediatamente reconhecível, o álbum evita a grandiosidade épica do Led Zeppelin. Em seu lugar surgem elementos do rock moderno do início dos anos 1980, do blues, da new wave e até do funk-rock. A guitarra refinada de Robbie Blunt, os teclados atmosféricos de Jezz Woodroffe, o baixo sólido de Paul Martinez e a alternância entre as baterias de Phil Collins e Cozy Powell criam uma identidade própria para o álbum. O seu maior mérito é mostrar que Robert Plant poderia construir uma carreira relevante sem depender da sombra de sua antiga banda.

O álbum abre de maneira explosiva com Burning Down One Side, mas sem recorrer ao peso característico do Led Zeppelin. A guitarra apresenta um riff cortante, sustentado por uma bateria firme e extremamente precisa. Phil Collins imprime um groove limpo, privilegiando dinâmica em vez de força bruta. Robbie Blunt, por sua vez, evita longos solos e trabalha frases curtas, cheias de bom gosto, aproximando-se mais da escola de guitarristas como Jeff Beck do que do estilo de Jimmy Page. Plant canta com enorme confiança. Sua voz continua poderosa, mas mais controlada e menos explosiva do que na década anterior.
Em Moonlight In Samosa a mudança de atmosfera é imediata. A canção combina influências mediterrâneas, orientais e folk, sustentadas por violões delicados e guitarras de timbre limpo. A interpretação vocal é uma das mais sensíveis do álbum. Em vez de grandes agudos, Plant explora nuances, utilizando sua voz como elemento narrativo. Robbie Blunt produz pequenas intervenções melódicas, enquanto os teclados permanecem discretos, enriquecendo a harmonia sem sobrecarregá-la.
Pledge Pin mostra o lado mais moderno do álbum. O groove é claramente influenciado pelo pop e pela new wave do início dos anos 1980. O baixo conduz a música com enorme fluidez, enquanto Phil Collins constrói uma bateria cheia de pequenos detalhes rítmicos. A guitarra cria uma textura leve e elegante. O saxofone de Raphael Ravenscroft surge de forma pontual, sem dominar o arranjo. Plant canta de maneira descontraída, demonstrando enorme domínio de dinâmica.
Slow Dancer é a canção mais ambiciosa do álbum. Com quase oito minutos de duração, desenvolve-se lentamente, acumulando tensão de maneira gradual. Cozy Powell assume a bateria e muda completamente o clima do álbum. Seu estilo pesado e monumental contrasta com a delicadeza das faixas anteriores. O baixo acompanha essa mudança, tornando-se mais robusto. Robbie Blunt constrói um dos melhores solos do álbum. Em vez de velocidade, privilegia melodia. Plant realiza aqui uma de suas interpretações mais dramáticas desde o fim do Led Zeppelin, alternando momentos suaves e explosões vocais impressionantes.
Worse Than Detroit surge marcada por um groove contagiante. A influência do rhythm & blues aparece claramente. O baixo assume papel central, enquanto Phil Collins desenvolve uma levada extremamente dançante. A guitarra mistura blues e funk com enorme naturalidade. Robbie Blunt demonstra grande elegância ao utilizar poucas notas muito bem escolhidas. Plant canta de maneira divertida e descontraída, mostrando que sua personalidade musical ia muito além do hard rock.
Fat Lip é a composição mais ousada do álbum. A base rítmica aproxima-se da new wave, enquanto guitarras processadas e elementos eletrônicos criam uma sonoridade bastante moderna para 1982. O riff é pouco convencional. Em vários momentos, a canção parece dialogar com bandas britânicas daquele período sem perder a identidade de Plant. O vocal alterna ironia e agressividade de forma muito eficaz. É uma faixa que demonstra claramente a disposição do cantor em experimentar novas linguagens.
Like I’ve Never Been Gone é outra canção conduzida por Cozy Powell. O andamento é lento e majestoso. A bateria utiliza muito espaço entre os ataques, permitindo que guitarra e voz ocupem o centro emocional da composição. Plant entrega uma interpretação madura, transmitindo nostalgia sem cair na melancolia excessiva. O solo de Robbie Blunt é um dos pontos altos do álbum: elegante, econômico e extremamente expressivo.
O encerramento com Mystery Title reúne praticamente todas as características apresentadas ao longo do álbum. O riff principal recupera certo peso, mas permanece distante do hard rock tradicional. Os teclados criam atmosfera ampla, enquanto a guitarra alterna texturas limpas e momentos mais agressivos. A bateria mantém excelente equilíbrio entre energia e controle. Plant encerra o álbum cantando com enorme segurança, demonstrando que havia encontrado uma nova identidade artística.
Pictures At Eleven talvez seja um dos álbuns solo mais subestimados da década de 1980. Em vez de tentar competir com o legado monumental do Led Zeppelin, Robert Plant escolheu seguir outro caminho: incorporar influências contemporâneas sem abandonar completamente suas raízes no blues e no rock.O resultado é um álbum elegante, sofisticado e surpreendentemente moderno. Uma estreia solo exemplar. Um álbum que honra o passado sem ser prisioneiro dele. Um álbum de rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.
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