Há alguns dias fui surpreendida pela partida do jovem Miguel Hilú Neto. Aos cinquenta e cinco anos, advogado de prestígio, professor, casado, pai de dois filhos e músico amador. Com sua bela presença era membro de bandas que enriquecia com seus vibrantes solos de sax. Miguel, pessoa amável, foi, quando criança, membro da Orquestra Juvenil da Universidade Federal do Paraná, à época, estudava violino. Desse tempo feliz me vem as lembranças do ambiente de música com Miguel ainda menino. Sua morte me pareceu incompatível com essas belas memórias e assim, fiquei a refletir sobre ela.

Na minha idade, esse pensamento já habita meu espírito com mais frequência já que, com a perda de tantos amigos, a morte passa a ser vista como uma real possibilidade, coisa que, quando se é jovem, diante de tantas outras questões mais importantes como as conquistas, o crescimento, o tanto que se gostaria de ter ou ser, ela fica distante, quase inexistente. Já agora, mesmo alinhavando muitos projetos, penso em quando seria a hora de começar a me desfazer de coisas que, por tanto tempo, tem sido para mim, grandes tesouros. Passo a vislumbrar a possibilidade, antes inimaginável, de passar a viver com menos. Menos roupas, menos coisas… Não aquelas que inspiram, como as obras de arte, os livros e a música; essas são fonte inesgotável de vida.
O que seria, então, a morte para mim? Tenho achado que é o desaparecimento, é não estar mais ali, ficar impossibilitado do encontro. Sinto que tem a ver com a perda do tempo, tempo de criar, de realizar de dizer e de desfrutar, pensamento que me remete diretamente à questão da vida, ou seja: morrer é deixar de VIVER. Parece óbvio… mas talvez não o seja.

Lembro-me da recomendação de um professor de Ballet da Alvin Ailey Dance Theater de Nova York, quando, por volta de 1986, fui guia de um grupo de meninas da escola ”Petit Ballet”, daqui de Curitiba, em viagem para participar de um curso de férias. Ao ver que os bailarinos estavam só “marcando” e não se entregando à dança, ele, um coreógrafo e ex-bailarino da companhia, parou a aula e contou uma história pessoal: “Minha mãe, no leito de morte, me confidenciou que só tinha um arrependimento naquele momento de despedida. Impressionado e muito abalado diante das circunstâncias, pedi a ela que me contasse, que compartilhasse comigo esse arrependimento, ao que ela respondeu com muita clareza: “Só me arrependo de não ter vivido”. Ao ouvir esse breve relato, fiquei chocada! Nunca mais me esqueci daquele momento, assim como de tantos outros que pude viver nessa fantástica e rara oportunidade na Alvin Ailey. Eu não fazia aulas, já que sou daquelas que tem dois pés esquerdos, mas ficava sentada no chão no canto das salas onde, diariamente, indescritíveis experiências de música, dança e vivência de cultura negra se desenrolavam com esplendor. Foi então, que continuando sua fala, ele, o bailarino e professor, reforçou para seu jovens e inexperientes ouvintes: “Este é o seu momento! Viva agora! Seu palco, seu solo e o sonhado espetáculo podem nunca se realizar. Agora é o seu palco, o seu momento, vivam! Dancem!”

Nesses tempos de finalização da construção da “Sagrada Família”, de Gaudi, que de tão alta parece buscar as estrelas, me espanta, mesmo sendo artista e pessoa que convive com a arte e a criação, a ousadia do arquiteto espanhol. Seria uma alucinação? Seria fé? Como poderia ele supor que algo de tal envergadura pudesse, um dia, chegar a acontecer, ser finalizada. Talvez por viver num continente onde tantos castelos e catedrais foram erguidos através dos tempos, ele estivesse ciente de que sua finitude, em relação ao seu projeto quase infinito, não seria relevante. Ele não viveu para vê-la construída, assim como aconteceu com tantos outros arquitetos, mas desenhou em detalhes e projetou com certeza, com a certeza de que era necessário, que importava, que era a sua vida, sua razão de ser e que, sobretudo, era possível. De onde concluo que viver é ousar, é ter razões de ser.
Vejo que não é mera questão de deixar uma marca de nossa passagem aqui por esse nosso pequeno planeta (como gosto de chamá-lo), é mais do que isso. Os grandes sonhadores e idealizadores de loucuras que, realizadas, enriquecem a vida de tantos de nós, pobres mortais, demonstraram que é algo muito mais íntimo, muito mais próprio e particular a cada ser humano, é realizar um destino, seja ele qual for, seja ele do tamanho que for.
Como nos diz Saint-Exupéry, em “O Pequeno Príncipe” quando o principezinho se despede do piloto antes da picada da cobra: “…Eu parecerei morto e não será verdade… é longe demais. Eu não posso carregar esse corpo. É muito pesado. … Mas será como uma velha casaca abandonada. Uma casca de árvore não é triste… (e se referindo às estrelas) tu terás quinhentos milhões de guizos…”. É preciso cativar e se deixar cativar como dizia a sábia raposa, senão nossa vida será sem sentido, dizia ela: ”Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam.

Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também… mas se tu me cativas minha vida será cheia de sol.” Mais tarde, ao explicar para o principezinho as vantagens de se cativar, prometeu contar-lhe um segredo depois que ele tivesse ido rever a sua rosa e compreender que, a sua, era única no mundo. Disse a raposa: “Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez a tua rosa tão importante… Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas…” e, assim, o piloto francês nos ensina, com sua arte e sua própria vida, que viver é sobre as razões de ser de cada um de nós.
Estamos aqui neste planeta para cativar e sermos cativados. Amar e sermos amados, seja nas formas mais diversas que amar e cativar possam significar. E se assim o fizermos, ao partir, teremos deixado, para aqueles que sentirão nossa ausência, “milhões de guizos que riem”. Sejamos nós como Miguel, Gaudi, Alvin Ailey e seus professores/bailarinos ou Saint- Exupéry: que a nossa partida seja como um arco-íris até as estrelas que continuarão brilhando, por muito tempo depois da nossa morte.
(Ilustração de abertura: “Noite estrelada sobre silhueta de árvores”- Foto de Eren Arici – Pexels.)
(De acordo com a colunista, as imagens estão com a especificação de Domínio Publico e livre para uso)
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