ANO IV

07/07/2026

HojePR

mauro mueller

Aeroporto

07/07/2026
aeroporto

Meu segundo lar, meu local de trabalho, para onde eu venho seis dias por semana, desde os meus dezenove anos, com trinta dias de férias por ano. Estive assistindo chegadas e saídas de gente chorando, sorrindo, despedidas emocionadas de quem não queria ir e gente chorando ao abraçar.

Lembro de um casal apaixonado, se abraçando e se beijando. Garota linda e muito bem vestida, roupa de marca e só os óculos amparados na cabeça pagariam o meu salário com o abono e férias. O homem de terno e gravata, mala de viagem com rodinhas. Nem era hábito ver malas com rodinhas por aqui ainda.

Mal o Boing 737 levantou voo, ela se virou e falou ao celular:

– Chegou?

Pensei: “Nossa, o homem somente levantou voo, claro que não chegou”.

Um carro parado em local proibido, porta aberta, outro homem ganha um beijo demorado na boca.

Mulherzinha sem vergonha esta.

Disto eu via muito. Embarques e desembarques dos triângulos amorosos. Homens aos milhares, com as caras mais lavadas, até piscavam para mim com aquele olhar superior, me tratando como cúmplice das malandragens com suas amantes. Faço de conta que nunca vi. Os replays eram constantes.

Por vezes eu sabia toda a história e um deles me justificou um dia:

– Sabe, Seu Vieira, ela não me entende, então eu preciso de uma válvula de escape.

Um dia levei uma garota em sua cadeira de rodas até o Portão dezessete. Ela tinha uns quinze anos de idade. Um ano se passou e eu a vi desembarcando, andando com certa dificuldade, para abraçar quem a esperava. O choro foi geral de quem viu a cena. Um tratamento no estrangeiro a curara de não sei o que… chorei emocionado.

Ela veio me consolar:

– Eu lembro do senhor me levando no embarque. Agora eu posso andar. Isto não é ótimo?

Hoje, a despedida é minha e para sempre. A partir de hoje não verei mais as alegrias, tristezas e as comédias do cotidiano.

Sentirei saudades. Quem sabe eu venha tomar um café e assistir os dramas da vida real. Mas, sem bater ponto, somente como espectador. Deixa eu dar uma última olhada neste lugar. Ao menos desta vida de trabalho estou me despedindo.

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