De tempos em tempos, desde os tempos de Homero, ouvimos algum crítico literário dizer que a Poesia está morta. Eu que trabalho com o negócio, tenho certeza que nunca esteve tão viva. Conheço cada vez mais gente entrando por estes caminhos estranhos e a prova viva do que afirmo são estes três livros recém-lançados e resenhados aqui e agora. Os autores são dois curitibanos e um paulistano, de locais onde, ao meu ver, se faz a melhor Poesia brasileira atual.
Vamos começar por “No Coração da Luz”, uma antologia de Fernando Koproski, abarcando uma seleção de poemas escolhidos entre livros lançados de 1999 (O livro de sonhos) até 2025 (Depois do fim). Fernando Koproski nasceu em Curitiba, em 22 de janeiro de 1973. Publicou, num curto período de tempo, dezenas de livros de poemas por boas editoras, sendo que boa parte deles consta nesta antologia. Escreveu a série de ficção “A complicada beleza”, composta pelos romances: “Narciso para matar” (7Letras, 2016), “Crônica de um amor morto” (7Letras, 2016) e “A teoria do romance na prática” (7Letras, 2016). Como tradutor, selecionou, organizou e traduziu as Antologias Poéticas de Charles Bukowski “Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém” (7Letras, 2005), “Amor é tudo que nós dissemos que não era” (7Letras, 2012) e “Maldito deus arrancando esses poemas de minha cabeça” (7Letras, 2015), bem como as Antologias Poéticas de Leonard Cohen “Atrás das linhas inimigas de meu amor” (7Letras, 2007) e “A mil beijos de profundidade (7Letras, 2016), além de traduzir o livro “Cabeça de adulto” de Jeff Tweedy (Banquinho publicações, 2016). Como se vê, Koproski não é um poeta diletante, mas um verdadeiro profissional da palavra. Ele também bem atua na área da Música e já lançou um CD chamado “Poesia em Desuso”, registro ao vivo do recital que fez com o músico e compositor Alexandre França, apresentando poemas autorais, traduções e sua parceria musical, em 2005. Como letrista, tem composições gravadas por Beijo AA Força, Alexandre França, Estrela Leminski (Casca de Nós) e Carlos Machado.
“No Coração da Luz” é uma coletânea de poemas que mergulha o leitor em uma experiência sensorial e emocional profunda. Koproski, conhecido por seu estilo lírico e introspectivo, constrói neste livro um universo poético onde a luz representa tanto a esperança quanto o desafio de se encontrar em meio à sombra. No início da trajetória do livro há muitos poemas falando de morte e do lado escuro da vida, mas, aos poucos, sua poesia vai se aclarando. A obra explora temas como o amor, a memória, a busca pela identidade, e o confronto com o tempo. A luz, elemento central do livro, é utilizada como metáfora para os sentimentos humanos, ora iluminando caminhos, ora evidenciando dúvidas e fragilidades. Koproski dialoga com a tradição poética ao mesmo tempo que imprime sua assinatura ao tratar o cotidiano com delicadeza e profundidade.
A linguagem do livro é marcada pela musicalidade, com certeza resultado de seu trabalho como letrista, e pela escolha cuidadosa das palavras. O poeta utiliza versos curtos, imagens vívidas e jogos de sombra e luz para criar atmosferas que envolvem o leitor. Há um equilíbrio entre o simples e o sofisticado, tornando a leitura acessível mesmo para quem não está habituado à poesia, mas sem perder a riqueza literária.
Para finalizar este grande livro somente com um Posfácio de outro poeta de primeira grandeza: Roberto Prado. Não consigo resistir a publicá-lo na íntegra:
O não, o sim e o fim
Sim. Você acabou de passar por três décadas de uma trajetória luminosa. Mas a poesia que aqui se encerra não se fecha, apesar de nos colocar, com sua brutal gentileza, diante da lírica do fim do mundo.
Sim. Fernando Koproski, de certa forma, é o cantor das ruínas de um tempo em que a civilização terceiriza gostosamente a sua alma aos infames senhores da guerra, da religião e dos negócios. Mas, não. Ele não faz de sua obra uma simples exposição da nossa miserável perplexidade interior. Não e não. Ele também não é mais um dedo moralista apontando e cutucando as nossas feridas expostas. Não, ele não nos dá rasteiras em nossas muletas mentais voluntárias para depois gargalhar de nossas espetaculares quedas em via pública. Claro que não. Ele não zomba das suas e das nossas dores, se expõe junto, coloca-se ao lado dos cegos no tiroteio e, mesmo sem traço de humilhante condescendência, oferece o remédio e o veneno concentrados em trinta anos de poesia. Sim. Diante dela não nos sentimos anjos caídos, estranhos exilados, mas companheiros, parceiros, cúmplices, dignos, por que não, de algumas doses de súbitas maravilhas. Relembramos que, às vezes, é bom não nos sentirmos largados no emaranhado tóxico do mundão velho sem porteira. Ou perdidos sem cachorro na solitária floresta do mundinho interior. Sim, No Coração da Luz podemos colocar a cabeça para fora dos grotões para sermos do grupo, da equipe, do time, do coletivo, da quadrilha, do bando que cultua, com o perdão da palavra, o amor.
Por essas e muitas outras, depois desse fim de livro, deste fim de mundo, a poesia não nos abandona. Antes, dilata-se e persiste, como um eco ricocheteando na pele do tempo, este estranho interlocutor. Quem sabe não seja por acaso que o título escolhido pelo poeta, além de remeter, com sério humor, a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, a padroeira da sua Curitiba real e mítica, também ressoe as sombras e clarões de Heart of Darkness (O Coração das Trevas), obra que inspirou o terrível Apocalypse Now. Tal como a travessia pelo monstruoso rio do romance de Conrad e do filme de Copolla, a jornada poética aqui proposta também nos conduz a territórios desconhecidos, onde a escuridão e a claridade se entrelaçam, revelando a profundidade do humano em sua forma mais crua e intensa. Sim, nos momentos-limite, livres da ilusão, podemos entender melhor que estamos fragilmente unidos no mesmo barquinho, apertados na mesma canoa ou esperançosamente agarrados nos mesmos destroços, tentando, de todo jeito e maneira, encontrar o rumo para o coração da porção de luz que nos cabe.
A cada página, com amor e bom humor, Fernando Koproski propõe um itinerário visceral, um rastro de sangue e ternura que se estende para além dos domínios da palavra escrita, nos quais, aliás, ele se revela um rigoroso artífice. Descobrimos que não se trata de tinta e papel, mas de vida, que, retirados os penduricalhos, se apresenta em sua transparência crua. Nas hipnóticas polifonias do poeta, a persistência efêmera da dor e da alegria se entrelaçam como galhos de uma árvore retorcida pelo vento, balançada de fúria e ternura, enraizada em algum lugar de nós no qual por vezes sonhamos habitar e em outros desejaríamos fugir. Pois aqui é o fim do mundo, como nos alertou Torquato Neto. Diante desse farol que desafia a névoa, não há como sair incólume do contato com esta intensa energia vital que vem desafinar o coro dos contentes, bagunçar o coreto dos que cultuam a treva e falsificam o coração. Verbo tecido com malícia e precisão, talento e técnica, porém sem deixar de lado jamais o seu destino paralelo de dança, canção, brincadeira, jogo de armar.
No Coração da Luz o poeta nos entrega, mais que palavras, sua própria carne, e nela podemos nos reconhecer. Maestro que desconcerta, ele nos recorda que viver é eterno, mas urgente, que a cada permanência corresponde um adeus e que é deste contato que a memória produz as loucas centelhas do que somos e podemos vir a ser. E talvez seja isso a poesia: um último e assustador e intenso e luminoso ou inventado dia bonito, uma despedida que permanece, um céu suspenso para sempre entre o desespero e a redenção. Ritmos hipnóticos de um amor que sobrevive aos labirintos do corpo, das ruínas, da morte, “com seus olhos de poente lilás”, que resiste, como “rochedos frente à insistência delirante das marés”.
Sim, Fernando Koproski nos convida ao sim. Sem medo da luz. Sem medo da emoção. Sem medo do não. Sem medo do fim.
Roberto Prado
Uma luz no fim do livro
sangue de minha luz
luz de meu sangue
só me deixe, amor,
amor onde eu ande
pode levar todo resto
pele, músculo, osso
eu até te empresto
meu coração de ouro
nasci pra criar belezas
é pra isso que estou aqui
o amor foi uma indelicadeza
mas foi feliz em te fazer feliz
Fernando Koproski
Nossa segunda resenha de hoje é “Irene ou da tensibilidade”, um livro de Poesia escrito pelo paulistano Danilo da Costa-Cobra que está completando 42 anos justamente hoje. Ele se destaca no cenário literário brasileiro pela originalidade e pela intensidade emocional de seus versos. Publicado pela Kafka Editora, de Curitiba, em 2025, se configura como um único poema em fluxo, cujas divisões internas operam como zonas de intensidade, variações de um mesmo movimento de linguagem e experiência.
O título já sugere o tom reflexivo da obra: “tensibilidade” — um neologismo que une tensão e sensibilidade — sinaliza a busca do eu lírico por compreender as dualidades da existência. Irene, personagem central ou possível alter ego do autor, é apresentada como símbolo da vulnerabilidade e da força interior. Ao longo do poema, Danilo da Costa-Cobra explora as tensões entre o ser e o sentir, entre o individual e o coletivo, questionando os limites da percepção e da emoção.
Reproduzo um trecho da resenha escrita por Taciana Oliveira, que ao meu ver, compreende bem o eixo principal da obra: “Irene ou da tensilidade apresenta-se como um projeto poético de alta exigência formal e conceitual. Assinado por Danilo da Costa-Cobra Leite, autor cujo estilo revela forte inclinação à experimentação linguística e ao hibridismo de registros, a obra destaca uma poética que se constrói na fricção. É possível reconhecer, na tessitura do texto, um autor atravessado por referências diversas (da tradição literária, a exemplo de García Lorca, presente na epígrafe, à mitologia e à filosofia), comprometido com uma escrita que desarticula os limites entre pensamento e sensação.
“Trata-se de um longo poema de amor que se elabora em aglutinação de temas e experiências. Ao invés de organizar-se de forma linear, o texto acumula, desfaz e refaz seus próprios movimentos, em um processo que espelha a dinâmica dos próprios relacionamentos que tematiza. O verso, assim, não se reduz a suporte, mas se impõe enquanto encenação: o amor emerge como algo que se compõe e se decompõe continuamente, enviesado por luto, memória, medo e coragem.
“O título oferece uma chave interpretativa decisiva. “Tensilidade” não se limita a um conceito temático, mas atua em princípio estruturante. Trata-se de um estado de estiramento contínuo, da narrativa, do corpo, do afeto, no qual nada se fixa plenamente. Essa condição atravessa o poema em múltiplos níveis: na linguagem, que oscila entre sentido e som, entre construção e desagregação; na relação amorosa, marcada por aproximações e rupturas, fusões e distâncias; e no sujeito poético, que se constitui instável, poroso, permanentemente em trânsito. Nesse sentido, a “tensilidade” pode ser entendida em uma espécie de ética da escrita, que parece contaminar o próprio gesto autoral: escrever, aqui, implica tensionar, esticar a linguagem até seus limites de significação.”
Advirto que este não é um livro para qualquer um. Tem que se ter um bom nível de leitura poética para entender o que o autor propõe com essa experimentação de versos livres e expressão inovadora. Para exemplificar, fecho esta resenha com um dos trechos que mais me tocaram em “Irene ou da tensibilidade”:
surgem nuas sob as roupas as nádegas,
não surgem, imaginadas,
seios, mamilos, vulvas e pênis,
como toalhas, bonecas, chaves que queremos
e quase sempre perdemos quando necessitamos
e não estão onde deveriam,
nada está onde deveria.
O teu cheiro e tua pista estão, contudo, onde devem.
A figura da entrega, a primeira confirmação,
ela é minha ela é minha ela é minha,
depois a segunda, a terceira, a quinquagésima,
a zerésima,
pois vício louco de ouvir e declarar-se
eu sou teu eu sou teu eu sou teu
teiú
ainda que na lhanura tranquila
declarar sem falar,
coisa de gente chucra, sábia e meditativa.
Danilo da Costa-Cobra Leite
A última resenha é do livro “Os bêbados amam demais” de Thadeu Wojciechowski, um dos mais queridos poetas de Curitiba: dia 4 de agosto próximo ele toma posse na Academia Paranaense de Letras, eleito por unanimidade de votos, em evento no Teatro Paiol. Desta vez, ele chega com um longo poema, uma verdadeira odisseia, que explora, de maneira crua e sensível, as nuances da existência humana marcada por excessos, carências e paixões. O autor, conhecido por sua autenticidade poética, utiliza a figura do bêbado como metáfora para falar sobre entrega, amizade, fragilidade e o amor que transborda limites.
Inspirada pela Divina Comédia, a obra se destaca por abordar temas universais como o amor, a solidão, o desejo e a busca por sentido. Wojciechowski emprega uma linguagem direta, coloquial, sem perder o lirismo que caracteriza sua escrita. Os versos são construídos com simplicidade, mas carregam profundidade emocional, proporcionando ao leitor uma experiência de empatia e identificação com as dores e as alegrias dos personagens.
O bêbado, alter ego do poeta, representa não apenas aquele que se embriaga com álcool, mas também quem se embriaga de vida, de sentimentos e de sonhos. Essa abordagem traz uma dimensão humana à obra, mostrando que o excesso, seja de amor ou de sofrimento, deveria ser parte do cotidiano de todos.
A estrutura dos poemas é marcada por versos em dodecassílabos e uma cadência que alterna entre momentos de intimismo e explosões de sentimentos. O uso de metáforas e imagens poéticas cria uma atmosfera intensa e, por vezes, melancólica. Há uma honestidade brutal nos textos, que não se esquivam das contradições e dos dilemas da vida moderna. E ainda, de quebra, ganhamos uma tradução primorosa de José Alberto Trindade para o inglês, também em dodecassílabos, para aumentar a dificuldade da tarefa.
O livro é um retrato poético da intensidade da vida. Thadeu Wojciechowski transforma o cotidiano em poesia, destacando a beleza e a dor de quem ama sem medidas. “Os bêbados amam demais” permanece no leitor, ecoando suas verdades e inquietações muito além de suas páginas. Publicamos, abaixo, um trecho exemplar desta grande obra. No capítulo “Criança, louco ou borracho quando cai, Deus põe a mão embaixo”, Thadeu conta uma história verídica que poderia ser trágica, mas acaba em comédia:
Perco para o Rubão, dos piá da véia, o título
De campeão de queda-de-braço, depois
De vencer oito oponentes. Mas o capítulo,
À parte, não foi a final entre nós dois,
E, sim, a das mulheres. Ana, namorada
Do Sérgio, também um piá da véia,
na final Feminina, num arranque fenomenal
Quebra o braço da infeliz rival derrotada.
A fratura, exposta ali aos nossos olhares
Incrédulos, nos parecia inverossímil,
Uma coisa do outro mundo, algo impossível,
Mas, na real, só cuidados hospitalares,
Sérios e competentes, podiam resolver.
Uma caminhonete sai, queimando os pneus,
Levando-a ao médico e aos cuidados seus.
E nós, como não poderia deixar de ser,
Agora, vamos criando versões do fato,
Algumas com fortes traços de fantasia.
Durante uma boa parte da noite o braço
Quebrado vira piada nova, chisteria
De todo tipo. A Ana cansou de ouvir
Brincadeiras como “quebra uma pra mim?”
Ou “é queda, e não quebra-de-braço”. Pra rir
Ninguém pede licença e assim o que era ruim
Trouxe alegria e felicidade…
Antonio Thadeu Wojciechowski
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