Uma indisposição que parecia apenas uma virose, um cansaço fora do comum, dor de cabeça e dificuldade em realizar os exercícios físicos. Foi assim que começaram os sintomas da psicóloga Letícia Cadori, de 30 anos. Dias depois, a urina escureceu e a pele ficou levemente amarelada. O diagnóstico veio: hepatite A. E mesmo depois da alta médica, a psicóloga continuou em tratamento por um ano, pois mesmo sem sintomas, os exames ainda apontavam lesão no fígado.
A história ilustra um dos principais desafios das hepatites virais: embora algumas formas da doença provoquem sintomas na fase aguda, elas podem ser facilmente confundidas com outras infecções. Em determinados casos, continuar causando lesões hepáticas mesmo quando o paciente já se sente recuperado.
Nas hepatites B e C, o cenário é ainda mais preocupante. A maioria das pessoas permanecem anos sem apresentar qualquer sintoma, descobrindo a doença apenas quando já existem complicações como cirrose ou câncer de fígado.
Julho Amarelo: hepatites virais
O alerta ganha ainda mais importância durante o Julho Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre as hepatites virais. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa), entre 2019 e 2025 foram registrados 7.288 casos de hepatite B e 5.069 casos de hepatite C no Estado, totalizando mais de 12 mil diagnósticos dessas duas formas da doença. No mesmo período, também foram confirmados 846 casos de hepatite A, além de 608 óbitos relacionados às hepatites virais.
Para a médica hepatologista Cláudia Ivantes, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro da Associação Paranaense de Hepatologia, o maior obstáculo ainda é o diagnóstico precoce.
“As hepatites virais nem sempre apresentam sintomas específicos. Muitas pessoas acreditam estar apenas com uma virose ou um mal-estar passageiro e não procuram atendimento. Já nas hepatites B e C, o paciente pode permanecer anos sem qualquer manifestação clínica, enquanto a inflamação continua provocando lesões no fígado. Quando o diagnóstico acontece tardiamente, muitas vezes já encontramos fibrose avançada, cirrose ou até câncer hepático”, alerta a médica.
O que são hepatites virais?
As hepatites virais são inflamações do fígado causadas por diferentes vírus. As formas mais frequentes são as hepatites A, B e C, cada uma com características próprias de transmissão e evolução. A hepatite A é transmitida principalmente por água, alimentos contaminados e contato fecal-oral. Já as hepatites B e C são transmitidas principalmente pelo contato com sangue contaminado, além de relações sexuais desprotegidas, no caso da hepatite B.
Apesar das diferenças, todas têm algo em comum: quanto mais cedo forem identificadas, maiores são as chances de evitar complicações.
A própria Letícia se tornou um exemplo da importância do acompanhamento médico. “Eu já estava me sentindo bem, mas minhas enzimas hepáticas continuavam altas. Foi preciso continuar investigando e tratando o fígado até a total recuperação. Hoje eu entendo que a melhora dos sintomas não significa necessariamente que a doença acabou.”
Como prevenir a hepatite
Além do diagnóstico, a prevenção continua sendo a principal estratégia para reduzir novos casos. A vacina contra a hepatite B está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde para toda a população. Já a vacina contra a hepatite A integra o calendário infantil e também é indicada para grupos específicos, estando disponível na rede privada para os demais públicos.
A presidente da Associação Paranaense de Hepatologia, Daphne Morsoletto, destaca que hábitos simples também fazem a diferença.
“A prevenção envolve vacinação, uso de preservativos, não compartilhamento de objetos que possam ter contato com sangue e cuidados rigorosos com a higiene das mãos e dos alimentos. Durante o surto de hepatite A observado recentemente em Curitiba (em 2024 e 2025), ficou evidente como medidas simples de prevenção podem evitar infecções”, orienta a hepatologista.
Entre os cuidados recomendados estão lavar bem as mãos após usar o banheiro e antes das refeições, consumir água tratada, higienizar corretamente frutas, verduras e legumes (com água sanitária, e não vinagre) e evitar compartilhar objetos perfuro cortantes, como alicates de unha, lâminas de barbear e escovas de dente.
Outro alerta importante é para os grupos mais vulneráveis às hepatites B e C. Pessoas que receberam transfusão de sangue antes da implantação dos testes obrigatórios, usuários ou ex-usuários de drogas, profissionais expostos a material biológico, pessoas com múltiplos parceiros sexuais e quem realizou tatuagens ou procedimentos invasivos sem condições adequadas de biossegurança devem conversar com um médico sobre a necessidade de realizar testes.
Embora os avanços da medicina tenham mudado o cenário dessas doenças – hoje a hepatite C apresenta índices de cura superiores a 95% com os medicamentos oferecidos pelo SUS, enquanto a hepatite B conta com tratamento eficaz para controlar a infecção -, os especialistas lembram que esses benefícios só chegam aos pacientes quando o diagnóstico é feito a tempo.



