Foi preciso um dia de papo furado – que ainda circula por essas plagas, mas só na boca dos magoados de opereta – para que o futebol reconhecesse que a Argentina venceu o Egito com uma virada histórica porque há mesmo um jogador interplanetário em campo. Essa não é a Copa das estrelas. Não é a Copa de Harry Kane, nem a de Cristiano Ronaldo, nem a de Mbappé, nem a de Modric, tampouco a de Salah. Essa é a Copa de Lionel Messi. Como nunca antes na história.
Lembra do João, o adversário genérico do Garrincha? Messi driblou todos eles na partida contra o Egito. Todos os faraós, todas as múmias de filmes B, todas as pirâmides, as Cleópatras, as pragas, as tempestades de areia, os oráculos, Rá, Ísis e Osíris.
Simplificar as coisas, como querem ao dizer que a Argentina está sendo beneficiada no torneio, é uma heresia. Afora a fase classificatória, a seleção argentina viveu a sua cota de melodramas ao vencer Cabo Verde na prorrogação, seguido do Egito, a quem impôs a derrota em meros 13 minutos.
A Argentina é o tango, o contraponto tristonho do samba. A Argentina é Buenos Aires, o contraponto gélido das praias cariocas. A Argentina são as livrarias por metro quadrado, o contraponto letrado do analfabetismo funcional de influencers. É tudo isso e mais um pouco.
A Argentina é o homem-cachorro, é Messi, “aquele que sofre faltas muito fortes e não cai. Não se joga nem reclama. Ele não busca astuciosamente a falta ou o pênalti. Em cada lance, ele mantém os olhos na bola enquanto encontra o equilíbrio. Ele faz esforços desumanos para que o que lhe foi feito não resulte numa falta, nem em cartão amarelo para o adversário. Os olhos de Messi estão sempre focados na bola, mas não no futebol ou no contexto. Ele está sempre em transe, hipnotizado; ele só quer a bola dentro das balizas [mesmo quando perde gols ou perde pênaltis]. Messi parece estrábico, como se estivesse tendo problemas para ler uma legenda; foca a bola e não a perde de vista, mesmo que o apunhalem”. É nesse ponto que é obsessivo. “Messi é um cachorro. Ou um homem-cachorro. Essa é a minha teoria. Messi é o primeiro cachorro a jogar futebol”.
O trecho acima, citado entre aspas, faz parte da crônica “Messi é um cachorro” (Messi es un perro), de Hernán Casciari, um argentino radicado na Espanha e torcedor do Barcelona. Ele viu Messi jogar no Camp Nou, ele viu Messi fazer cinco gols pelo Barça na Champions League, mais dois pelo Barça na Liga e três pela Argentina. Dez gols em três jogos de três competições diferentes. E ainda ouviu de Pepe Guardiola: “O dia que ele quiser vai fazer seis em uma partida”.
Messi é um cachorro que quer o osso de borracha. É o seu preferido. Não importam a ele as regras, a catimba, os cartões amarelos, a vantagem no placar. Sorte que o Brasil não enfrentou Messi na semifinal de 2014. Ele não teria clemência. O que os cachorros fazem é pegar o brinquedo preferido e levá-lo para a casinha desesperadamente. Estejam eles com sono ou sendo atacados por carrapatos. A metáfora é óbvia. O Brasil não escapou de um 7 a 1; o Brasil saiu ileso de um 15 a 0, com dez gols de Messi. Mais cinco assistências.
No “Posse de Bola”, programa esportivo que vai ao ar todas as manhãs no UOL, a jornalista Luiza Oliveira espelhou Messi e Maradona no cenário do futebol argentino. “O Messi é quem o argentino quer ser. O Maradona é quem o argentino é. Messi é essa projeção de sucesso e de profissionalismo. Maradona é o reflexo da sociedade argentina, com superação, com falhas, com talento e com o modo errático”, afirmou.
Para quem prefere cachorros a crianças, eis uma oportunidade de unir o útil ao rentável. Um homem-cachorro como Messi não nasce todo dia. Eu posso dizer que um dia vi o homem-cachorro marcar cinco gols pelo Barça, comandar a maior final da história das Copas entre Argentina e França e, de lambuja, presenciar uma virada histórica em que Messi não foi só o maestro, mas também o violoncelista principal.
Minha torcida nas quartas de final vai para os underdogs Bélgica e Noruega. No domingo, é Messi na cabeça.
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