ANO IV

10/07/2026

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O eleitor não é caixa eletrônico de partido

10/07/2026
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Um país que entrega quase R$ 5 bilhões aos partidos políticos para gastarem em campanhas eleitorais não pode ser sério. Não pode dizer que não tem dinheiro para construir escolas. Não pode alegar que faltam recursos para hospitais, creches, segurança pública, saneamento básico ou moradia. Não pode pedir paciência à população enquanto separa uma montanha de dinheiro para financiar santinhos, cabos eleitorais, marqueteiros, viagens, anúncios e toda a parafernália utilizada para eleger políticos.

Esse dinheiro é público. Sai do bolso do contribuinte.

E vou além. Esse dinheiro não pertence aos partidos, não pertence aos candidatos e jamais deveria ser entregue a eles dessa maneira.

Não é a primeira vez que escrevo sobre o famigerado fundo eleitoral. Volto ao assunto porque ele continua me indignando. Há coisas que, de tão absurdas, não podem ser naturalizadas pelo tempo. Precisam ser repetidas até que alguém tenha vergonha.

O chamado Fundo Especial de Financiamento de Campanha distribuirá aproximadamente R$ 4,9 bilhões entre 30 partidos nas eleições de 2026. O PL ficará com cerca de R$ 881,7 milhões. O PT receberá aproximadamente R$ 615,4 milhões. União Brasil, PSD, PP, MDB e outras legendas também levarão centenas de milhões de reais. Tudo retirado dos cofres públicos para financiar campanhas eleitorais.

Por que somos obrigados a bancar essa palhaçada?

Por que o trabalhador que paga imposto quando recebe o salário, quando compra comida, quando abastece o carro, quando paga a conta de luz e até quando toma um cafezinho precisa também financiar a campanha de quem deseja conquistar um cargo público?

A resposta oficial é que a democracia custa dinheiro.

É verdade. A democracia tem custos. É preciso organizar eleições, manter a Justiça Eleitoral, garantir urnas, fiscalização, segurança, apuração e transparência. Tudo isso é legítimo.

Mas uma coisa é custear o processo eleitoral. Outra, completamente diferente, é entregar quase R$ 5 bilhões aos partidos para que eles façam propaganda de seus candidatos.

Democracia não pode ser confundida com cheque em branco.

Os partidos já recebem dinheiro público durante todos os anos por meio do Fundo Partidário. Em 2025, somente o PL recebeu R$ 192,1 milhões desse fundo. O PT recebeu outros R$ 140,4 milhões. O dinheiro pode bancar despesas permanentes das legendas, como aluguéis, viagens, serviços jurídicos, funcionários e até remunerações de dirigentes.

E é aí que a história fica ainda mais revoltante.

Levantamento baseado nas prestações de contas entregues ao Tribunal Superior Eleitoral mostrou que alguns dos maiores rendimentos pagos por partidos em 2025 estavam nas suas cúpulas. No PL, Valdemar Costa Neto, Michelle Bolsonaro e José Tadeu Candelária receberam, em média, R$ 33,7 mil por mês. O ex-presidente Jair Bolsonaro teve rendimento médio mensal de R$ 32,7 mil. A legislação não estabelece um teto específico para essas remunerações, embora limite a folha de pagamento dos diretórios nacionais.

Antes que algum fanático venha me encher o saco dizendo que estou fazendo discurso de esquerda, deixo claro: o PT participa exatamente do mesmo sistema.

O partido recebeu mais de R$ 140 milhões do Fundo Partidário em 2025 e agora terá direito a mais de R$ 615 milhões do fundo eleitoral. Não existe virtude ideológica nisso. Não há dinheiro público de direita ou dinheiro público de esquerda. Existe dinheiro do contribuinte sendo distribuído para estruturas partidárias que movimentam cifras incompatíveis com a realidade do brasileiro.

Minha crítica não é ao PL porque é de direita. Nem ao PT porque é de esquerda. Minha crítica é a todos os partidos que aceitam essa aberração e, pior, agem como se o dinheiro fosse pouco.

Valdemar Costa Neto, presidente do partido que receberá a maior fatia do fundo eleitoral, já reclamou que os recursos não serão suficientes. Disse que o dinheiro “não dá para fazer tudo” e que o PL precisará arrecadar mais R$ 300 milhões em doações privadas. Estamos falando de uma legenda que receberá mais de R$ 881 milhões de dinheiro público apenas para a campanha de 2026.

Oitocentos e oitenta e um milhões de reais. E ainda é pouco. Ora, e o Brasil com isso?

Se o dinheiro não dá para fazer todas as campanhas que o PL deseja, que faça campanhas mais baratas. Que reduza a quantidade de eventos, viagens, anúncios, carros, equipes, marqueteiros e estruturas milionárias. Que procure doadores entre os seus apoiadores. Que os próprios candidatos coloquem a mão no bolso.

O mesmo vale para o PT, para o União Brasil, para o PSD, para o PP, para o MDB e para qualquer outra legenda.

O dono do armazém da esquina, quando deseja anunciar seu estabelecimento, recebe dinheiro do governo? A cabeleireira que quer divulgar seu salão ganha um fundo publicitário pago pelos contribuintes? O pequeno empresário que precisa conquistar clientes pode mandar a conta de sua propaganda para Brasília?

Claro que não.

Cada um paga a própria publicidade. Cada um assume os riscos de sua atividade. Cada um precisa trabalhar, economizar e encontrar meios de apresentar seu produto ao público.

Mas, quando o produto é um político, a lógica se inverte. Nós pagamos a propaganda, financiamos a estrutura, bancamos os profissionais contratados e ainda somos obrigados a assistir aos candidatos dizendo que estão fazendo um sacrifício pelo país.

Sacrifício fazemos nós.

Campanhas eleitorais não precisam ser espetáculos milionários. O Brasil tem televisão, rádio e espaços gratuitos de propaganda eleitoral. Tem redes sociais, entrevistas, debates, reuniões comunitárias e cobertura jornalística. Um candidato deveria ser escolhido por suas ideias, sua história e sua capacidade, não pelo tamanho da estrutura publicitária que consegue montar com dinheiro público.

Dizem que, sem o fundo eleitoral, somente os ricos poderiam disputar eleições. O argumento merece discussão, mas não justifica qualquer valor. Entre abandonar totalmente o financiamento público e entregar quase R$ 5 bilhões aos partidos existe um enorme espaço para estabelecer limites muito menores, campanhas mais simples, controles mais rigorosos e maior responsabilidade financeira.

O que não pode continuar é essa farra institucionalizada.

Enquanto milhões de brasileiros aguardam meses por uma consulta médica, faltam profissionais em escolas, estradas permanecem esburacadas e famílias vivem sem saneamento, os partidos dividem bilhões para pedir votos.

E fazem isso com o nosso dinheiro.

O eleitor precisa conhecer esses números antes de votar. Precisa saber quanto cada partido recebe, quanto gasta, quanto paga aos seus dirigentes e como utiliza os recursos públicos. Precisa entender que o discurso da falta de dinheiro desaparece misteriosamente quando os beneficiados são os próprios políticos.

O Brasil precisa rever essa atrocidade.

E nós, eleitores, precisamos parar de agir como idiotas. Precisamos cobrar, questionar e rejeitar quem trata o Tesouro Nacional como caixa particular de partido.

Porque os quase R$ 5 bilhões do fundo eleitoral não brotaram numa árvore em Brasília.

Saíram do nosso bolso.

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