ANO IV

11/07/2026

HojePR

agenor

Você compraria um carro vendido pelo Valdemar? E votaria em um candidato apoiado por ele?

10/07/2026
valdemar e moro

Imagine a cena.

Você entra numa loja de carros usados. O vendedor se aproxima sorridente, aperta sua mão com entusiasmo e garante que aquele automóvel é uma raridade. Nunca bateu, nunca foi alagado, nunca deu problema. O motor está perfeito, a quilometragem é original e o antigo proprietário era uma senhora que só usava o carro aos domingos para ir à missa.

Então você consulta o histórico do veículo. No seu próprio celular, em um desses aplicativos que mostram de tudo.

Descobre que ele já passou por oficina, funilaria, perícia, recall, apreensão e sabe-se lá mais o quê. O vendedor, porém, continua sorrindo. Diz que tudo não passa de perseguição da concorrência. Você olha melhor e nota que esse vendedor é Valdemar Costa Neto, o presidente do PL.

Você compraria? Provavelmente não.

Agora troque o carro por um candidato e a concessionária por um partido político.

A pergunta agora é: você votaria nele? Um candidato apresentado e apoiado pelo camarada Valdemar?

O presidente nacional do PL voltou ao centro de um escândalo. Segundo a Polícia Federal, mesmo sem exercer mandato parlamentar, Valdemar teria interferido na destinação de 21 emendas de comissão, modalidade que cresceu depois do fim do chamado orçamento secreto. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões em bens do dirigente partidário. A PF calcula que pelo menos R$ 104 milhões das emendas investigadas chegaram a ser pagos e aponta Valdemar como possível beneficiário do esquema. A defesa nega qualquer crime e afirma que a decisão criminaliza indevidamente a atividade político-partidária. Trata-se, portanto, de investigação, não de nova condenação. Mas os investigadores resolveram abrir o capô.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, aparece formalmente como solicitante de aproximadamente R$ 94 milhões. Luiz Carlos Motta surge ligado a R$ 22,8 milhões e Capitão Alden, a R$ 2,4 milhões. Ambos são deputados do PL. Segundo a PF, esses parlamentares teriam emprestado seus nomes para indicações que, na realidade, eram controladas pelo presidente do partido. Em linguagem menos burocrática, seriam os donos de fachada de uma mercadoria cuja nota fiscal política levaria a outro endereço. Segundo a PF, são laranjas de Valdemar.

É uma espécie de orçamento secreto com despachante, motorista e documento em nome de terceiros.

Nada disso autoriza uma condenação antecipada. A presunção de inocência continua valendo, inclusive para quem já teve dificuldades anteriores com o Código Penal. Mas também não obriga ninguém a sofrer de amnésia.

E, no caso de Valdemar Costa Neto, o histórico não cabe numa nota de rodapé.

Ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo do Mensalão a sete anos e dez meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em dezembro de 2013, depois que o STF determinou sua prisão, apresentou-se no presídio da Papuda e renunciou ao mandato de deputado federal. Era a segunda vez que renunciava a uma cadeira na Câmara após ter seu nome envolvido no escândalo.

Portanto, não estamos falando de alguém que caiu de paraquedas no noticiário policial. Estamos falando de um político condenado por corrupção e lavagem de dinheiro que, anos depois, volta a ser apontado pela Polícia Federal como personagem central de outro esquema milionário envolvendo recursos públicos.

O carro pode ter recebido pintura nova. O número do chassi, entretanto, permanece o mesmo.

E é justamente aqui que Sergio Moro entra na história.

Moro conhece esse passado. Não por ouvir dizer, nem por ter recebido um resumo pelo WhatsApp. Como juiz federal, atuou como auxiliar da ministra Rosa Weber durante o julgamento do Mensalão. Não foi ele quem decretou a prisão de Valdemar, mas participou tecnicamente do processo que terminou com a condenação do dirigente do PL. A relação entre os dois carregou durante anos o peso daquela história.

Em janeiro de 2022, quando ainda tentava se apresentar como alternativa presidencial, Moro criticou a influência de Valdemar sobre Jair Bolsonaro. Referindo-se ao dirigente do PL, afirmou achar complicado ver “alguém que foi condenado criminalmente por receber suborno” mandando no presidente da República.

Era complicado. Deixou de ser.

Em março de 2026, Moro filiou-se justamente ao partido comandado por Valdemar para disputar o Governo do Paraná. Durante o ato de filiação, comprometeu-se ainda a fortalecer no estado o projeto presidencial do PL.

A política brasileira tem dessas operações milagrosas. O sujeito que ontem era apresentado como prova da degradação do sistema hoje se transforma em anfitrião, aliado, presidente partidário e patrocinador eleitoral.

Não houve absolvição histórica. Houve conveniência.

O próprio Valdemar explicou a mudança com uma sinceridade quase comovente. Disse ter mudado de opinião sobre Moro porque o PL precisava dos votos dele. É difícil encontrar definição mais cristalina do pragmatismo nacional. Não foi uma revisão jurídica. Não foi uma descoberta moral. Não foi o aparecimento de uma prova nova. Foram os votos.

Ao vencedor, as batatas. Ao candidato competitivo, a legenda.

Moro, por sua vez, parece ter concluído que certas condenações deixam de ser tão complicadas quando o condenado controla um partido grande, dispõe de estrutura eleitoral e pode entregar tempo, palanque, recursos e capilaridade.

A biografia, nesse caso, torna-se um acessório opcional.

Pode ser retirada para reduzir o peso da candidatura.

O problema é que Moro não construiu sua carreira política como um parlamentar qualquer. Vendeu-se ao eleitor como símbolo do combate à corrupção, como o homem que não faria concessões ao velho sistema, como o magistrado que havia enfrentado poderosos e desafiado os donos da política tradicional.

Esse era o produto anunciado.

Agora, para tentar chegar ao Palácio Iguaçu, aceita a chave da concessionária de Valdemar.

É legítimo que políticos mudem de opinião. A vida pública não exige rigidez mineral. Alianças podem ser revistas, adversários podem conversar e circunstâncias podem mudar. Mas existe uma diferença entre mudar de opinião e despejar a própria biografia numa caçamba de entulho.

Quando alguém transforma o combate à corrupção em sua principal credencial eleitoral, suas alianças não são um detalhe administrativo. São parte do programa de governo.

“Diga-me com quem andas” talvez seja um ditado excessivamente moralista para a vida cotidiana. Na política, porém, ele funciona quase como uma auditoria.

O eleitor não escolhe apenas o candidato. Escolhe o grupo que chegará com ele, os compromissos assumidos, os financiadores políticos, os dirigentes partidários, os padrinhos e os cobradores que aparecerão depois da eleição.

É com Valdemar Costa Neto que Moro pretende disputar o Paraná.

É no partido comandado por um condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro que o ex-juiz pretende reconstruir sua imagem de paladino da moralidade.

É ao lado de lideranças agora citadas numa investigação sobre o possível desvio de R$ 119 milhões em emendas que ele pretende apresentar um projeto de poder.

Não se está afirmando que Moro participe das irregularidades investigadas. Não existe elemento conhecido que autorize essa conclusão. A questão é política, ética e biográfica. Qual é o limite das alianças para alguém que fez da intransigência moral sua principal marca?

Talvez Moro responda que governar exige maioria.

Valdemar já respondeu que precisa dos votos de Moro.

Está tudo muito claro.

Um precisa da legenda. O outro precisa dos votos. A coerência, aparentemente, não participou da reunião.

Por isso, voltemos à loja de automóveis.

Valdemar se aproxima, aponta para o veículo, elogia a pintura, oferece financiamento e garante que agora tudo será diferente. Ao lado dele está Sergio Moro, segurando a chave e dizendo que o negócio é seguro.

Você conhece o histórico do vendedor.

Conhece o histórico do automóvel.

E sabe que o garoto-propaganda também conhecia os dois antes de aceitar fazer o comercial.

Você compraria esse carro?

A resposta é sua.

Mas, antes de assinar o contrato, ou apertar o número na urna, talvez seja prudente verificar o chassi da coerência.

(Imagem criada por IA)

Leia outras colunas do Agenor aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

Deixe um comentário