ANO IV

11/07/2026

HojePR

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Deltan, o embaixador pago com dinheiro público

11/07/2026
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Todo ano é a mesma coisa. O trabalhador brasileiro espera o governo anunciar o novo salário mínimo, comemora por alguns minutos e logo percebe que o supermercado havia sido avisado antes dele.

É quando se dá conta de que o reajuste reservado ao seu bolso compra pouco mais que um pacote de arroz e outro de feijão.

Em contraste com essa realidade, na qual vive boa parte da população brasileira, existem os fenômenos partidários. E isso o ex-procurador Deltan Dallagnol conhece bem.

Em 2023, depois de ter o mandato de deputado federal cassado, Deltan passou a atuar como embaixador nacional do Partido Novo. Recebeu R$ 89.709,35 da legenda. Em 2024, os pagamentos chegaram a R$ 365.652, média de R$ 30.471 mensais, conforme a prestação de contas apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral.

Era uma remuneração bastante respeitável. Mas sempre há espaço para o aperfeiçoamento profissional.

Em 2025, Deltan deixou de receber diretamente como pessoa física. Entrou em cena a Comply Aperfeiçoamento Profissional, empresa que tem como sócios o ex-procurador, sua esposa e seus filhos.

A Comply recebeu R$ 382.500 do Fundo Partidário durante nove meses. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, há um contrato entre a empresa e o Novo que prevê pagamentos mensais de R$ 42.500.

O salário, como se vê, aperfeiçoou-se. Ganhou CNPJ, contrato e nota fiscal.

Entre 2024 e 2025, a remuneração mensal ligada ao trabalho de Deltan aumentou 39,48%. No mesmo período, o salário mínimo daquele trabalhador do começo do texto passou de R$ 1.412 para R$ 1.518, alta de 7,51%.

O reajuste do embaixador foi proporcionalmente 5,26 vezes maior que o concedido ao brasileiro comum.

O trabalhador ganhou R$ 106. O contrato da empresa de Deltan ganhou R$ 12.029. Certamente foi uma negociação difícil.

Mas existe um detalhe ainda mais interessante. Esse dinheiro não saiu de uma vaquinha entre filiados do Novo, nem da generosidade de algum empresário encantado com apresentações de PowerPoint.

Saiu do Fundo Partidário.

Estamos falando de recursos públicos repassados pelo Estado aos partidos políticos. Dinheiro que vem, entre outras fontes, de dotações do Orçamento da União e de multas aplicadas pela Justiça Eleitoral.

É dinheiro público.

A diferença está no destino do serviço.

Um funcionário público recebe do Estado para prestar serviços à população, executar políticas públicas, atender cidadãos, fiscalizar, ensinar, julgar ou manter a máquina administrativa funcionando.

Deltan recebe, por meio da empresa da família, dinheiro de origem pública para prestar serviços ao próprio Novo. Seu trabalho consiste em divulgar a legenda, engajar as bases, desenvolver campanhas e conquistar novos filiados.

O Estado paga. O partido recebe o resultado.

É uma espécie bastante criativa de Estado mínimo.

Mínimo na hora de atender a população. Bem mais generoso quando chega a folha partidária.

Os R$ 42,5 mil mensais não superam o subsídio bruto do presidente da República nem o dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Desde fevereiro de 2025, ambos recebem oficialmente R$ 46.366,19.

Deltan ficou apenas R$ 3.866,19 abaixo.

Questão de humildade, diriam os fãs do embaixador.

Seu contrato alcançou 91,7% da remuneração destinada a quem governa o país ou ocupa uma cadeira na mais alta corte brasileira.

Não ganha mais que o presidente. É apenas quase.

Também não supera o salário de um ministro do Supremo. Para alcançar o empate, bastaria algum daqueles penduricalhos que Brasília costuma encontrar quando o salário oficial demonstra falta de imaginação.

A diferença é que o presidente precisa administrar a República. Os ministros do STF julgam processos constitucionais.

Deltan divulga o Novo.

Segundo o partido, uma de suas principais funções é desenvolver campanhas de comunicação e marketing, engajar as bases e atrair novos filiados.

É uma interessante reconversão profissional.

A trajetória de Deltan foi construída no Direito e no Ministério Público Federal. Não aparece em sua biografia formação acadêmica em publicidade ou marketing.

Talvez a experiência com apresentações de PowerPoint tenha sido considerada suficiente. Vamos admitir que eram bem feitinhas.

A situação fica ainda mais curiosa porque as prestações de contas do Novo também registram pagamentos consideráveis a empresas especializadas justamente em marketing.

Entre elas estão a Kilter MKT e Serviços Ltda. e a JMB Marketing Político, ambas de Curitiba. A primeira tem entre seus sócios o vereador Guilherme Kilter, do próprio Novo, e integrantes de sua família. A segunda também atua no setor de marketing.

Pode haver uma explicação técnica perfeitamente razoável.

Uma empresa talvez faça marketing direto. Outra, marketing político. Deltan, por sua vez, pode cuidar do marketing jurídico-diplomático-ideológico com aperfeiçoamento profissional.

São atividades certamente muito diferentes.

Embora, para quem paga a conta, pareçam extraordinariamente parecidas.

A existência do contrato e dos pagamentos declarados não demonstra, por si só, qualquer ilegalidade. A questão é outra.

É uma questão de coerência.

O Novo passou anos defendendo austeridade, redução do Estado, corte de despesas públicas e respeito ao dinheiro do contribuinte.

Quando esse dinheiro chega ao Fundo Partidário, porém, parece sofrer uma transformação ideológica.

Deixa de ser gasto público. Vira salário de embaixador. No fim das contas, o Novo não pratica nada de novo.

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