Há explicações que exigem advogado. Outras exigem contador. A de Valdemar Costa Neto talvez exija um especialista na resistência da pele humana.
Questionado sobre a investigação que apura sua participação no direcionamento de emendas parlamentares, o presidente nacional do PL disse ser “lógico” e “natural” que dirigentes partidários participem da distribuição do dinheiro. Eles recebem prefeitos e fazem sugestões aos líderes das bancadas.
Está explicado.
Valdemar sugere o município, a obra, o valor e o beneficiário. O deputado entra com a assinatura. Ele entra com todo o resto.
É uma autoria terceirizada. O sujeito escolhe o prato, determina os ingredientes e manda preparar. Quando perguntam quem fez o pedido, aponta para quem assinou a comanda.
A Polícia Federal sustenta que Valdemar teria atuado no direcionamento de 21 emendas que somam aproximadamente R$ 119,2 milhões, apesar de não possuir mandato parlamentar. O ministro Flávio Dino determinou o bloqueio de bens até esse limite e suspendeu as emendas investigadas. A defesa nega irregularidades.
Cabe a ressalva: bloqueio cautelar não é condenação. Também não significa que tenham sido encontrados R$ 119 milhões numa conta ou que Valdemar possua todo esse valor.
Mas a decisão provoca uma curiosidade inevitável: que belo patrimônio, hein?
Presidentes de partidos podem conversar com parlamentares e apresentar demandas. O problema começa quando a influência deixa de ser opinião e se transforma em comando.
Uma coisa é informar que uma cidade precisa de uma ambulância. Outra é definir destino, valor e beneficiário, deixando para alguém com mandato apenas a tarefa de formalizar a decisão.
No primeiro caso, há articulação. No segundo, existe um dono oculto da emenda.
Valdemar tenta normalizar a prática dizendo que todos os presidentes partidários fazem isso. É a versão adulta do argumento infantil “não fui só eu.”
Se todos fazem, a prática não se torna correta. Torna-se maior o problema. O que Valdemar apresenta como tradição pode ser apenas uma deformação antiga.
Mas essa história não atinge apenas Valdemar.
Ela alcança Sergio Moro, senador, ex-juiz da Lava Jato, filiado ao PL e pré-candidato do partido ao governo do Paraná. Foi Valdemar quem recebeu Moro na legenda e ajudou a apresentar sua candidatura como parte do projeto eleitoral do partido.
Desde que Flávio Dino escancarou mais esse escândalo e determinou o bloqueio milionário, porém, Moro não foi encontrado entre os indignados.
Até a publicação desta coluna, em 15 de julho, não ouvimos nenhuma manifestação pública do ex-juiz sobre o caso.
O silêncio chama atenção porque Moro construiu sua carreira política sobre o combate à corrupção. Transformou a cobrança por explicações e a defesa da transparência em identidade pública.
Agora, o presidente do partido pelo qual pretende governar o Paraná é investigado por supostamente controlar uma fatia milionária de emendas sem mandato. Valdemar oferece uma explicação de espantosa cara de pau. Moro oferece o silêncio.
Candidatos também são avaliados pelas companhias que escolhem e pelos silêncios que administram.
Moro não caiu por engano dentro do PL. Filiou-se conhecendo o presidente e sua história. Posou ao lado de Valdemar, assinou a ficha e aceitou a estrutura partidária para disputar o governo.
Quando precisava de legenda, Valdemar servia.
Agora que o chefe partidário precisa explicar as emendas, Moro desaparece.
O ex-juiz não precisa antecipar condenações. Poderia apenas defender investigação rigorosa, transparência e esclarecimento completo dos fatos.
Não fez nem isso.
Valdemar fala como se administrar emendas sem mandato fosse função prevista no estatuto do partido. Moro cala como se o presidente da legenda de sua candidatura fosse um desconhecido encontrado no elevador.
Um explicou demais. O outro explicou de menos.
No fim, a cara de pau de Valdemar e o silêncio de Moro se completam. Um tenta transformar o absurdo em rotina. O outro tenta atravessar a rotina sem ser notado.
Para o eleitor paranaense, fica a pergunta: se Moro não consegue cobrar transparência do próprio partido durante a campanha, o que pretende cobrar dos outros depois da eleição?
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